Empresas de tecnologia são as que mais buscam internacionalização para os EUA

Plano de negócios, escolha de região e outros fatores influenciam em uma globalização eficiente

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8:40 am - 01 de abril de 2024
Joel Reynoso e João Chachamovitz falam sobre internacionalização nos EUA Joel Reynoso e João Chachamovitz falam sobre internacionalização nos EUA

As empresas brasileiras com investimentos nos EUA devido à internacionalização são responsáveis por cerca de US$ 100 milhões e mais de 100 mil empregos, estima o Consulado Americano. Esses investimentos, que vêm de companhias dos mais variados setores, têm um destaque: indústria de tecnologia.

De acordo com Joel Reynoso, chefe interino do Setor Comercial da Embaixada e dos Consulados dos Estados Unidos no Brasil, desde os anos 2000, as empresas de tecnologia que buscam negócios nos Estados Unidos estão crescendo. “Muitas delas veem o país como um ponto de referência não apenas para se internacionalizar e ter presença nos Estados Unidos, mas também uma tendência de empresas que usam os EUA para, mais tarde, exportar para outros países.”

O Governo Americano tem, inclusive, um programa chamado Select USA, para promover e facilitar o investimento de negócios nos EU. De acordo com Reynoso, cerca de metade das empresas brasileiras que buscam a iniciativa são de TI.

Entretanto, esse processo não é tão fácil. Para Reynoso, o primeiro passo é definir o plano de negócios.  O documento, diz ele, precisa constar os dados de crescimento, quais são os financiamentos disponíveis, se ainda estão buscando financiamento. “Vemos uma tendência de as empresas brasileiras quererem montar operações e estabelecer o seu negócio apenas pelo financiamento. Não só para aceder a consumidores ou potenciais clientes, mas também para aceder aos mercados de capitais.”

Segundo o especialista, o Brasil tem a cultura de relacionamentos e, ainda que nos Estados Unidos isso seja menor, é imprescindível ter tempo para construir esse networking. Os estadunidenses tendem a ser mais diretos em termos de negócios

Outro ponto decisivo é o estado ou cidade escolhida pela companhia para iniciar sua jornada internacional. Em primeiro lugar, diz Reynoso, está a Flórida, pela proximidade e por ter muitas empresas brasileiras. Entre os outros destinos tradicionais estão a Califórnia, Nova Iorque, Texas e Geórgia.

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“Esses são os estados e cidades mais tradicionais que os brasileiros têm como alvo e isso por uma série de razões. Talvez por já ter clientes e você não pode subestimar o poder de já ter uma rede. Portanto, se você tem um cliente, ou parceiros de negócios, ou mesmo familiares e amigos que se estabeleceram em um lugar como Nova York, Flórida, esse é um motivo muito legítimo a ser considerado”, comenta Reynoso.

Por outro lado, outros lugares começaram a se tornar competitivos. O estado da Carolina do Norte, por exemplo, está crescendo muito rápido. Porto Rico também está atraindo muitos investimentos, principalmente para startups. “É um grande país e, apesar das cidades e estados tradicionais, é fascinante ver onde as empresas brasileiras chegam com base em seus clientes, sua rede, onde estudaram, às vezes ou mesmo onde fizeram programas.”

Para ajudar nessa decisão, o Governo dos Estados Unidos, em parceria com a Universidade de Harvard, criou o Cluster Mapping, um site que traz dados visuais que podem ser divididos de muitas maneiras diferentes, desde cidades até estados, para entender a disponibilidade de mão de obra qualificada. Os interessados podem pesquisar informações como quanto custa contratar um engenheiro de software em uma cidade.

Ao chegar, de fato, aos Estados Unidos, o trabalho não acaba. É importante, por exemplo, ter estadunidenses na equipe, principalmente pela diferença cultural. O especialista confirma essa teoria ao dizer que há coisas que simplesmente não farão sentido para os brasileiros. De acordo com ele, ter especialistas locais, principalmente de marketing e vendas é fundamental, assim como as empresas norte-americanas fazem no Brasil.

Uma das brasileiras que focaram na internacionalização nos EUA

A Radix nasceu em 2010, com oito pessoas, e hoje tem cerca de 1.700 colaboradores, uma operação global em mais de 30 países e faturamento em torno de R$ 400 milhões, com meta de crescer entre 20% e 25% ao ano.

“Uma coisa que sempre quisemos é ser uma empresa que quer entregar valor. Eu não quero ser uma empresa que a pessoa vê como custo, mas como entrega de valor. E isso é importante para internacionalizar, porque senão vai ser globalizada como uma empresa de mão de obra barata”, explica João Chachamovitz, CEO da Radix.

O CEO comenta que, para se tornar internacional, uma companhia precisa se perguntar “por que uma empresa americana contratará uma empresa brasileira?”. Normalmente, porque é uma mão de obra barata ou porque há algum diferencial.

“Nós começamos em 2014 com a abertura de um escritório nos EUA e a gente fez isso porque estávamos um pouco inseguros do que faríamos no Brasil, para onde cresceríamos. Na época, trabalhávamos com o segmento de óleo e gas e achávamos que tínhamos que diversificar mais. Primeiro, começamos a trabalhar com outros setores. E a outra coisa que pensamos era a globalização. Escolhemos Houston, pois era onde tínhamos mais experiência [Texas é o centro mundial de óleo e gás] e tínhamos diferenciais”, revela ele.

No início, alguns executivos da Radix iam de tempos em tempos aos Estados Unidos, mas rapidamente foi entendido que era preciso ter uma presença contínua. Por isso, abriram o escritório. Depois, descobriram que era importante ter estadunidenses na equipe e, em 2015, contrataram as três primeiras pessoas para trabalhar na companhia.

“Outra coisa que aprendemos é que a ideia de fazer a venda direta do Brasil não funciono. Também é preciso pensar em contabilidade, em recursos humanos e na área jurídica. São três itens que você pode acabar tendo dificuldade. Nós escolhemos parceiros para trabalhar com isso e, agora que crescemos, começamos a ter nossa própria estrutura”, complementa o executivo.

Chachamovitz também confidencializa dois dos maiores desafios na internacionalização. O primeiro deles é o cultural. O segundo é criar sua reputação em um novo país. “No Brasil, temos uma reputação muito grande, todo mundo nos conhece. Nos EUA, tivemos que partir do zero. Encontrar os primeiros clientes, estabelecer essa primeira relação.”

Hoje, a empresa tem mais de 30 clientes nos EUA, sendo muitos deles globais. Em 2023, fecharam a receita em US$ 22 milhões de dólares e, até 2028, espera ter US$ 100 milhões.

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Laura Martins

Editora do IT Forum. Jornalista com mais de dez anos de atuação na cobertura de tecnologia. É a quarta jornalista de tecnologia mais admirada no Brasil, pelo prêmio “Os +Admirados da Imprensa de Tecnologia 2022” e tem a experiência de contribuições para o The Verge.

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