?Precisamos tomar cuidado com a glamourização do empreendedorismo?

Author Photo
9:00 am - 18 de março de 2014

Obviamente um e-mail com o título “As startups deveriam resolver mais questões do mundo real” chamaria minha atenção. Ainda mais se essa frase fosse creditada a um diretor do programa do Governo Federal para aceleração de empresas nascentes. O conteúdo entre as aspas da primeira linha desse texto servia de título para um release que promovia uma palestra de Felipe Matos, COO do programa Start-Up Brasil.

Ele apresentou dados e um panorama do mercado de startups durante a primeira edição da U-Start Conference Brazil, evento que ocorreu em São Paulo no dia 8 de fevereiro e selecionou companhias jovens para apresentarem seus modelos de negócios a investidores brasileiros e europeus.

A opinião de Mota tem uma relação quase direta com o que temos acompanhado em termos de startup nos últimos tempos. Há muito joguinho de celular sendo criado por empreendedores nacionais e dizer ?trabalho em um startup? assumiu uma aura cool.

Na visão do diretor operacional do Start-Up Brasil, ainda faltam empreendedores que criem soluções capazes de solucionar questões reais no dia a dia dos brasileiros. ?Precisamos subir um pouco a relevância dos problemas que queremos resolver com tecnologias?, comenta, acreditando que as empresas nacionais deveriam focar em questões ?mais relevantes, maiores e pouco atendidas, como nas áreas da saúde, segurança, educação?.

Resolvemos aprofundar um pouco mais a opinião de Mota, que respondeu algumas perguntas de CRN Brasil. O resultado, você, leitor, pode conferir a seguir.

CRN Brasil ? O que seriam essas questões relevantes que uma startup deveria tentar resolver?

Felipe Matos ? Em primeiro lugar, ela deve solucionar um problema real e relevante do ponto de vista econômico. Em seguida, deve construir um modelo de negócio que permita fazer isso de forma rentável. E finalmente, precisa de buscar canais para chegar até o cliente da forma mais rápida e eficiente possível, viabilizando seu crescimento. Para fazer tudo isso, é necessário um time competente, bem alinhado e complementar e bons parceiros. E aí que entra o papel do investidor.

CRN Brasil ? Muitas das startups focam no mercado de consumo. Os brasileiros parecem esquecer o potencial de criar uma tecnologia focada no mercado corporativo. Por que isso ocorre e quais vantagens/desvantagens de não atacar esse mercado e desenvolver soluções para empresas?

Matos ? Nosso mercado interno brasileiro é muito grande e pouco explorado em várias áreas, o que cria um terreno ideal para empreendedores locais. Além disso, por questões culturais e históricas, como a barreira do idioma, muitas empresas ignoram os mercados globais. Sem dúvidas, muitos dos problemas locais existem também em outros mercados e podem ser endereçados. Para isso, precisamos aumentar a competitividade dos negócios locais. Acho que é uma questão de tempo para que os brasileiros comecem a atuar de forma mais global.

CRN Brasil ? Ter ou trabalhar em uma startup virou moda. Na sua avaliação, por que estamos vivendo esse boom agora?

Matos ? Acho que a cultura startup é bastante sedutora, especialmente para a geração Y. Ela traz entre seus elementos mais autonomia, flexibilidade, atmosfera jovem e cool, rápido crescimento e forte uso de tecnologia, que tem muito apelo para esse público. É preciso entender, contudo, que montar uma startup também vem com alta dose de incerteza, jornadas de trabalho pesadas, pressão e uma montanha russa emocional para os empreendedores. Precisamos tomar cuidado com a glamourização do empreendedorismo. Ainda assim, acredito fortemente nessa opção de carreira e no impacto positivo que ele pode gerar.

CRN Brasil ? Um ponto fundamental para amadurecimento do mercado é o acesso a fundos de investimento anjo e de risco, tanto pelo dinheiro quanto pela mentoria. O Brasil está maduro nesse sentido?

Matos ? Nosso ecossistema tem evoluído muito. Em três anos, saímos de um estágio muito inicial para um ecossistema com diversos atores atuantes, entre anjos, fundos e governo, o que é muito animador. Por outro lado, ainda há um caminho a ser percorrido, em especial quando pensamos na saída desses investidores, que ainda tem poucos caminhos por aqui. Não temos um mercado desenvolvimento para a abertura de ações de startups em bolsa de valores, por exemplo, assim como ainda há “gaps” em fases de desenvolvimento (por exemplo nas fases que chamamos de Série A e B).

