O desafio das corporações, o Venture Capital e a governança das startups

Como se dá a relação de empresas e iniciativas de novos negócios e sobre o que se atentar na aproximação entre elas

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2:30 pm - 23 de dezembro de 2021
investimentos

Dando continuidade ao artigo do meu colega da Comissão de Startups e Scale-ups do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que foi publicado em novembro – “O Corporate Venture Capital (CVC) e as startups”, tenho acompanhado de perto as diversas mudanças de comportamento no mercado envolvendo corporações e startups. Nos últimos anos, as  corporações passaram a ser cada vez mais impactadas, em várias dimensões, pela agilidade e pelo crescimento acelerado das startups. Frente a um mercado em rápida transformação, em um ritmo alucinante ditado pelas startup e, totalmente, fora de suas zonas de conforto, as corporações se depararam com um claro desafio a seus modelos de negócios tradicionais.
A saída quase óbvia para muitas corporações foi o engajamento com startups em programas de inovação aberta como se fosse algo, com perdão do trocadilho, “inovador” (sugestão de leitura sobre o tema: “Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology”, de Heny Chesbrough, publicado em 2003 pela HBS Press). Em busca de alternativas para sua própria sobrevivência no longo prazo, um passo além da inovação aberta tem sido dado por algumas corporações que, pressionadas por acionistas e concorrentes, criaram iniciativas de Corporate Venture Capital (CVC) para investirem em startups e, assim, avançarem ainda mais sobre esse “admirável mundo novo”, tentando ser percebidas pelo mercado como inovadoras ou, ao menos, tentarem sobreviver às mudanças.
Porém, em função da ausência na ampla maioria das  corporações de conhecimento especializado sobre o tema investimentos em startups, a condução do programa de CVC acaba parando na área de TI, que há tempos teve que assumir as discussões sobre inovação já que para muitos, equivocadamente, tecnologia é sinônimo. Ou, por falta de melhor opção, na área de Novos Negócios/M&A (do inglês Mergers and Acquisitions ou Fusões e Aquisições em português), que é afeita a investimentos e aquisições de participações societárias.
Um dos problemas que costuma surgir nas iniciativas de CVC, ainda na fase de aproximação com a startup para um potencial investimento, é o choque da cultura corporativa tradicional e hermética (áreas de TI e/ou Novos Negócios/M&A) com a cultura inovadora e dinâmica das startups. As áreas corporativas estão acostumadas a lidarem com processos, controles, prestação de contas, estruturas e contratos altamente complexos inerentes às corporações, mas que não condizem com a realidade das startups. Isso sem contar que muitas corporações, por meio de seus CVCs, estão buscando adquirir controle societário das startups, algo que foge do próprio conceito de CVC. Logo, muitos potenciais investimentos dos CVCs não passam das primeiras reuniões, frustrando as expectativas de ambos os lados.
Não obstante as dificuldades potenciais no alinhamento de interesses, uma parte das conversas entre startups e CVCs avançam para um efetivo investimento. Porém, muitas ainda não estão isentas de frustrações decorrentes de a corporação querer transformar a startup em seu “clone”, inchando sua estrutura e seus processos na busca por uma “melhor governança”.
Faz-se necessário que as  corporações que têm ou pretendem ter um programa de CVC de alto nível – e reconhecido pelas startups e pelo ecossistema como tal – compreendam que startups não são grandes empresas em miniatura. Nem mesmo são pequenas empresas com uma roupagem diferente. Startups são novos negócios inovadores de alto impacto que possuem uma dinâmica peculiar, inclusive no que se refere à governança corporativa, conforme abordado no Caderno de Governança para Startups e Scale-ups do IBGC.
Na esteira dessa publicação, e pensando em auxiliar cada vez mais o ecossistema de startups a compreenderem sobre governança, incluindo CVCs, investidores-anjos, gestores de Venture Capital, aceleradoras e incubadoras, mentores, consultores e demais participantes, o IBGC lançou recentemente a Métrica de Governança para Startups, uma ferramenta gratuita que identifica o grau de adesão das startups às melhores práticas de governança corporativa em várias dimensões (ou pilares).
Governança, definitivamente, não é apenas para grandes  empresas. E tampouco é um pacote fechado. Governança é uma jornada que depende das características da organização, da fase que ela se encontra (no caso das startups, temos ideação, validação, tração ou escala) e, principalmente, da busca genuína e da consequente maturidade em compreender o que de fato significa governança.
A boa notícia é que estamos vivendo um amadurecimento acelerado do ecossistema de startups com algumas histórias de sucesso inspiradoras para o crescimento e desenvolvimento do Brasil.
* Caio Ramalho é consultor, professor, pesquisador, conselheiro de empresas e investidor de startups. Sócio da Faerûn Ventures e coordenador da Comissão de Startups e Scale-ups do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)

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