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David Birch: ter uma moeda única por país é uma limitação tecnológica

Por Eloá Orazem

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“O dia está maravilhoso: faz frio e chove” – o típico humor inglês é talvez a segunda marca-registrada de David Birch, escritor, consultor e palestrante descrito pelo The Telegraph como um dos maiores especialistas do mundo em moedas digitais. A primeira característica mais marcante de Birch é sua capacidade de observação. Foi olhando o mundo a seu redor que o autor chegou às teorias exploradas em quatro livros, sendo que seu último trabalho, a obra “Before Babylon, Beyond Bitcoin” (sem tradução para o português), foi escolhida pelo jornal American Banker como um dos 12 títulos de leitura “obrigatória”.

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Seu estudo sobre o poder e extensão da identidade levaram-no, em 2004, ao centro do palco do TED, uma das séries de palestras mais concorridas do mundo. Na ocasião, Birch falou por quase 20 minutos sobre novas maneiras de se evitar o roubo de identidades. Autor do recém-lançado “The Coming Currency Cold Wars”, Birch conversou com o IT Forum com exclusividade para falar sobre a sua área de especialidade – moedas digitais. Acompanhe a entrevista.

David Birch. Foto: Divulgação

IT Forum – Você defende a teoria de que a identidade é o novo dinheiro, poderia explicar como chegou a ela?

David Birch – Foram duas estradas diferentes que me trouxeram até aqui. Anos atrás, quando eu comecei a trabalhar na primeira geração do dinheiro eletrônico, ficou claro para mim que o problema era saber quem eram as pessoas. O valor era óbvio, mas os donos do valor não.

ITF – Como assim?

DB – Imagine que um cometa misterioso passe pela Terra e, magicamente, limpe sua conta bancária. Certamente isso seria irritante, mas no dia seguinte você iria ao banco e conseguiria fazer um empréstimo, pegar um novo cartão de crédito e tomar todas as medidas possíveis para contornar a situação adversa. Agora, e se esse cometa misterioso, além de limpar sua conta, também levasse sua identidade? O cenário seria muito mais complicado, porque de nada adiantaria ir ao banco: você não conseguiria tomar um empréstimo ou contratar qualquer serviço se não conseguir provar quem você é. No final das contas, o banco guarda a sua identidade – e não o seu dinheiro.

ITF – Até porque nem todo mundo tem o dinheiro, de fato, no banco…

DB – Exatamente. Boa parte do capital das pessoas estão em títulos residenciais, em ações, fundos de garantias, pensões e outras vertentes. Por isso que, quando falo “identidade”, uso o tema como um guarda-chuva para abranger certos sinônimos, como credenciais, reputação e as coisas que vem com isso.

ITF – Mas você comentou duas estradas – qual seria a segunda?

DB – Bem, a partir da ideia anterior, percebi que a falta de estrutura de identidade seria um problema sério e que a solução dessa equação poderia culminar em uma nova forma de fazer negócios. Em uma nova economia. Comecei a pensar que talvez não precisemos mais do dinheiro, porque fazemos tudo com as nossas credenciais e reputação – com a nossa identidade. Levei esse pensamento a outros pesquisadores de diferentes áreas, como historiadores e antropólogos, para explorar o assunto por outros ângulos.

ITF – E chegou a alguma conclusão?

DB – De certa maneira, chegamos a um lugar comum, sim. Esses estudiosos lembraram que, num passado bastante antigo, o dinheiro era uma espécie de memória. Quando você deixava sua tribo na Idade das Pedras, você lembrava que alguém lhe ajudou, sei lá, a caçar uma presa, e que você precisa retribuir o auxílio. Dinheiro não era necessário, porque existia a memória daquele “trabalho” que merecia uma compensação à altura. Acredito que, de alguma forma, estamos voltando a isso com as redes sociais. No longo prazo, não precisaremos do dinheiro como intermediário, porque todas as cobranças, pautadas por nossas reputações, também estarão gravadas na memória – e não apenas a nossa.

ITF – Engraçado que há uma pesquisa que diz que tendemos controlar melhor nossos gastos com dinheiro em espécie do que com cartão de crédito, fico pensando nessa economia digital e…

DB – Isso é absolutamente verdadeiro. Mentalmente, ainda não estamos preparados para a desmaterialização do dinheiro. E o mais curioso é que, se eu carregar notas comigo durante um final de semana, no final do domingo eu não vou lembrar como gastei aquela quantia. Agora, se eu faço os pagamentos usando meu celular, ao final daquele período eu tenho acesso ao histórico de transações e consigo saber, com exatidão, como, quando e quanto gastei. Racionalmente, deveria ser fácil controlar os gastos eletrônicos, justamente porque você tem o histórico disso. Ainda assim, estudo após estudo comprovam que, mentalmente, ainda não sabemos lidar com o dinheiro digital.

