Principal desafio do CIO não é gerar valor, é fazer valor ser percebido

O principal desafio do CIO não é gerar valor ao departamento de TI, mas, sim, fazer com que o resto da companhia perceba esse valor. A afirmação foi feita nesta quinta-feira (18/08) pelo CIO do Grupo Saga, Dayvison Alves de Paula, durante o IT Forum+, encontro de CIOs realizado na Praia do Forte (BA), pela IT Mídia.
De Paula fez sua apresentação no Intercâmbio de Ideias ?Antes da TI, a estratégia?. Cerca de outros 20 diretores de tecnologia participaram do debate. O executivo contou a trajetória da companhia, que fatura cerca de R$ 3 bilhões com foco na comercialização de automóveis, desde sua chegada, em 2008.
Em 2007, a equipe de TI era formada por sete pessoas, sem qualquer atividade estratégica. O maior investimento feito, até então, foi de R$ 20 mil, para a aquisição de um servidor. Em 2008, o conselho de gestão da empresa elegeu tecnologia da informação como um dos cinco fatores críticos de sucesso para a corporação. ?Era agora ou nunca que eu conseguiria fazer qualquer coisa?, pontuou.
De acordo com o executivo, àquela época, o grupo, que tem atualmente quase 40 anos, dobrava de tamanho a cada dois anos e a estrutura tecnológica não era suficiente para atender à nova demanda que surgia. Uma questão importante a ser citada para a comercialização de automóveis é o fato de que cada marca tem um sistema diferente de ERP.
De 2007 a 2009, o número de sistemas passou de um a três. Todos eles eram desenvolvidos com base em uma plataforma ? neste caso, Oracle, SQL Server e Informix ? possuindo, portanto, interfaces completamente diferentes, sem integração. Este foi um fato que o CIO não conseguiu resolver, porque as fornecedoras não permitem que sejam utilizados outros sistemas.
O desafio era ainda maior por conta do baixo orçamento. Enquanto dados de mercado apontam que varejo investe cerca de 2,5% a 3% do orçamento tem TI, no Grupo Saga ele gira em torno de 0,5%. ?Para fazer TI, ou se faz com muito dinheiro, ou com muita criatividade. Nós fazemos com criatividade?, brincou.
Ele contou que em 2009 conseguiu, de uma vez só, R$ 1,5 milhão em investimentos
?Consegui isso quando fiz a apresentação de um projeto para a diretoria?, explicou De Paula. Ele produziu o material da seguinte forma: mostrou o faturamento da companhia por ano, por mês, por dia e por hora. ?Um diretor até verificou na calculadora se a conta estava certa?, brincou. Na sequência, ele mostrou três cenários de investimento, mostrando quanto a companhia perderia se ficasse determinado período de tempo fora do ar, tecnologicamente falando. Nos demais slides, foram apresentados quais seriam os investimentos necessários para evitar os problemas.
?Consegui aprovar o último cenário, que era o mais crítico. Existe uma diferença muito grande de você querer vender e de as pessoas quererem comprar?, comparou, lembrando que, desta forma, em havendo qualquer problema que atingisse diretamente o faturamento da companhia, a responsabilidade não seria somente do CIO, mas da diretoria como um todo, que havia participado da definição do projeto.
Tecnologia como parte do negócio
A grande virada de TI, contudo, ocorreu em 2010, quando a equipe da área passou por um processo de imersão nos departamentos que mais dela demandavam. ?O primeiro foi a contabilidade e controladoria?, explicou o CIO. Em épocas de fechamento do mês, a área de tecnologia trabalhava 24 horas por dia, por conta das grandes demandas.
?Colocamos analistas para entender o fiscal, a contabilidade e tudo, para verificar como prever erros. Desta forma, começamos a trabalhar na fonte. Hoje estamos mais sossegados?, garantiu, explicando que 2011 foi o ano em que a presença da TI se consolidou nos demais departamentos da empresa. ?A grande diferença é que não estamos mais entregando ferramenta. Estamos ensinando os gestores a tirar proveito da tecnologia. Temos o conhecimento do negócio?, avaliou.
Camilo Morais, CIO da Star One, comentou que, para a tecnologia da informação ajudar, é importante que os processos da empresa estejam corretos e, além disso, dentro do próprio departamento de TI. ?Quando começamos a ficar responsáveis pelo desenho do processo do negócio, para depois automatizá-lo, começamos a ter uma penetração muito forte na área de negócios. Gasta-se muito mais tempo para definir o processo do que a operação em si?, afirmou.
Liderança e gestão
Muito mais do que estratégia, o que leva o departamento de TI ao sucesso é a direção correta. ?O que estamos vendo aqui não é um exemplo de tecnologia, ou de estratégia. É liderança?, observou José Augusto Pereira Brito, CIO do Mackenzie.
Esse ponto foi discutido por um bom tempo entre os presentes. ?Não temos postura de gestor, temos postura de CIO. Entramos em reuniões com uma postura de técnico ? e essa situação tem de ser invertida. Só serei responsável se entrar em uma reunião como gestor, pensando estratégia, cliente. E é muito difícil?, opinou Julio Cesar Picelli, CIO da STX OSV. ?Nesta situação entra a questão de inveja e ciúme: por que o rapaz que me mandava reiniciar a minha máquina está colocando o dedo no negócio??, parafraseou.
