Demi Getschko: regulação da IA deve acelerar, ‘mas com juízo’

No mês do Dia da Informática, conselheiro do CGI.br e expoente da internet brasileira fala sobre legado, educação e discussões urgentes do presente

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2:30 pm - 16 de agosto de 2023
Demi Getschko. Foto: Divulgação, NIC.br

Não foi a primeira vez que entrevistei Demi Getschko. Quando comecei a cobrir tecnologia, telecomunicações e internet, no começo da década passada, era comum cruzar com o “pai da internet brasileira” em eventos do setor ou coletivas de imprensa do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (o NIC.br), que ele preside desde 2005. O fascínio, no entanto, nunca se apaga.

Demi parece um professor de física, daqueles dos filmes. Filho de búlgaros e nascido na Itália, imigrou para o Brasil ainda bebê. Se formou em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), mas sempre trabalhou e orientou seus estudos para a computação – fez mestrado e doutorado na área pela mesma universidade.

Sempre cultivou a barba longa (ao menos desde que me lembro), que agora está ainda mais longa. Por trás dos óculos e das sobrancelhas levantadas que lhe dão uma aparência de gravidade, talvez braveza, reside um sujeito afável, de sorriso fácil e frases incisivas, sempre simpáticas e professorais.

O título de “pai da internet”, embora discutível e por ele rejeitado, não é por acaso. Getschko era coordenador de operações da Rede Nacional de Pesquisa e Inovação (RNP) e foi membro da equipe que, em fevereiro de 1991, implementou a primeira conexão TCP/IP brasileira. A primeira ligação foi realizada entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Energy Sciences Network (ESNet), nos EUA, e tinha como objetivo conectar às universidades paulistas à internet.

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“Claro que não”, ele me responde, quando pergunto se ele se identifica com o título dado. “Eu me sinto muito honrado. Fui um dos que trabalharam. É uma atividade colaborativa, cooperativa. Não há um pai disso, sem dúvida nenhuma.”

Uma curiosidade importante, caro leitor: Demi Getschko também foi CIO. Atuou como diretor de tecnologia da Agência Estado, empresa do Grupo Estado, duas vezes: entre 1996 e 2000 e, de novo, entre 2002 e 2005. Também foi vice-presidente de tecnologia do iG, entre 2000 e 2001, o que quer dizer que ele também é em certa medida um dos “pais” do jornalismo online brasileiro.

“Eu tive a sorte de conviver com jornalistas espetaculares lá. E eu concordo com você, o jornalismo foi muito impactado pela internet”, diz Demi, ressaltando que esse impacto não é necessariamente positivo atualmente. “Há as superficialidades. Se ficarmos só na manchete ninguém consegue competir com o mundo da internet, que dá notícias instantâneas. Certas e erradas.”

Demi é conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) desde 1995 por conta de seu “notório saber em informática”. Também faz parte de conselhos de outros órgãos ligados ao debate sobre a internet brasileira, e já foi homenageado por isso – inclusive internacionalmente.

A seguir, alguns dos melhores momentos da conversa que tive com Demi Getschko para esse especial do IT Forum para o Dia da Informática.

 

IT Forum: Você se formou em Engenharia elétrica em 1975 – fazem 48 anos. E passou por muita coisa na história do desenvolvimento da tecnologia e das telecomunicações no Brasil. Quando você olha para trás, o que sente? Como foi essa opção de entrar no mercado de tecnologia?

Demi Getschko: Toda família está na engenharia desde meu pai, meu avô etc. Então era razoável que eu fosse para a engenharia. E quando você vai pensar no que fazer, evidentemente como você é um masoquista sempre vai escolher o que é mais concorrido. A Poli era muito difícil para entrar, engenharia elétrica mais concorrida que as demais.

Eu tive que fazer elétrica, telecomunicações, eu sempre trabalhei e em digital já desde 1971 quando eu fui estagiário no Centro de Computação (da USP). Meu mestrado e doutorado foram mais para digital, em processamento de imagem e supercomputação. Me fixei na área de computação, trabalhei no centro de computação da USP, depois fui para a Fapesp, até para montar um centro de processamento de dados lá, CPD como se dizia na época. E esse CPD que fez a conexão da Fapesp.

 

IT Forum: Nessa época já existia essa ideia de que a computação era o futuro? Era a profissão do futuro, como se tem até hoje?

Getschko: Na época que eu estava na Poli havia mais espaço para trabalhar em telecomunicações do que computação. Ainda estava começando no País. Aí apareceu a Lei de Informática que reservou o mercado para computadores brasileiros, apareceu a Scopos. Quando me formei já havia espaço para trabalhar em computação e foi crescendo rapidamente.

