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Especial: executivas brasileiras conquistam a liderança na América Latina

Por Carla Matsu, Marcelo Gimenes Vieira e Rafael Romer

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Sim, o número de mulheres atuando no setor de TI brasileiro quase dobrou nos últimos anos, mas essa é apenas uma meia verdade. Um estudo publicado em 2019 pela Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro, a Softex, com apoio da Secretaria de Empreendedorismo do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), mostrou que o número delas no setor saltou de 21.253 em 2007 para 40.492 em 2017. Isso significa 20% dos postos de trabalho na chamada “Core IT”, ou seja, aqueles setores cuja atividade-fim é a tecnologia.

No entanto, a quantidade de homens no mesmo período aumentou 144%, saltando de 67.106 para 163.685. Em dez anos a participação da mulher no mercado de trabalho de TI diminuiu de 24% para cerca de 20%. A situação não é muito diferente no mercado de trabalho de TI “in-house”, que compreende as profissionais atuantes em setores cuja atividade core não é tecnologia: a quantidade de mulheres aumentou 29% (de 47.454 para 61.420), mas as vagas ocupadas por homens cresceram 60%, passando de 155.558 para 249.008.

Leia mais: 59,2% dos fundadores de startups são homens, segundo Abstartups

E piora: a participação das mulheres em cargos diretivos e gerenciais no setor de tecnologia também caiu. Eles são preenchidos por homens em 87,1% das vezes, o que significa salários mais baixos para elas. Não bastasse tanta desigualdade, veio a pandemia e colocou homens e mulheres em home office – mas elas, ao contrário deles, arcam mais com as desigualdades domésticas e acabam tendo mais dificuldades para empreender. Como consequência, correm mais riscos de abandonar o mercado de trabalho e têm ainda menos oportunidades de progressão na carreira.

Considerando tudo isso, o que há para comemorar no Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta segunda-feira (8)? Primeiro, é cada vez maior o número de iniciativas que buscam ensinar mulheres a adquirir habilidades técnicas de computação e tecnologia (programar, por exemplo) e empreender. Segundo, a existência de mulheres de destaque na tecnologia: gerentes, coordenadoras, diretoras, CIOs. As mulheres brasileiras da tecnologia estão inclusive conquistando a América Latina.

O IT Forum conversou com seis executivas brasileiras que ocupam cargos de liderança para a América Latina de empresas globais de tecnologia. O objetivo foi não só conhecer a carreira dessas mulheres, como cresceram, que desafios enfrentaram e como exercem liderança. Foi também encontrar exemplos que possam inspirar meninas a conquistarem nos próximos anos o espaço e as oportunidades que lhes são de direito.

Alessandra Bomura, CIO para a América Latina da Logicalis

Quando Alessandra Bomura escolheu se tornar uma cientista da computação foi movida por dois fatores. Primeiro: gostava de matemática. Segundo: era “a profissão do futuro”, capaz de “mudar alguma coisa no mundo”. Apesar de nunca ter programado uma linha sequer antes da matrícula, gostou muito da graduação e seguiu carreira, primeiro em uma universidade e depois no setor de telecomunicações.

Mas não foi exatamente nos códigos que ela cresceu. Foi na gestão. Na Brasil Telecom se tornou gerente de projetos. Em seguida passou 15 anos em cargos de liderança na GVT, onde se tornou CIO – cargo que também exerceu na Vivo, que comprou a operadora paranaense em 2015.

“Fiquei muito tempo na GVT. Ali eu me desenvolvi muito como gestora”, relembra a executiva, em entrevista o IT Forum. “Era uma empresa em que havia essa questão da autonomia, da inovação. Tive oportunidade ali de construir muitas coisas, de colocar a TI ao serviço do crescimento da empresa.”

Após deixar a Vivo em 2018, Alessandra começou a carreira latino-americana: trabalhou em uma startup mexicana (a Altán Redes) e uma operadora de abrangência continental (a Millicon, dona da marca Tigo). Assumiu, em 2020, o cargo de CIO para a América Latina da integradora multinacional Logicalis, que marca um desafio duplo: expandir a infraestrutura tecnológica da empresa e sair do setor de telecomunicações para ingressar em TI.

