O IT Forum Series é um projeto editorial que convida líderes de TI das maiores empresas do País para discutir algumas das tecnologias e tendências de maior potencial transformador. Aliados aos dados do estudo Antes da TI, a Estratégia, pesquisa promovida anualmente com os CIOs e gerentes de TI, o Series busca contribuir com a evolução do mercado e do ecossistema de tecnologia da informação e telecomunicações brasileiros.
RAFAEL ROMER (MEDIAÇÃO, TEXTO E PRODUÇÃO), GEORGES NABAHAN (PESQUISA)
CONVIDADOS: LAERTE KERBER FRANCO, DIRETOR DE TECNOLOGIA E DADOS DA VITRU EDUCAÇÃO, DIEGO SETTE, DIRETOR DE TECNOLOGIA DA PEARSON, E MARCOS STAHL, CIO DA FUNDAÇÃO BRADESCO
CAPTAÇÃO E EDIÇÃO DE VÍDEO: VORAZ FILMES
O setor da educação vive uma das transformações tecnológicas mais rápidas de sua história. Necessidades como a ampliação do acesso ao ensino, a modernização de modelos de aprendizagem e o ganho de eficiência pressionam líderes de TI do segmento a adotar novas tecnologias e processos. No quarto episódio da temporada 2025 do IT Forum Series, discutimos como as instituições de ensino estão digitalizando suas operações, enfrentando desafios estruturais e explorando o potencial da inteligência artificial para personalizar jornadas e melhorar resultados acadêmicos.
A conversa reuniu Laerte Kerber Franco, diretor de tecnologia e dados da Vitru Educação, Diego Sette, diretor de tecnologia da Pearson, e Marcos Stahl, CIO da Fundação Bradesco.
A digitalização do setor educacional brasileiro ainda esbarra em barreiras estruturais profundas. A dimensão continental do país, a desigualdade regional e a limitada infraestrutura de conectividade permanecem como alguns dos entraves centrais para instituições que buscam modernizar processos e ampliar o alcance tecnológico.
Para Diego Sette, diretor de tecnologia da Pearson, o primeiro obstáculo está na infraestrutura básica: “A ideação é uma coisa, a implementação é outra. Você tem que pensar não nos grandes polos, mas nos mais afastados, e como esses alunos vão ter acesso”, destacou.
O cenário se agrava quando a tecnologia chega ao cotidiano das escolas. Marcos Stahl, CIO da Fundação Bradesco, maior instituição filantrópica privada de educação do país, cita exemplos extremos. “Em Tocantins a gente não tem sinal de celular. Para validar um WhatsApp, o professor precisa dirigir uma hora e meia para pegar o SMS”, relatou. Para ele, a desigualdade de acesso pode aprofundar um abismo entre alunos conectados e desconectados, especialmente na educação básica.
Além das limitações estruturais, há barreiras culturais que dificultam a adoção tecnológica, tanto por docentes quanto pelas equipes de TI. Como lembrou Laerte Kerber Franco, diretor de tecnologia e dados da Vitru Educação, a digitalização acelerada pela pandemia forçou diversas instituições a migrarem rapidamente suas operações, pressionando estruturas internas ainda pouco maduras. “Às vezes queremos trazer muita complexidade, mas o caminho mais efetivo é o mais simples”, reforçou.

Para os CIOs participantes, a inteligência artificial tem se consolidado como uma das frentes mais promissoras e desafiadoras da transformação da educação no Brasil. Os executivos apontam que a IA já avança tanto em processos administrativos quanto no apoio pedagógico, mas ainda enfrenta níveis distintos de maturidade entre as instituições.
Na Vitru, a tecnologia está em uso desde antes da popularização dos modelos generativos, mas ganhou escala recentemente. A empresa criou o VitruLab, núcleo responsável por organizar e acelerar iniciativas em parceria entre tecnologia, inovação e áreas pedagógicas. Franco destaca a “SofIA”, assistente virtual desenvolvida para apoiar estudantes ao longo da jornada acadêmica, como um dos principais usos da tecnologia pela companhia. “O nosso grande sonho é um agente que consiga apoiar o aluno em tudo, que o motive e reduza a evasão”, afirmou.
Sette, da Pearson, abordou o impacto direto no engajamento dos alunos de idiomas com o uso de IA para treinar pronúncia: “Colocamos um agente nos exercícios de fala que dá feedback muito acurado. Isso aumentou o engajamento, que é o principal indicador de retenção”, observou.
A Fundação Bradesco trilha uma jornada mais cautelosa no uso pedagógico da IA, sobretudo devido às características socioeconômicas dos alunos. No entanto, Stahl aponta avanços internos, especialmente em segurança da informação e monitoramento de acessos: “Para nós, a inteligência artificial tem sido essencial na análise de vulnerabilidades”, explicou.
Apesar do entusiasmo, os três executivos chamam atenção para riscos relevantes, como o uso inadequado de ferramentas gratuitas. Na Vitru, por exemplo, esse cuidado levou à criação de um chat corporativo próprio para evitar vazamento involuntário de informações.
Ao discutir o futuro da tecnologia no setor, os executivos defendem uma convergência entre IA, análise de dados e novos formatos de engajamento. Nesse cenário, os dados serão fundamentais para transformar a experiência educacional.
Stahl, da Fundação Bradesco, lembra que escolas e universidades acumulam informações valiosas sobre a trajetória dos alunos ao longo de anos, muitas vezes sem explorar plenamente esse potencial. Para ele, trabalhar esses registros de forma estruturada pode redefinir o rumo do país. “A quantidade de dados em educação é impressionante. Se conseguirmos trabalhar esses dados de forma melhor, podemos direcionar as pessoas e mudar décadas de estagnação”, afirmou.
A visão é compartilhada por Franco, da Vitru Educação. Para ele, é necessário avançar para uma cultura totalmente orientada por dados também na educação. “Temos um volume absurdo de informação. Criamos modelos para entender por que o aluno sai e qual o risco de evasão, para agir antes que aconteça”, explicou.
Embora a inteligência sobre dados abra caminho para decisões mais precisas, ela não resolve sozinha um dos maiores gargalos da educação contemporânea: manter o aluno engajado. É nesse ponto que Sette, da Pearson, enxerga o verdadeiro divisor de águas. Ele lembra que, apesar dos avanços tecnológicos, a lógica de sala de aula mudou pouco em um século, enquanto a atenção dos estudantes migrou para formatos mais dinâmicos.
“Quem conseguir decodificar o algoritmo do engajamento vai mudar o jogo. O modelo de entrega da escola é praticamente o mesmo há cem anos, mas as pessoas mudaram”, disse.
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