Não dá para ser gestor e programador ao mesmo tempo
A escolha de um programador para servir como gestor de projeto pode prejudicar a produtividade do projeto e ser cruel para o programador ao pedir que faça o impossível

Eis algo que nunca funciona bem: surge um pequeno projeto, que não
precisa necessariamente de um gestor de projeto em tempo integral. Então,
decide-se que um dos programadores pode funcionar como gestor do
projeto. Afinal, quem melhor entende o que precisa de ser feito do que o
programador?
Isto é verdade, e muitos programadores são bons gestores de projeto.
Não há nenhum conflito inerente entre o tipo de pessoa que é um bom
programador e aquele que faz será bom gestor. Ambos estão orientados para o
detalhe e procuram resultados concretos. Mas é simplesmente
impossível ser um bom programador e um bom gestor de projeto
simultaneamente.
Para entender a incompatibilidade, precisamos pensar sobre os tipos
de coisas que os programadores e os gestores de projeto são chamados a
fazer.
Desenvolver software é como viver em um estado de sonho. Para ser
produtivo, é necessário entrar em um mundo totalmente simbólico, onde se
manipulam algoritmos e variáveis, se prevêem fluxos e contingências,
se testam ideias e tópicos complicados de pensamento.
Trabalhar nesse tipo de mundo requer longos períodos de concentração
ininterrupta. Sempre que se é interrompido, perde-se a linha de
pensamento. E depois da interrupção, pode-se demorar algum tempo para retornar
onde se estava. Talvez
até ao dia seguinte.
Em outras palavras, o custo da comutação de tarefas durante o desenvolvimento de software é muito elevado.
A gestão de projetos exige uma mentalidade e estilo de trabalho
totalmente diferentes. Em vez de viver em um estado de sonho, os gestores
de projetos precisam estar intimamente e imediatamente ligado aos
fatos, emoções e política do seu meio ambiente. Os gestores de projeto
não criam apenas planos de projeto abstratos e acompanham o progresso
perante uma construção teórica. O seu trabalho é coordenar a atividade
de numerosas pessoas, entender o progresso que fazem, quais os
obstáculos que enfrentam, de que recursos necessitam, e como o trabalho
de cada um afeta a produtividade dos outros. Em outras palavras, o seu
trabalho é quase inteiramente interrompido. Eles precisam estar
disponíveis em todos os momentos para lidar com crises, evitar problemas
e comunicar com todos os envolvidos.
Não há, simplesmente, maneira de conciliar estes dois estilos de
trabalho diametralmente opostos.
Para começar, se oferecermos a alguém ser um
gestor de projeto e um programador, esta pessoa terá que escolher um
desses cargos como principal perante o outro. Se optar por ser
primeiro um programador e depois um gestor de projeto, sem ter total disponibilidade para a equipe do projeto e as partes
interessadas externas, todo o projeto vai sofrer com a falta de
liderança. Se escolher por ser um gestor de projeto e depois
programador, astarefas de desenvolvimento atribuidas a si mesmo estarão susceptíveis de serem concluídas com atraso ou
de não serem bem desenvolvidas.
Por isso, para melhorar a produtividade de um projeto, afaste essa tentação, muito comum.
(*) Paul Glen é co-autor do The Geek Leader’s Handbook e um dos responsáveis da Leading Geeks
