O avanço da inteligência artificial está redefinindo modelos de negócios e criando uma nova dinâmica econômica baseada na abundância de inteligência
Por Leonardo Tristão
Recentemente, passou a circular nos altos escalões corporativos um relatório provocativo intitulado “The 2028 Global Intelligence Crisis”. O cenário descrito é sombrio: uma espiral deflacionária provocada pela inteligência artificial, em que o trabalho de colarinho branco é dizimado, a economia de consumo entra em colapso e trilhões de dólares em modelos de negócios baseados em intermediação e softwares tradicionais (SaaS) simplesmente evaporam.
Como CEO e estrategista digital, vejo que o relatório acerta o diagnóstico tático de algumas indústrias, mas exagera ao projetar essas transformações para toda a economia. Nunca na história uma revolução tecnológica, por mais disruptiva que tenha sido, representou um ofensor definitivo ao nosso futuro. Das ferrovias à eletrificação, passando pela internet, toda tecnologia que destrói eficiências antigas acaba criando um superávit econômico ainda maior.
A chamada “Crise de 2028” desenha um cenário que, embora não seja matematicamente impossível, parece historicamente e estruturalmente improvável. O relatório ignora um ponto fundamental: a inteligência humana. Sua capacidade de adaptação e de julgamento continuará sendo o principal vetor de qualquer transformação.
Abaixo, desconstruo os três principais “ofensores do futuro” apontados pelo relatório e apresento um contraponto sobre como líderes empresariais podem reposicionar suas empresas para a era da inteligência abundante.
O relatório prevê que a IA substituirá grande parte da classe média corporativa, criando uma espiral onde profissionais perdem seus empregos, o consumo despenca e o mercado imobiliário entra em colapso devido à insolvência de bons pagadores.
Essa visão assume a “fluidez universal de tarefas”, a crença de que a IA pode nivelar qualquer habilidade e substituir o especialista. Contudo, pesquisas recentes de Harvard já comprovaram a existência do “Muro da IA” (The Gen AI Wall). A IA eleva a capacidade de novatos na conceitualização, mas ainda falha na execução final quando não há a intuição e o conhecimento de domínio de um especialista humano.
A expertise real é insubstituível para integrar, avaliar e refinar os outputs produzidos pelas máquinas. Em vez de um deslocamento em massa, veremos uma mudança de foco: da execução tática para o julgamento crítico. Estima-se que a adoção massiva de inteligência artificial possa gerar ganhos trilionários em produtividade global, liberando o potencial humano para atividades de maior valor em vez de simplesmente substituí-lo. A inteligência analítica pode ser automatizada; já a sabedoria e a intuição humana acabam de ganhar um valor ainda maior.
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O relatório acerta ao apontar que agentes de IA poderão destruir modelos de negócios baseados em fricção, complacência do consumidor e taxas de intermediação, como parte do modelo atual de SaaS ou de redes de cartão de crédito, pulverizando o valor de mercado dessas empresas.
A fricção de fato morrerá, mas isso não significa o fim da economia. Na prática, estamos diante de um novo ciclo de alocação de capital. Hoje já se estima que agentes de IA possam facilitar cerca de 25% dos gastos online, mais de US$8 trilhões, até 2030.
A resposta para a redução da fricção não é o pânico, mas a reinvenção dos chamados fossos competitivos (moats). Nesse novo ambiente, a personalização deixa de ser uma tática e se torna a única defesa. Se a IA será capaz de comparar preços e negociar assinaturas em segundos, as empresas precisarão se apoiar em dados proprietários exclusivos.
O que a IA pública não consegue acessar se torna o novo ouro. Além disso, o que o relatório interpreta como um colapso de investimentos (CapEx) no setor de tecnologia pode ser visto de outra forma: a ascensão do que podemos chamar de “Shadow Opex”. As empresas não estão parando de investir, estão substituindo despesas operacionais lentas por infraestrutura de IA muito mais ágil. O capital, na prática, apenas mudou de forma.
O cenário de crise apresentado concentra-se quase exclusivamente no impacto da IA sobre o trabalho de conhecimento, programadores, consultores e criadores de conteúdo que seriam esmagados pela inteligência artificial generativa.
A verdadeira disrupção que pode impulsionar o crescimento do PIB não está apenas nas telas, mas na convergência entre IA e o mundo físico. Enquanto o relatório se preocupa com o colapso dos empregos de escritório, a inteligência artificial começa a ganhar “corpo”.
A robótica autônoma e humanoide, aliada a avanços no armazenamento de energia, abre espaço para uma nova fronteira econômica. Estimativas de mercado apontam para uma oportunidade de até US$11 trilhões até 2030 nesse campo.
A IA não está destruindo o PIB. Ela está transformando atividades antes invisíveis para a economia em valor mensurável, ao mesmo tempo em que substitui softwares legados por inteligência aplicada ao mundo físico.
Durante décadas, a premissa central da economia moderna foi clara, capital abundante e inteligência humana escassa. O relatório “The 2028 Global Intelligence Crisis” prevê um colapso porque tenta aplicar as regras de um mundo baseado em escassez a um cenário de inteligência potencialmente abundante.
Como líderes, nosso trabalho não é proteger modelos de negócios obsoletos que dependem da assimetria de informação ou do tempo perdido pelo cliente. Nossa missão é:
A revolução da IA não é um asteroide vindo em direção à economia global. Ela é o dínamo que pode acelerar um novo ciclo de produtividade e investimento. O futuro será liderado por aqueles que entendem que, por mais inteligente que a máquina se torne, o vetor da inovação, do propósito e do desejo de consumo continuará sendo, fundamentalmente, humano.
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