ITF – Acha que isso vai mudar?

DB – Tem que mudar, né? Na China há histórias de gerações que sequer sabem o que é um banco “convencional”, porque nunca usaram um. Essa geração tem tudo registrado no telefone – e muito em breve, o smartphone será uma janela a um computador mais inteligente do que podemos prever. Aliás, os computadores e celulares sequer precisam evoluir para que percebamos a importância de lhe dar ouvidos. Com as informações sobre os seus ganhos e gastos, seu celular pode ser seu consultor financeiro e te dizer quando comprar ou não algo que deseja, mesmo que seja um simples café.

ITF – E toda essa tecnologia e mudança de comportamento pode, também, mudar a macroeconomia?

DB – Ah, sim. Olha, eu não sou muito familiarizado com o Brasil, mas imagino que a economia do Rio de Janeiro seja bastante diferente da economia de uma área rural e remota do país. Se essas economias são tão diferentes, porque então trabalham com o mesmo dinheiro, mesmos juros e taxas? As limitações da tecnologia colaboraram para que adotássemos a otimização da moeda regional, que por muito tempo baseou nações-estados.

ITF – Então a solução seria adotar múltiplas moedas?

DB – Talvez cada estado do Brasil devesse ter sua própria moeda, mas seria uma loucura, não? Seria impossível gerenciar mentalmente tudo isso, tanto dinheiro com valores diferentes. Pensando na eficiência econômica, é melhor ter uma única moeda e usar os pagamentos de transferências governamentais como forma de distribuir riqueza. Veja, não estou entrando no mérito da eficiência do governo brasileiro nessa tarefa, apenas dissertando hipoteticamente.

ITF – Conseguiria explicar esse seu ponto de outra forma?

DB – Vamos supor que a cidade de Los Angeles tenha sua própria moeda, e que a cidade de Nova York idem. Em vez de o governo cobrar o mesmo imposto nas duas regiões e decidir como gastar o dinheiro recolhido, a variação cambial geraria esse fluxo. Se o dinheiro de Nova York for mais valorizado que o dinheiro do Texas, então os nova iorquinos passariam a investir no Texas e o dinheiro seguiria naquela direção. É assim que acontece internacionalmente, não é? Tenho uma moeda única por país é uma limitação tecnológica. Agora, se as moedas eram determinadas pela geografia, agora que vivemos em diferentes comunidades digitais, as coisas podem mudar. Por isso eu acho que iniciativas como o dinheiro do Facebook tenham grandes chances de ser bem sucedidas.

ITF – E qual seria o papel do governo nessa sociedade cashless?

DB – Bem, essa é uma pergunta cultural, não? Você pode dizer que o papel do governo é essencialmente político-econômico; é gerenciar a distribuição de recursos – e o dinheiro é um mecanismo de fazer isso. Associamos esse mecanismo ao governo, mas não precisa ser assim. A distribuição das riquezas poderiam ser feitas por bancos ou qualquer outro terceiro, e apenas fiscalizado e regulamentado pelo governo.

ITF – Acha que todos esses avanços mexem também com a nossa relação com o dinheiro e com as regras financeiras, como o hábito de poupar, por exemplo?

DB – Essa realmente não é a minha expertise, mas é bastante claro que as pessoas já não poupam o suficiente. Eu, que me considero uma pessoa esperta, não prestei atenção de verdade em pensões e aposentadorias quando jovem. Acho que muita gente não está preparada para a mudança demográfica que está a caminho, porque as pessoas estão envelhecendo e vivendo mais…

ITF – Você diria que o “ponto de virada” da finança digital está por vir ou já aconteceu?

DB – Escrevi ontem sobre uma declaração da OMS que diz como as notas de dinheiro são sujas e podem estar colaborando com a disseminação do coronavírus. Fico pensando que talvez o vírus seja o que nos faça deixar de usar a moeda física.

ITF – Há tempos você estuda essa área da revolução digital do dinheiro, qual acha que é o maior mal entendido que se perpetua?

DB – As pessoas ficam falando de crypto moeda como um sinônimo de moeda digital – mas elas não têm nada a ver. Moeda digital é o bitcoin, é a Libra – moedas cujo valor é definido por um agente externo. Já a crypto moeda tem seu preço baseado exclusivamente pela oferta e demanda, sem nenhum tipo de interferência externa.

ITF – Arriscaria fazer uma previsão para esse setor?

DB – Minha previsão é que, nos próximos cinco anos, a moeda digital mais importante não será o bitcoin, mas o Yuan digital.

 

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