Eu acho que o que aconteceu foi que algo que era muito especial, tinha que ir no data center cercado de mitologia para usar o computador enorme e misterioso, hoje está na mesa de todo mundo em várias versões. Virou algo onipresente, o que exige cada vez mais gente na área.

 

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Demi Getschko durante audiência no Senado Federal. Foto: Geraldo Magela, Agência Senado

 

IT Forum: Como você vê os esforços, não só da academia, para formar mais gente em TI? Eles tem sido feito com a qualidade suficiente ou é mesmo o momento de ter quantidade?

Getschko: Quantidade e qualidade são relacionadas. Quanto tem competição para entrar tem automaticamente um crivo de qualidade pois é preciso selecionar os que vão entrar. É necessário que mais e mais pessoas entrem nela. Ela permeia totalmente nossa vida, e cada vez mais precisa de gente que se envolva com isso.

É importante se você quer ter eficiência na formação, ter dois aspectos principais. Primeiro uma formação solida conceitual, que no geral a universidade vai dar. Depois uma constante atualização. Se você tiver só uma formação técnica, não vai ter a base sólida, e do contrário se torna obsoleto rapidamente. É um trabalho constante.

 

IT Forum: Você ainda dá aulas, Demi? Gosta da relação com a nova geração de profissionais de tecnologia?

Getschko: Atualmente eu só estou orientando. Tenho alguns orientados, fazendo doutoramento na PUC, mas não tenho dado aula por dois anos já.

Eu acho que é importante que exista essa chama dentro de cada aluno. E quando você vê os olhos [do aluno] brilhando é um bom sinal. E tem que se interessar pelas coisas fundamentais também, não adianta pensar na última coisa da moda. Tudo isso depende de conceitos fundamentais: estrutura de dados, arquitetura, redes de computador etc. Depois se faz cursos técnicos de aprimoramento.

Por isso é importante ter uma formação de pós-graduação. Continuar fazendo não só cursos formais, mas informais também. Mas é bom ter uma continuação da formação porque é uma área tão dinâmica e mutável que em três ou quatro anos você não sabe mais nem quais são os jargões da área.

 

IT Forum: A indústria e academia tem falado cada vez mais de uma formação humanística para os profissionais de tecnologia. A inteligência artificial tem imposto essa questão. Como você vê essa questão?

Getschko: Acho extremamente relevante e atual. Primeiro porque coisas como IA, por exemplo, são transversais. Elas podem ter uma base em computação, mas afetam teoria do conhecimento, sociologia, psicologia etc. Eventuais mudanças de emprego, desemprego e interação com ser humano. E coisas mais complicadas ainda que são decisões que podem ser delegadas ou não à IA.

Existem aí certos riscos e é fundamental pensar nisso a priori porque depois de feita a bobagem é difícil consertar. Tem várias áreas em que existem riscos. Mas como a IA está em tudo, como se fosse um ser humano crível, é importante que ela fala com você como se estivesse falando com seu amigo.

Esse treco é realmente complexo e preocupante nesse sentido – são fundamentais discussões na área ética e formas de isso não sair do controle do ser humano.

 

IT Forum: A IA é um tema debatido atualmente no âmbito do CGI.br?

Getschko: O CGI foi criado em 1995, e eu sou um dos 21 membros [originais]. Sou um sujeito do NIC.br, estou na área operacional do negócio. O CGI tem como grande legado dar a direção do desenvolvimento da internet. Uma das grandes obras [do órgão] foi o decálogo que depois gerou o Marco Civil da Internet.

Nesses momentos é preciso ter um grupo multisetorial que pensem coisas como IA. Você pode leis e regulações, mas primeiro alguém precisa olhar para o geral e pense por exemplo em um decálogo sobre IA. O que deve ou não ser feito sobre um ponto fundamental. É como as leis do Asimov [Isaac Asimov, escritor] que criou as leis sobre robótica. Que o robô não pode fazer mal ao homem, preservar o humano…

 

IT Forum: E o CGI.br tem de fato se debruçado sobre a questão da IA? Há diálogo com o poder legislativo?

Getschko: Existe um risco, até por uma angustia do legislador de tentar correr na frente. É sempre melhor tratar de direitos e regras do jogo. Existe um grupo de trablaho de IA, que está trabalhando em um certo ritmo, mas acredito que esse tipo de pensata seja discutido de forma aberta sem pensar se vai virar lei ou não.

O Marco Civil da Internet levou seis anos sendo discutido e refinado até ser assinado em 2014. Tem uma frase latina que diz que você precisa se apressar lentamente. Em suma, a gente tem que se apressar nisso lentamente.

