Não seja uma nova BlackBerry!

O cenário de negócios é volátil, incerto, ambíguo e complexo. A empresa do século 21 tem que estar constantemente se reinventando. Deve ser uma empresa cinética

Author Photo
6:22 am - 16 de janeiro de 2017

Um tema que todos falam é Transformação Digital. Muitos
artigos apontam como serão as empresas no futuro. Mas, o futuro não chega
pronto e subitamente. Ele é construído passo a passo. Primeiro aparecem sinais
esparsos e aparentemente desconectados de tecnologias e mudanças sociais. Sem
uma visão de contexto, não conseguimos correlacionar um ponto com outro. Só
depois de algum tempo é que observamos que eles formam um padrão e que a
transformação é fruto da convergência de diversas tecnologias. Portanto, olhar tecnologias como Inteligência Artificial, cloud, mobilidade, Internet das Coisas, robótica, Realidade Virtual/Realidade Aumentada,
drones, etc de forma isolada não vai nos dizer muita coisa. A combinação delas é que irá
provocar as mudanças. Alvin Toffler, autor de “A Terceira Onda”,  afirmava com
razão  que “As novas tecnologias nunca vêm sozinhas. É um pacote: mudanças
tecnológicas, seguidas de mudanças sociais, políticas e culturais”.

O grande desafio para as empresas e seus líderes é que estão
tão concentrados nos seus desafios diários, que não prestam atenção aos sinais
de mudança. E então são surpreendidos. Icônico deste cenário é a BlackBerry. A
história de sua decadência é um case, até comum, de como uma empresa bem sucedida
não presta atenção aos sinais de mudança. O seu CEO e fundador só soube do
iPhone quando assistiu, em casa, a uma propaganda na TV! O artigo Inside
the fall of BlackBerry: How the smartphone inventor failed to adapt
” deve
ser lido atentamente. Muitas outras empesas fazem o mesmo. Não seja uma nova
BlackBerry!

A evolução tecnológica é exponencial e nossos pensamentos
lineares limitam a nossa intuição do futuro. Por exemplo, veículos autônomos. Os
sensores LIDAR, que o Google usava em 2009, custavam mais de 75 mil dólares. Hoje
estão em torno de 7,5 mil dólares, ou 10% do que custava há pouco mais de sete
anos! Que isso significa? Que tecnologias que são consideradas caras hoje, em
poucos anos estarão bem baratas e possibilitando lançar produtos e serviços
inovadores no mercado.

A leitura do artigo “Google’s
new self-driving minivans will be hitting the road at the end of January 2017

mostra como a indústria automotiva está se transformando. Ele cita a
possibilidade da Waymo (empresa spin-off do Google) e a Chrysler criarem
serviço similar ao Uber. Na prática isso mostra que, em poucos anos, será difícil
reconhecer empresas hoje classificadas em setores distintos, como automotiva,
locadora de veículos, serviços de mobilidade e mesmo seguros. E conectando impressoras
3D, drones e caminhões autônomos, haverá diferenças entre fabricantes de caminhões
e as atuais empresas logísticas? Que novos negócios surgirão? Como impactarão
os atuais setores, quando as fronteiras entre eles simplesmente evaporam?

Nosso modelo mental, linear, e fortemente influenciado pela
sociedade industrial, assim como nossa formação acadêmica, nossos modelos e
estruturas organizacionais, nossa legislação trabalhista, etc., impõem o
conceito de que o futuro é algo que simplesmente acontece, enquanto, na
verdade, nós é que o criamos. A reação contra mudanças é muito forte e a
crença que o que deu certo por mais de 30 ou 40 anos, continuará dando certo,
apenas com pequenos ajustes e melhorias, não funciona em um cenário de mudanças
exponenciais. Funcionou na sociedade analógica e linear. Mas, não mais na
sociedade digital. Estamos, pela primeira vez, nos defrontando com mudanças fundamentais
acontecendo durante uma única geração. Isso é algo novo, com o qual ainda não sabemos
como lidar.