“Tenho clusters em São Paulo, em Santiago (Chile) e Buenos Aires (Argentina). Para mim é uma delícia. Entender um pouco do funcionamento, da cultura e de como lidar com as diferenças [culturais]. Pessoalmente é muito legal”, diz a executiva.

No vídeo a seguir, Alessandra fala das dificuldades que teve para crescer na carreira na área de TIC. Também reflete a respeito dos desafios enfrentados pelas mulheres que decidem trabalhar com tecnologia, e dos esforços que empreende para reduzir as desigualdades nesse mercado.

Cristina Palmaka, presidente para a SAP América Latina e Caribe


Cristina Palmaka tinha 16 anos quando começou a trabalhar. Desde então, a primeira mulher a assumir a presidência da SAP Brasil e hoje presidente para a América Latina e Caribe, busca refletir sobre cada conquista e ponderando os desafios. “Cada momento foi importante e os mais desafiadores foram aqueles que me ajudaram a me tornar uma executiva com visões diferentes”, conta em entrevista ao IT Forum. Antes de chegar à multinacional alemã SAP, passou por outras gigantes de tecnologia: Phillips, HP e Microsoft. Em julho de 2020, veio o anúncio da promoção para além das fronteiras do Brasil. Sob sua liderança, estão mais de 5 mil funcionários e 50 mil clientes.

Engana-se quem pensa que a experiência e o conhecimento adquirido ao longo de 35 anos de carreira afastam o frio na barriga ao assumir novas responsabilidades. “Quando eu assumi a América Latina”, conta, “pensei, uau, será que consigo? Aí dá aquele frio na barriga e isso, de vez em quando, é importante”, acrescenta. Parte inerente ao trabalho de toda liderança, fazer escolhas e tomar decisões requer, para Cristina, certo pragmatismo e a consciência sobre as próprias limitações. “Sou bem analítica e racional. Sempre paro e reflito muito o que essa posição vai trazer de novo ou desafio e o que eu agrego […] O que eu não tinha e me dava a sensação de não estar pronta e o que eu precisava correr atrás”.

Sob sua liderança, a SAP Brasil conquistou uma certificação EDGE para Igualdade de Gênero. Com sua promoção, Adriana Aroulho, que respondia, até então, como COO da operação no País, subiu para o cargo de presidente, dando sequência a um legado de mulheres na liderança da SAP Brasil. Promover a equidade de gênero e a diversidade, lembra Cristina, veio também com uma reflexão de sua própria posição e influência. “Eu falo sobre diversidade há muitos anos, principalmente, nos últimos 15. Antes disso, acho que não dava tanto foco, pois também estava caminhando a minha jornada”, lembra. Cristina estava na HP quando recebeu um convite para liderar o tema de diversidade na companhia, mas a hesitação veio. “Pensei, como vou agregar? Achava que cada um precisava buscar seus caminhos”, recorda.

O posicionamento mudou ao reconhecer que também conquistara uma posição privilegiada e, por isso, representativa para outras mulheres. “Juntou-se um outro grupo de mulheres que também acreditou que não precisava fazer alguma coisa. E refletimos que se tivemos essas oportunidades e estamos aqui, a gente também tem de ajudar e também ajudar os homens a abrirem essa visibilidade. Pois não é só um tema de mulheres, é um tema de homens também”, destaca. Assumindo essa responsabilidade para si, Cristina diz também ter começado a estudar mais sobre o tema. “É um mix de muitas coisas, começa com garantir que a base esteja lá representada, para garantir a ascensão das pessoas, mas chega também um momento que você precisa abrir espaço para as oportunidades”, diz.

No vídeo abaixo, Cristina relembra o início da carreira, os aprendizados com a liderança e algo que tem ajudado a desacelerar nos últimos 20 anos: a corrida.

 

Gabriela Viana, diretora de marketing da Adobe para a América Latina 

“A mulher chegou tarde na minha vidaPara a minha geração esse [ser mulher no mercado de trabalho] não era um tema, a gente não falava disso. Gabriela Viana se refere ao começo da própria carreira, nos anos 90, quando o debate sobre igualdade nos ambientes de trabalho ainda era tímido.  