CRN Brasil ? Outro fator toca questões de mercado e economia. Como o empreendedor pode driblar o ambiente desfavorável (burocracia para criar uma empresa, impostos altos, etc) e tornar a ideia em um negócio?

Matos ? Um dado curioso é que a maioria das pesquisas mostra que os períodos de crise também costumam ter muita atividade empreendedora e oportunidades de negócio. Do lado do nosso ambiente regulatório, muito tem que ser feito, em especial no que se refere a carga tributária, processos de abertura e fechamento de empresas e aspectos do judiciário no trato com causas comerciais e societárias. Um lado positivo dessa moeda é que esse ambiente vale para todos. O que quero dizer é que, no mesmo cenário de incerteza jurídica e dificuldade tributária, alguns empreendedores são bem sucedidos e outros não. Portanto, a atitude do empreendedor diante das dificuldades é que faz a diferença aí. Veja, não quero dizer que essa área não deve ser melhorada. Deve sim, com toda certeza. Mas vejo que ela é muitas vezes usada como “desculpa” pelo empreendedor que falhou. “Falhei porque a carga tributária do país é alta”. Não compro esse argumento, já que outros com a mesma carga estão sendo bem sucedidos. E, repito, isso não justifica que não tenhamos que melhorar nossa carga tributária.

CRN Brasil ? Como você avalia o grau de inovação das startups brasileiras? De que forma isso pode ser considerado com as de outros países, como Israel e Estados Unidos?

Matos ? Acredito que as startups brasileiras estão produzindo cada vez mais inovação, considerando o momento do nosso ecossistema. Não acho que os brasileiros são menos inovadores que israelenses ou norte-americanos, mas temos que reconhecer que ainda não temos um ecossistema capaz de estimular empresas com tecnologias disruptivas e o modelos de negócio mais arriscados. Isso tem a ver com razões históricas (pouca tradição na área e mercados pouco consolidados), culturais (aversão a risco e à falha, pouca experiência acumulada na área pelos nossos empreendedores), macroeconômicas (alta taxa de juros tira dinheiro de investimentos de alto risco), com a quantidade de dinheiro para investimento disponível (bem menor aqui do que lá), com as opções de liquidez do mercado (aqui há poucos compradores para empresas desse tipo e não temos um mercado aberto desenvolvido para absorver facilmente IPOs). Por todas essas razões, ainda não vemos tanta inovação como poderíamos. Diga-se de passagem, em nenhum outro lugar do mundo há esse tipo de inovação além do Vale do Silício (EUA) e, mais recentemente, de Israel. Acredito que investir em negócios com menor risco faz parte de uma etapa do nosso ecossistema pela qual precisamos passar para permitir mais inovação no futuro. O sucesso desse tipo de negócio vai gerar o histórico, o capital e o interesse na geração de negócios cada vez mais inovadoras. Vale ressaltar iniciativas muito bacanas nesse sentido, como o Fundo Criatec, que está chegando a sua terceira edição, com foco em empresas inovadoras no país.

CRN Brasil ? O programa Start-Up Brasil consegue medir os benefícios de um ecossistema na economia de uma região ou em determinada sociedade? Quais indicadores poderia passar nesse sentido?

Matos ? Trabalhamos com três níveis de indicadores, que tem impactos no curto, médio e longo prazos. No primeiro nível, acreditamos no sucesso de boa parte das empresas que estamos apoiando. Estes sucessos, medidos em número de usuários, faturamento, investimentos levantados e postos de trabalho gerados, promovem o aumento da competitividade do país e o surgimento de bons exemplos, que irão inspirar novos empreendedores. Num segundo nível, acreditamos que o programa promove um desenvolvimento do ecossistema nacional. Através dele, estamos estimulando o surgimento de novas aceleradoras e fortalecendo empresas no momento inicial, quando elas mais precisam. Essas boas empresas irão atrair investidores e com isso acelerar todo o ciclo de desenvolvimento e inovação desse tipo de negócio no país. Finalmente, num terceiro nível, acreditamos que estamos contribuindo para o desenvolvimento do Brasil e para a melhoria da sociedade, viabilizando soluções inovadoras para diversos problemas, aumentando o nível de inovação e competitividade dos negócios nacionais e contribuindo para formar uma cultura empreendedora mais forte no Brasil.

Newsletter de tecnologia para você

Os melhores conteúdos do IT Forum na sua caixa de entrada.