Lidando com o hype: investimento depende de valor para o negócio, mas ‘é preciso arriscar’

Ressoando ensinamentos de Amy Webb, executivos de TI debateram até que ponto investir em tecnologias disruptivas faz (ou não) sentido

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6:48 pm - 20 de abril de 2023
Painel discute investimentos em tecnologias 'hypadas'. Foto: GN2 Conteúdo

A futurista Amy Webb não está no IT Forum Trancoso desse ano, mas alguns das suas reflexões – transmitidos à comunidade brasileira de TI durante o IT Forum Itaqui de 2022 – ainda ressoam entre os executivos brasileiros. Principalmente a dicotomia entre tendências e modismos (trend vs trendy), que sempre preocupa muitos CIOs. Afinal, quando apostar em uma tecnologia disruptiva (e imatura) vale a pena?

Essa foi a investigação feita durante o painel Hype vs resolução de problemas: como fechar a equação?, realizado nessa quinta (20) durante o IT Forum Trancoso.

“Somos todos da área de TI. Então sempre temos aquela coisa de experimentar, fazer um laboratório”, ponderou Renata Marques, CIO Latam da Natura &Co. “A pergunta é como aplicar?”

A Natura, explicou a executiva, trabalha com experimentos. Mas é preciso, disse ela mencionando Amy Webb, é encontrar as perguntas corretas para o negócio.

“Quando a Amy esteve aqui falou do carro voador. A pergunta que se faz é qual vai ser o carro do futuro, mas essa é a pergunta errada. A pergunta certa é como vamos resolver a mobilidade do futuro?”, disse. “A pergunta certa traz a tecnologia correta para resolver o problema de negócio.”

Cristiane Gomes, diretora de tecnologia e transformação digital do Grupo CCR, concordou. E acha importante que, nesse contexto, TI e negócios estejam “do mesmo lado da mesa”, ou seja, ser encarada como parte fundamental das soluções de negócio.

“Quando a gente fala de trend ou trendy, precisamos levar para qualquer discussão, seja no board ou no próprio time, soluções que tragam algo para o negócio. Temos que ter um papel mais ampliado do que só resolver problemas com tecnologia”, disse.

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O Grupo CCR, cujo negócio é justamente a mobilidade lembrada por Amy Webb, mudou ao longo dos anos. De um negócio de infraestrutura, em que a TI era chamada “só para resolver problema”, a empresa em pouco tem se entendeu como um negócio de tecnologia.

“A gente tem toda a conectividade a favor do nosso cliente. Aliás a gente chamava de usuário até dois anos atrás. Todos os dias a gente cuida da vida de 3 milhões de pessoas, e nem sabíamos quem eram”, disse, ressaltando a indissolubilidade entre o aspecto físico e tecnológico das concessões administradas pelo grupo.

Wanderley Baccalá, diretor-executivo do Hub Digital da Globo, concordou com as CIOs. Responder questões de negócio é fundamental, mas dependendo do negócio e do nível de incerteza sobre determinada tecnologia, a resposta sobre o valor gerado pode ser bastante difícil de conseguir.

“Eu acho que tem que inovar, experimentar. Mesmo sem ter todas as respostas que o negócio espera, tem que incorporar a prática da experimentação”, disse o executivo, que ainda vai participar de uma sala paralela sobre metaverso – uma das frentes de inovação atualmente importantes para o Grupo Globo.

Mas é preciso saber dosar os investimentos, disse. “Quanto mais certeza, mais grana e mais tempo investidos. Vamos resolver problemas de negócio? Vamos. Mas preciso estar no jogo e preciso criar linhas de pesquisa”.

Fundação com 5G

Debora Bortolasi, diretora-executiva B2B da Vivo, falou de uma tecnologia específica e que promete dar um grande impulso no desenvolvimento de aplicações corporativas: o 5G. Apesar do potencial, ainda não há uma corrida massiva dos CIOs, e apenas 33% das empresas pretende investir na nova geração de redes móveis em 2023, segundo o estudo Antes da TI, a Estratégia, da IT Mídia.

Segundo Debora, os primeiros casos de sucesso começam a aparecer e podem impulsionar esses investimentos. Por exemplo, agências bancárias inteiramente conectadas por rede móvel – caso de sucesso feito pela Vivo com o Itaú Unibanco. Outros setores podem se beneficiar muito de conectividade dessa natureza, incluindo agronegócio e mineração, por exemplo, sendo no caso desse último um elemento capaz de salvar até vidas.

“Novos requisitos de negócio demandam novas soluções de infraestrutura. O conceito de [network] slicing já está começando a ser modelado. É basicamente ter a capacidade de fatiar a infraestrutura para criar serviços específicos, que demandam decisão em tempo real”, disse.

A executiva da operadora lembrou que levar infraestrutura para setores que precisam de decisão em tempo real pode também representar a inclusão de profissionais PCDs, por exemplo, que normalmente não poderiam operar maquinários pesados sem recursos de automação.

“Daqui a algum tempo vamos para um cenário em que os requisitos de rede vão permitir facilidades mais compartilhadas. Isso passa a viabilizar novos modelos de negócio”, disse.

Exemplos práticos de hype

Os CIOs no painel também deram exemplos práticos de investimentos em tecnologias hypadas. Baccalá, da Globo, citou um projeto de publicidade personalizada por streaming. Quem assiste o canal online, através do Globo Play, pode receber propagandas distintas conforme interesses particulares definidos por dados.

“A gente consegue fazer a substituição do comercial. A gente começou a testar. Qual a próxima onda? Servir publicidade segmentada na TV aberta, pelo ar. Existe um projeto de criar a TV 3.0 no futuro, que faz a comutação entre ar [ondas] e internet, dando fluidez sem que o consumidor perceba”, comentou.

Renata Marques fez uma diferenciação entre modismo e tendência. No modismo, citou um projeto de IoT feito em uma empresa em que trabalhou antes da Natura: uma cervejeira conectada. Com o tempo o equipamento acabou se mostrando pouco conveniente, apesar da capacidade de automatizar pedidos de cerveja por meio de integração com o app Zé Delivery.

“Ao mesmo tempo a gente tem aquilo que é tendência. E sem conectividade ninguém vive mais. Temos mais de 4 milhões de consultoras de beleza, todas fazem venda digital, usam revista digital. A gente precisa de conectividade ou a experiência fica comprometida”, disse.

Já Cristiane Gomes, do CCR, lembrou que nem toda tendência inovadora precisa ser tecnológica. Pode ser também de natureza regulatória. “Nós temos barreiras, verdades e mesmices que pouco questionamos. Fomos até os órgãos públicos sugerir um sandbox regulatório”, disse ela.

A executiva lembrou avanços tecnológicos que o Grupo CCR está fazendo agora somente porque novas regulações permitiram a implantação do free flow – sistema de pedágio sem barreiras que estreou no Brasil no fim de março. O sistema, disse ela, existe em outros lugares do mundo há muito tempo e a tecnologia já existe, mas a inovação está em promover avanços jurídicos que permitam soluções localizadas.

“Nessa já embarcamos em uma série de soluções que estavam no nosso hub. Inteligência artificial e Machine Learning, porque tem que cuidar de evasões, cuidar do cliente que quer pagar mas não sabe como”, contou. “Aquilo tudo tem que virar receita de modo que a gente cumpra [a regulação].”

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Marcelo Gimenes Vieira

Editor do IT Forum. Jornalista com 12 anos de experiência nos setores de TI, telecomunicações e saúde, sempre com um viés de negócios e inovação.

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