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A compensação de carbono no divã – e no Vale do Silício

Por Eloá Orazem

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A credencial de “ecologicamente correto” está à venda, e milhares de grandes corporações pagam caro para desfilar de verde pelo tapete moral do mercado. A companhia aérea Delta, a Alphabet, dona do Google, e a até a Disney são algumas das gigantes que compram o perdão por seus pecados ambientais. Para isso, apostam na oratória da compensação de carbono, como é chamado o processo de plantio e conservação de árvores para “sequestrar” a emissão de CO2 e neutralizar as atividades poluentes de uma companhia.

O problema, porém, é que essa prática é ineficaz do ponto de partida. “Muita gente pensa em compensação de carbono como algo equivalente, como uma borracha apagando um lápis, e não é assim que as coisas funcionam”, explica ao IT Forum a professora de ecologia da Universidade de Washington Abgail Swan.

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A maior organização ambiental do mundo, o Greenpeace, concorda: “Projetos de compensação simplesmente não entregam o que precisamos – uma redução das emissões de carbono que entram na atmosfera. Em vez disso, eles são uma distração das soluções reais para as mudanças climáticas. Como consequência, essa prática permite que empresas como a BP e a Shell, bem como as companhias aéreas, continuem com seu comportamento insustentável enquanto transferem sua responsabilidade pelo clima para o consumidor”, escreveu Alia Al Ghussain no blog da ONG, em maio do ano passado.

Outro ponto bastante criticado da ideia de compensação de carbono é seu cálculo impreciso. As fórmulas usadas pelas calculadoras disponíveis internet afora usam parâmetros estipulados por instituições especializadas, mas todas trazem um resultado aproximado, nunca exato. Com o resultado em mãos, as companhias podem ir às compras dos famosos créditos de carbono, que são vendidos a partir de US$ 0,10 por tonelada. Dependendo da região e do projeto, esse valor pode subir consideravelmente para quase US$ 45 por tonelada.

Por conta das promessas ambientais, a demanda por projetos de neutralização de carbono vive seu momento mais fértil. Tanto grande que o banco alemão Berenger prevê que este mercado movimente US$ 200 bilhões até 2050.

Vendendo oportunidade

Para plantar uma semente própria nessa terra economicamente produtiva da compensação de Carbono, a startup Pachama, fundada em 2018 pelo administrador Diego Saez Gil, propõe uma nova abordagem econômica à questão. A Pachama entende que, sob um ponto de vista puramente financeiro, florestas são mais lucrativas quando exploradas para madeira ou latifúndio, então a única forma de mantê-la viva e verde seria atribuir a elas um valor maior.

Sob esse “modelo de negócio”, a ideia é pensar que, quanto mais carbono uma floresta sequestra, mais crédito ela gera – e mais valiosa fica. Dessa maneira, créditos podem ser comprados e vendidos, enquanto as áreas verdes seguem intactas. Assim, a Pachama vende ou facilita a venda de créditos de carbono florestal em regiões nas Américas do Norte e do Sul, e ainda verifica a legitimidade da área comercializada.

A companhia lança mão de imagens de satélite e outros recursos de inteligência artificial para validar as compensações de carbono e garantir que as florestas permaneçam intocadas.“Não estamos apenas articulando a conexão entre o comprador e o vendedor, mas também estamos fazendo toda a parte de validação e o monitoramento para que a transação seja confiável”, disse Saez Gil em entrevista ao Business Insider. Isso explica porque, mesmo com pouco tempo de operação, a Pachama conseguiu captar US$ 9,5 milhões em investimentos. Desse montante, US$ 5 milhões vieram numa rodada celebrada em setembro, que reuniu celebridades como Serena Williams, a toda-poderosa Amazon e o fundo social de Bill Gates, Breakthrough Energy Ventures. Com o dinheiro, a startup pretende dar escala ao seu serviço de restauração florestal e monitoramento.

Se por um lado a Pachama e seu marketplace verde tem empolgado os barões do Vale do Silício, por outro ela desanima os especialistas. A professora Swan explica que, quando uma árvore absorve CO₂, esse gás não desaparece magicamente. As árvores simplesmente armazenam o carbono, incorporando-o em seu tecido vivo à medida que crescem. Quando as árvores são destruídas, o carbono acumulado volta para a atmosfera, ainda como CO₂.

