Tempos Interessantes

Há alguns dias, pesquisando material para uma coluna publicada alhures, me ocorreu que, ao menos no que toca ao tema “sistemas operacionais”, estamos atravessando uma época bastante peculiar. Uma coisa e outra, porém, acabaram por me afastar do tema (e me impediram de manter a regularidade na publicação desta coluna, o que me leva a pedir desculpas aos leitores pela indesculpável ausência de duas semanas) e deixei o assunto para lá. Mas alguns fatos o fizeram aflorar novamente e decidi dedicar um pouco de atenção a ele.
Um destes fatos foi o comentário no sítio WordStart sobre a extraordinária longevidade do Windows XP. O que me levou à página sempre atualizada da Wikipedia sobre a divisão do mercado entre os diversos sistemas operacionais, no qual encontrei a figura abaixo, referente ao mês de junho de 2012, a atualização mais recente na data de publicação desta coluna. Examinemo-la.

A primeira coisa que não pode deixar de chamar a atenção é o fato de que quase um em cada quatro usuários de praticamente qualquer coisa que funcione controlada por um sistema operacional ainda recorre aos serviços, vejam vocês, do bom e velho (e bota velho nisso) Windows XP.
Agora, vamos por partes, como diria o esquartejador. Começando com a razão que me levou a mencionar “praticamente qualquer coisa que funcione controlada por um sistema operacional”. É que nos anos recentes, com a fluidez do parque das máquinas que recebem o nome genérico de “computador”, a Wikipedia passou a incluir na compilação de suas estatísticas quase tudo que, mesmo de longe, possa merecer este nome. Um imenso arsenal que vai desde nossos vetustos computadores de mesa até as maquinetas portáteis designadas por “dispositivos móveis”, que incluem telefones espertos e outros tipos de quinquilharias. Passando, naturalmente, por micros portáteis tipo “notebooks” e “netbooks” e pelos tabletes. Ou seja: aumentou consideravelmente o espectro daquilo que se pode classificar como “sistema operacional” e o tamanho do universo pesquisado. Mas mantém a enorme diversidade das fontes de pesquisa (a seção de Referências do verbete cita 63 artigos de diferentes origens), o que confere uma credibilidade mais que razoável a seus resultados.
Então vamos lá: mesmo considerando este conjunto de usuários tão ampliado, quase um quarto deles ? 23,4%, para ser exato ? ainda usa o Windows XP.
E o que mais?
Bem, o mais ? ou pelo menos a maior parte deles ? usa Windows.
Windows 7 lidera o mercado com pouco menos de 40% e a soma de todas as versões de Windows ? incluindo o XP ? ultrapassa os 70%.
É um bocado de coisa. À primeira vista, um respeitável domínio de mercado. Afinal, um sistema que concorre com diversos outros e ainda assim está nas máquinas de mais de dois terços dos usuários com suas diferentes versões, há de ser o famoso “rei da cocada preta”. Mas basta uma simples olhada para trás para perceber que não somente Windows já perdeu sua antiga majestade como também, se não tomar alguma providência, logo vai ter que começar uma luta renhida para não perder a liderança. Afinal, dois anos atrás as diferentes versões de Windows ocupavam 90% das máquinas. E mesmo considerando a ampliação do universo sobre o qual as estatísticas são aplicadas, uma queda de 20% em dois anos não é coisa pouca.
Mas não é só isto o que chama a atenção na figura 1. Repare nela novamente e veja que a soma das porcentagens relativas a “Mac”, “iPhone” e “iPad”, ou seja, a parte deste latifúndio que cabe à Apple, já alcança 17,44%, ou seja, pouco mais da metade da fatia não ocupada por Windows e mais de um sexto dos usuários. E, logo depois, vem o Android com quase 5% do total, uma porcentagem que vem crescendo a cada ano.
Na verdade, além da correspondente a Windows, a única porcentagem de mercado que mantém uma queda lenta, gradual, porém inexoravelmente contínua, é a que cabe ao Linux, queda que o levou a ocupar hoje apenas 1,53% das máquinas. Mas nem por isto deve a destemida tribo do Linux se afligir: basta lembrar que, afinal, com alguma boa vontade, o Android não deixa de ser um Linux ? o que mais uma vez comprova o fato de que ninguém roda sistemas operacionais, os usuários rodam programas. Portanto, por melhor que seja um sistema operacional, ele jamais se disseminará caso não ofereça uma boa variedade de programas ao usuário.
Mas vamos adiante que o objetivo não é começar novamente aquela velha pendenga com os aguerridos usuários do Linux, é discutir o futuro.
Uma discussão que deve despertar particularmente o interesse dos usuários do Windows XP, uma nada desprezível massa de 23,4% do total, que dentro de menos de dois anos será praticamente obrigada a mudar de sistema.
Você usa XP e não sabia disto?