O iPhone surgiu há dez anos (em 9 de janeiro de 2007) e hoje
temos negócios inimagináveis em 2007, provocado pelo simples fato de termos a
Internet no nosso bolso. Surgiram negócios como Uber, Waze, Instagram, Airbnb.
Industrias sólidas desapareceram ou estão perdendo relevância. A empresa
estática, criada para a sociedade industrial do século 20, não sobreviverá no
século 21. O cenário de negócios é volátil, incerto, ambíguo e complexo. A
empresa do século 21 tem que estar constantemente se reinventando. Deve ser uma
empresa cinética. Relembrando, que a energia cinética é a energia devido ao
movimento. É o caso de um corpo que recebe energia em forma de trabalho, e todo
este trabalho se converte em energia de movimento. Esta forma de energia é
denominada energia cinética. A empresa cinética é que todo trabalho é focado na
sua reinvenção contínua. É uma empresa ágil de ponta a ponta, em constante movimento.

reipeao

Olhar para o futuro e começar a construí-lo não é um
exercício acadêmico. É questão de sobrevivência empresarial. Por exemplo, se a
empresa atua hoje no que chamamos setor de saúde, ficar por fora de tecnologias
como IoT, IA, biomedicina, etc, e não considerá-las em suas visões de futuro é
colocar sua sobrevivência em risco.

A mudança acontece apenas quando o próprio CEO se engaja.
Por outro lado, o CIO pode e deve assumir papel importante neste processo. Se
ficar concentrado apenas no dia a dia, vai perder sua relevância. Tecnologia
está se disseminando pela organização e muitas funções hoje executadas pelo
tradicional setor de TI irão ser feitas de outra forma. E muito provavelmente,
fora da atual TI. Um exemplo de obstáculo que muitas áreas de TI provocam nas
suas empresas: não usam métodos ágeis. Ora, uma empresa cinética é ágil por
natureza, e se a TI bloqueia esta agilidade com processos e métodos lentos,
torna-se um bloqueador e não agregador de valor.

Para fazer a transformação digital é essencial compreender
sua essência. Uma verdadeira transformação é uma reinvenção do modelo
organizacional (e não o simples deslocar de caixinhas), processos digitais e
muito mais ágeis, e uso intenso do conceito de digitalização. A digitalização
provoca a desmaterialização, que leva à desmonetização, que potencializa a
democratização de uso. O smartphone é um exemplo clássico, pois desmaterializou
diversos equipamentos físicos como CDs, gravadores, GPS, câmeras fotográficas,
filmadoras, etc, que estão agora embutidos em um único dispositivo, o próprio
smartphone. A desmateralização barateou o custo (somem o valor de todos esses
equipamentos anteriormente comprados à parte) e democratizou o uso. Comparem o
antigo, caro e lento processo de fotografia analógica, com o de hoje, quando
vocês tiram milhares de fotos e postam em suas redes sociais, aplicando filtros
muito sofisticados, de forma totalmente gratuita. A consequência? Disrupção.

O digital é o futuro dos negócios. E dado que a
sobrevivência empresarial importa imensamente para as organizações), tudo o que
sua empresa fará será impactado pela mudança para o digital. A transformação
digital é, gostemos ou não, a nova regra do jogo. E, para ganhar, temos que jogar
este jogo. Não temos alternativas.

Já em 2011, o artigo de Marc Andreessen, “Why
Software Is Eating The World
” mostrava claramente esse cenário. Hoje
podemos inserir um adendo dizendo que “Software will Be Eating Your Back Office
porque em breve não terá mais sentido manter custosos back offices analógicos.
IA e outras tecnologias irão fazer com que grande parte dos atuais processos
seja completamente redesenhada. Recomendo a leitura do estudo “The
Robot and I: How New Digital Technologies Are Making Smart People and
Businesses Smarter by Automating Rote Work
, produzido pela Cognizant, que
mostra com dados este contexto.

Neste cenário de negócios líquido e em constante
transformação, a classificação de empresas de acordo
com seu ritmo de adoção de inovações, usada atualmente, que vai de “inovadoras” em um extremo a
retardatárias em outro, perde o significado. Uma empresa retardatária terá um
ônus tão grande em perda de receitas, clientes e custos maiores, que simplesmente
será expelida do mercado.

O novo jogo não perdoa empresas lentas. A frase de
Klaus Schwab, charmain do World Economic Forum é emblemática: “Neste novo mundo
não é o peixe grande que come o peixe pequeno. É o peixe rápido que come o
peixe lento”.

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures
 e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open
Source, Cloud Computing e Big Data

Newsletter de tecnologia para você

Os melhores conteúdos do IT Forum na sua caixa de entrada.