“Pense nas árvores como um esconderijo provisório de gás carbono”, resume a docente. Portanto, as compensações florestais só funcionam se mais árvores forem plantadas e todas permanecerem intactas por um século, tempo que o gás carbônico permanece da atmosfera.

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E por falar em plantio…

A salvação vem dos céus, mas não é divina. Utilizando drones especiais, a startup canadense Flash Forest tem como objetivo plantar 1 bilhão de novas árvores até 2028.

As aeronaves desenvolvidas sob medida para o propósito da Flash Forest são munidas com software de mapeamento aéreo, tecnologia pneumática, automação e ciência ecológica. Tudo isso permite que os drones semeiem duas mil árvores por hectare.

Em sua capacidade máxima, são 100 mil sementes plantadas por dia – tudo sob a supervisão de um único operador.”Temos três aeronaves em operação, mas devemos dobrar e talvez até triplicar nossa frota até o final do ano”, afirmou ao IT Forum Cameron Jones, um dos fundadores da empresa.

O impulso financeiro para decolar os primeiros passos das organizações veio de apoio popular. Mais de 1,5 mil pessoas doaram US$ 78,4 mil via campanha Kickstarter. “Cerca de 60% dos apoiadores estão nos Estados Unidos e Canadá, e em terceira posição estão os holandeses, mas contamos doadores de mais de 50 países – é um assunto internacional, que importa a todos”, contou.

Entre os principais atrativos que fizeram dessa vaquinha virtual tão bem sucedida estão, além da nobre finalidade da causa, a escalabilidade e diversidade do projeto. Enquanto a maioria das companhias de reflorestamento trabalham com cerca de três espécies, a Flash Forest se propõe a manusear até oito.

É importante para a startup que as sementes usadas em cada projeto sejam nativas e resistam às condições da região. Para assegurar o plantio, a companhia usa um tipo de muda em cápsula patenteada, desenvolvida sob medida para esse drone e esse trabalho. Cada cápsula contém uma mistura de ácidos que não apenas garante a sobrevivência das mudas até em tempos de seca, mas também aceleram o crescimento das árvores”ganhando” até dois anos de vantagem. Em solos mais difíceis, como manguezais ou terrenos montanhosos, os drones “atiram” com tecnologia pneumática, que leva as sementes a uma área mais profunda.

“Até plantadores humanos não conseguiram chegar ali”, disse Jones. Por fim, além de mais rápido, mais eficiente e mais seguro, a startup promete ser também mais barata. Embora cobre hoje US$ 1 por árvore, a ideia é reduzir o custo de plantio para US$ 0,50 por árvore – cerca de um quarto do valor praticado no mercado por empresas tradicionais.

Trabalhando atualmente em uma área perto de Toronto e outra na Columbia Britânica, a Flash Forest já tem acordo para replantar 300 mil árvores no Havaí no final de 2020. Nenhum dos acordos e contratos teve detalhes divulgados, mas já se sabe que operações na Austrália, Colômbia e Malásia fazem parte do cronograma da empresa.

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Segundo Jones, os investimentos são provenientes de negociações governamentais, de acordos com outras companhias de reflorestamento e de empresas que trabalham com minério e são obrigadas por lei a plantar árvores. A startup também admite doações de marcas que querem reverter uma parte da venda de um determinado produto para essas causas, ou para empresários que querem aproveitar incentivos fiscais mediante a pagamento para causas ambientais. Além de germinar as mudas, a companhia acompanha o processo.

“Dependendo do projeto, retornamos depois de dois meses, depois voltamos em um ou dois anos e, sequentemente, fazemos uma nova visita técnica dentro de três ou cinco anos”, explica.

Todo o cuidado é para garantir que as árvores se desenvolvam e cumpram sua missão de sequestrar o gás carbônico. Se for necessário, a empresa volta a direcionar sua frota de drones para a região até que a meta seja alcançada.

Apesar de ter todas as etapas e estratégias bem desenhadas, a Flash Forest sabe que seu sistema não soluciona de vez o problema do desflorestamento. Na América do Norte, as árvores precisam se desenvolver entre 10 e 20 anos até que cheguem ao ápice de armazenamento de carbono. Mas trabalhando nas duas pontas – proteger as florestas já existentes e o plantar novas árvores – talvez seja a maneira mais fácil, rápida e ética de lidar com uma questão que já é urgente.