É importante uma pensata do CGI sobre isso. Provavelmente vai haver. E evidentemente não se pode impedir que os legisladores discutam o que quiserem. Mas a gente gostaria que isso não atropelasse [essa ordem].

Festina lente! Apressa-te devagar. [Frase atribuída ao imperador romano Augusto.]

 

IT Forum: Quais suas maiores preocupações atuais no que diz respeito ao futuro da internet, Demi? A a evolução da IA? São as ‘fake news’? Cibersegurança?

Getschko: Em relação à internet, é preciso definir o que é. É uma espécie de substrato em que crescem coisas variadas. São cosias que foram criadas sob uma base que é a internet. As coisas criadas sobre esse substrato podem ser ótimas, péssimas ou mais ou menos. É preciso prestar atenção sobre o que é criado sobre isso?

O futuro da internet não é mais visível. Você vai ver as coisas sobre ela. É o mesmo que perguntar qual o futuro da eletricidade. As coisas se constroem sobre ela.

Eu não sou evidentemente da área de psicologia ou sociologia, mas ela muda o comportamento humano. Primeiro porque estamos conforto, não queremos muita encrenca para o nosso lado. Isso fez com que a primeira internet migasse para as redes sociais, porque ela te já te dá dicas, te arruma amigos e traz conexões. Você saiu de um esquema ativo para um “semi-passivo”. Você recebe coisas que não pediu de um monte de lugares. E isso pode gerar mudanças de comportamento que eu não poderia avaliar.

Na minha modesta avaliação isso gera uma certa superficialidade. A gente lê uma manchete e acha que entendeu e já sai criticando. As vezes o texto não tinha nada a ver com aquilo, mas ninguém lê mesmo. A internet não nos traz isso de malícia, mas pelo nosso comodismo.

Não vou citar aqui a frase do Umberto Eco, mas a internet deu voz a todo mundo e nem sempre as vozes são bem soantes.

 

IT Forum: Você foi diretor de tecnologia na Agência Estado e no iG, ambos do setor de mídia. A imprensa foi um dos primeiros setores a “abraçar” a internet e, ao mesmo tempo, um dos que mais sofreu. E talvez ainda sofra. Como foi esse período?

Getschko: O atrator que me levou à Agência Estado, além das pessoas que eu conhecia lá, era que eles estavam nessa transição. Eles mandavam notícias de bolsa de valores em tempo real usando rádio FM, depois o espaço de branqueamento de TV, um meio qualquer de broadcast. Isso foi superado rapidamente pela internet.

O trabalho em que me envolvi lá foi na transmissão desse tipo de informação para a internet. Tive sorte de conviver com jornalistas espetaculares lá. E eu concordo com você, o jornalismo foi muito impactado pela internet.

Talvez de novo pela superficialidade. Se as pessoas buscassem um conteúdo mais profundo, uma tutoria da informação, que profissionais podem fazer. Se você fica só na manchete, na notícia instantânea, ninguém consegue competir com o mundo internet, que dá notícias certas e erradas.

Eu não tenho muita preocupação com as coisas erradas e certas porque sempre houve coisas erradas e certas, mesmo nos velhos tempos. O que acontece hoje é que essa como essa superficialidade se impõe, o pessoal não tenta examinar. É mais importante ter um treco chamativo.

 

IT Forum: O público do IT Forum é formado em grande parte por gestores de TI, os CIOs, diretores de TI… Você ainda se sente um CIO, um diretor de tecnologia em alguma medida?

Getschko: Na verdade hoje o ambiente é tão amplo que dizer que entende de tecnologia em geral é uma arrogância gigantesca. Você tenta enxergar o ambiente e escolher profissionais com competências especificas. O cara melhor de redes, de tecnologia… Pessoas competentes no segmento, muito mais que você, e você fica tentando ver o cenário geral. Os rumos que as coisas estão andando.

O CIO e o CTO como tecnologia em geral vai tender a ser fatiado em pedações. Informática impacta em privacidade, dados pessoas, tecnologia, dados, IA… Você não pode entender sobre tudo. É melhor ter profissionais na área que complementem o que você faz, mas ter também um ‘big picture’, como dizem os americanos.

 

*Esta é uma das reportagens da série Especial Dia da Informática 2023, celebrado em 15 de agosto. Confira aqui o especial completo.

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Marcelo Gimenes Vieira

Editor do IT Forum. Jornalista com 12 anos de experiência nos setores de TI, telecomunicações e saúde, sempre com um viés de negócios e inovação.

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