Graduada em marketing, Gabriela começou a carreira em agências de publicidade e atendendo clientes de tecnologiaPassou cinco anos na FCB, gerenciando contas e projetos, antes de ingressar no mundo da tecnologia de fato, sempre capitaneando iniciativas de marketing digital – quando o termo ainda era pouco usado 

Foi diretora de marketing interativo na DeRemate.com, passou pela Vex, até assumir posições de liderança na Motorola. Foi head de mobile e Android no Google e diretora de desenvolvimento de negócios e marketing da Xiaomi. Atualmente acumula os cargos de CMO para clientes corporativos nos EUA e diretora de marketing da Adobe para a América Latina. 

Apesar do grande número de mulheres trabalhando com marketing nas empresas, Gabriela concorda que são poucas aquelas em cargos de liderança. Para ela, trata-se de uma estrutura cultural que cria mulheres para não questionarem a falta de oportunidades.  

“Quando a gente fala do machismo, da misoginia, fica parecendo que é um privilégio dos homens. Mas não, é uma estrutura. Muitas vezes a gente não se questiona por não estar sendo promovida e pelas oportunidades que não temos”, ressalta. “Temos muita coisa para mudar para que a liderança feminina seja vista como tal. 

Em entrevista ao IT Forum, Gabriela Viana reflete a respeito das dificuldades enfrentadas pelas mulheres no trabalho, não só em empresas de tecnologia. E conta de algumas iniciativas possíveis para reduzir as desigualdades. 

Monica Benatti, diretora sênior de marketing e alianças da NTT Ltd.

Quando foi promovida ao cargo de Diretora Sênior de Marketing e Alianças da NTT Ltd para a América Latina em abril de 2020, quando rompia a pandemia de covid-19, Mônica Benatti se viu assim como muitos brasileiros e pessoas mundo afora: tendo de equilibrar diferentes esferas da vida profissional com a privada e ainda liderar uma nova região a partir das limitações de sua casa. “O caminho natural seria visitar os países, aprender mais da cultura deles. E não tive essa oportunidade, pois comecei [no novo cargo] com a pandemia”, lembra Mônica que está na NTT há 10 anos. “Mas ao mesmo tempo, estava todo mundo um pouco mais sensível com as mudanças, com coisas diferentes e novas, a gente teve de se reinventar o tempo todo […] Acho que a parte mais difícil em LatAm foi entender uma cultura sem estar realmente lá”, acrescenta. 

Mônica tem atuado no setor de tecnologia há mais de 20 anos, tendo passado por companhias como Avaya e Cisco e Dimension Data, antes desta ser adquirida pela NTT (Nippon Telegraph & Telephone Group). Para ela, a representatividade e inclusão na área de TI e Telecom tem melhorado nos últimos anos. “As pessoas estão muito mais abertas à informação, a aceitação, você pode ser você independente de qualquer parâmetro da sociedade”, acredita Mônica. 

Ponto de muita ansiedade para mulheres que buscam ascender na carreira corporativa, a maternidade para Mônica é vista como um privilégio por ensinar. “A gente aprende o tempo todo com eles [filhos]. Faz com que a gente tenha uma reciclagem gratuita e eterna”, conta Mônica, mãe de uma jovem de 23 anos. Mas reconhece que há mais desafios a serem superados quando comparado à jornada de colegas homens. “A gente não pode não ligar, existe preconceito sim. Existe machismo e, às vezes, até nós mesmas somos um pouco machistas”, pontua. Promover consciência e educação ao redor do tema de Diversidade, para Mônica, é um dos caminhos para se conseguir maior equidade e inclusão. “Acho que a gente tem de ajudar as pessoas a terem um pouco mais de consciência”, indica. 

Liderança não se faz sozinha e, para a executiva, há de se contar com pessoas em quem se confia no âmbito profissional, aprender a delegar e uma mentoria focada pode ser uma revisão necessária na carreira. Um dos trabalhos que ela diz tê-la influenciado positivamente em sua vida foi o coaching. “Eu precisei dar uma parada, avaliar as coisas e contratei uma coach para tentar me reposicionar. Foi um momento bem marcante. Porque deu uma virada interessante na minha carreira e de lá para cá foi só alegria”, diz aos risos. “Dificuldade é vista como desafio e é para isso que a gente está aqui”. 

