Só 31 dias?

Não é à toa que agosto leva a fama de mês do cachorro louco. Foi um período agitado para o universo de tecnologia. Teve um pouco de quase tudo: desafios fiscais no mercado de distribuição, anúncio de programas governamentais, uma compra de empresas que pegou muitos de surpresa, um abalo sísmico na estratégica na HP, queda de executivos e movimentos de gigantes em direção à nuvem. O mundo chegava à era do zettabyte, chacoalhando nos embalos de uma crise econômica desencadeada há cerca de três anos. Vamos por partes.
Luis Oliveira, vice-presidente e gerente-geral da Tech Data para a América Latina, assinou um comunicado enviado ao mercado falando da redução das operações da companhia em solo brasileiro. O revez tributário fez a distribuidora descontinuar as vendas de hardware para fora de São Paulo ? sendo que os demais estados serão abastecidos de equipamentos por meio de importação a partir de Miami. A divisão de software, disse o executivo, não sofre impacto. A questão com a TD funcionou seguindo a lógica das peças de um dominó e fez todo o mercado buscar formas de adequar-se para não cair na mesma cilada fiscal.
Só que agosto não foi só de desgraça para a indústria de TI. Logo no dia 02, a presidente Dilma Rousseff anunciou uma nova política industrial, válida pelo período de 2011 a 2014. Batizado de Brasil Maior, o plano dará a desoneração da folha de pagamento para alguns setores específicos, entre eles, o de software, que terão substituídos os 20% do INSS por 2,5% do faturamento dessas empresas.
O programa foi comemorado por representantes da indústria. ?É uma vitória. Certamente irá alavancar o segmento?, comemorou Luis Mario Luchetta, presidente da Assespro, que acrescentou: ?não é algo que resolve toda a questão estratégica para a indústria brasileira de TI, mas é um grande passo?. Contudo, algumas arestas ainda necessitam ser aparadas. ?A medida do governo deve ser vista com muitíssimo bons olhos, pois é atraente para a maior parte do mercado. A desoneração, em si, é muito positiva, mas a medida deve ser revista?, comentou o presidente da Brasoftware, Jorge Sukarie.
Tudo acontecia quase que ao mesmo tempo. Numa segunda-feira, do nada, mais uma notícia bombástica. O Google desembolsou 12,5 bilhões de dólares para comprar a divisão de celulares da Motorola. A gigante de buscas entrava com os dois pés no mercado de hardware. A aquisição trazia um bônus de mais de 17 mil patentes e outras 7,5 mil em processo de aprovação. ?Agora ele tem a mesma oportunidade de negócio que seu maior concorrente [a Apple], o que pode trazer benefícios para todos os usuários Android, assim como um upgrade na linha de soluções da Motorola?, ponderou Fernando Belfort, analista da Frost & Sullivan.
Olhando agora, agosto de 2011 parece com aqueles comerciais de facas Ginsu, de tanto ?brinde? que vem com o produto anunciado! Veja que inusitado: em um processo de transformação em direção ao serviço, a HP jogou no mercado a informação de que cogitava fazer um spin-off de sua divisão de computadores pessoais, divisão que mais lhe gera receitas e menos garante lucratividade. O anúncio repercutiu mundo afora e pegou muita gente desprevenida. ?Infelizmente, a notícia veio de surpresa (uma grande surpresa)?, escreveu o executivo de um grande canal aliado à fabricante no Brasil. A gigante balançava.
Enquanto isso, o mercado nacional movimentava-se. Em solo brasileiro, nascia a Globalweb Corp ? joint venture entre a Benner e a TBA. Com a missão de alcançar receitas de 214 milhões de reais ainda em 2011, a companhia foca a oferta de soluções em nuvem e almeja agregar 300 canais no primeiro ano de operação. Na camada de distribuição, a Network1 criou uma unidade focada em software, a Softe1. Ainda, a rede social Facebook abria escritório em São Paulo, com o ex-Google Alexandre Hohagen à frente do negócio.
Recordes eram batidos por aqui também. O mercado local de computadores atingia patamares inéditos. O País ultrapassou o Japão e assumiu a terceira posição ? atrás de China e Estados Unidos ? no ranking global com a venda de 3,86 milhões de máquinas durante o segundo trimestre, de acordo com a IDC. Do total, 51,5% foram de notebooks e 69,5% comprados pelo segmento doméstico. A Positivo Informática retomou a dianteira do mercado, com 13,5% de market share e 520 mil computadores vendidos entre abril e junho.
O bom momento despertou a atenção de fabricantes globais. A taiwanesa Asus planejou ampliar atuação local, onde o País serviria de plataforma para o mercado regional. A Intel também prometeu Ultrabooks localmente ainda em 2011. O Google também desenhou estratégia para chegada de seus Chromebooks, laptops ofertados como serviço. Os dispositivos devem chegar ao Brasil em 2012 a um preço aproximado de 30 dólares por mês. Maurício Fernandes, presidente da Dedalus, canal que trabalha soluções da gigante de buscas, acredita que o produto amplia o leque de serviços aos parceiros da marca.
Para fechar, no dia 24, depois de cerca de seis meses afastado por problemas de saúde, Steve Jobs enviou carta ao mercado anunciando sua saída da Apple. ?Eu entrego meu cargo de CEO, gostaria de servir, caso a diretoria entender que cabe, como presidente do Conselho de Administração, diretor e empregado da Apple. Recomendo que o executivo a me suceder seja Tim Cook”, escreveu. E assim se fez.