 

Stella Guillaumon, gerente geral da Magento

“Bons gestores nos formam e nos transformam durante a vida profissional”, é uma crença que Stella Guillaumon, hoje gerente geral da Magento, tem levado consigo ao longo de toda sua carreira pela indústria de tecnologia.

Ela vem do impacto positivo que a executiva atribui aos ótimos líderes que encontrou em sua trajetória, e que influenciaram, de uma forma ou de outra, o estilo de liderança que ela própria busca desempenhar.

“Hoje, o que eu mais prezo e mais gosto é realmente ajudar as pessoas, não só as que trabalham comigo diretamente, mas também as que estão de forma indireta, a se desenvolverem, a serem profissionais melhores”, explicou em entrevista ao IT Forum. “Porque sendo profissionais melhores nós vamos ser pessoas melhores, as coisas estão muito ligadas.”

Formada em administração de empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, deu seu primeiro passo na tecnologia ainda no final dos anos noventa, quando assumiu uma posição de analista de marketing na Philips. Na virada do milênio, quando estava no Arremate.com, viu de perto a bolha da internet crescer e estourar no Brasil.

De lá, seguiu para a Microsoft, onde passou 15 anos de sua carreira e ocupou múltiplas posições de liderança, aperfeiçoando seu estilo de gestão. Foi lá, inclusive, que, em 2008, recebeu o prêmio Manager of the Year, um reconhecimento interno global que celebra grandes líderes da Microsoft.

Guillaumon teve ainda passagens pela AOL Internacional e Oath até, em agosto de 2018, assumir vendas da nuvem de advertising da Adobe. No início de 2019, chegou à sua posição atual após a compra da Magento pela Adobe, onde lidera a operação da empresa para a América Latina – e diz seguir aprendendo enquanto gestora e pessoa.

“Você só é um bom gestor a medida que você é uma ser humano que se conhece, que conhece suas fraquezas, suas fortalezas, que entende e consegue ter um olhar para o outro de uma maneira empática, entendendo o que está acontecendo”, contou em entrevista ao IT Forum. Veja abaixo:

Paula Bellizia, vice-presidente de marketing do Google para a América Latina

Não há como negar que Paula Bellizia tem uma visão privilegiada da indústria de tecnologia. Em seus quase trinta anos de carreira, a executiva ocupou posições de liderança em várias das mais poderosas companhias do setor, incluindo Apple, Facebook e Microsoft, e ajudou a definir o rumo delas no país e na região.

No ano passado, enquanto estava morando nos Estados Unidos, aceitou um novo desafio que a trouxe de volta ao Brasil e colocou mais uma gigante de tech em sua trajetória: o Google, onde assumiu a vice-presidência de marketing da empresa para a América Latina em outubro. Se engana, no entanto, quem acha que Bellizia acredita que sua experiência já a ensinou tudo o que há para se saber sobre essa indústria.

“Mesmo para um líder ou uma líder com muito tempo de experiência, achar que sabe tudo é uma grande armadilha”, avaliou. “Tem muitas coisas da cultura das gerações, da forma de fazer, do que é importante hoje e não era no momento que você estava tomando decisões no início da carreira. É preciso ter esse olhar de aprendiz”.

A temática do aprendizado, aliás, sempre foi algo caro à Bellizia. Para a executiva, o verdadeiro poder transformador da tecnologia acontece através da interseção dela com a educação e também da diversidade – uma combinação de elementos que sempre buscou realizar ao longo de sua trajetória – e continua buscando no Google.

Exemplo disso é o Cresça com Google para Mulheres, um programa de aceleração e treinamento focado exclusivamente em lideranças femininas que teve mais de 20 mil inscrições em três dias.

“Eu acho que o Brasil tem excelentes exemplos de mulheres muito competentes liderando empresas de tecnologia e isso é maravilhoso ver”, avalia. “No que fico prestando atenção são nas questões de base para que isso se perdure, para que isso não seja um golpe de sorte ou um momento específico da história”.

Em entrevista ao IT Forum, Bellizia falou sobre suas práticas cotidianas de liderança e gestão, sobre a importância de se pensar em diversidade como inclusão e sobre projetos que tem desenvolvido na área.

 

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