Melhor e de graça. Isso existe?

Já há alguns anos tenho reparado que em praticamente todo vagão do Metrô do Rio de Janeiro, onde vivo, há sempre uma pessoa, geralmente jovem, empunhando seu telefone celular, olhando fixamente para ele, de vez em quando digitando freneticamente alguma coisa e, volta e meia, esboçando um sorriso ou um esgar. Sempre totalmente alheio ao que ocorre em volta.
Há algum tempo você poderia apostar que tal pessoa estaria trocando mensagens de texto tipo SMS (?Short Message Service?, ou serviço de mensagens curtas), um serviço oferecido pelas prestadoras de telefonia móvel que permite o envio de mensagens de até 160 caracteres entre estes aparelhos. E provavelmente acertaria.
Hoje, se você repetisse a aposta, teria não mais que 50% de probabilidade de acertar. E no próximo ano terá menos de 30% de chances de acerto.
Qual a razão disto? E o mais importante: se elas não estarão trocando mensagens SMS, que diabo estariam fazendo com aquela cara abestada olhando para o celular?
Como diria o esquartejador de Battleville, vamos por partes.
Os SMS nasceram quando os telefones celulares passaram a ser digitais.
Como? Pensou que sempre foram? Tolinho… Antigamente (quer dizer, há cerca de quinze anos, uma eternidade em termos cibernéticos), eram analógicos, pequenos aparelhos radiotransmissores mais ou menos do tamanho de um desses tacos de assoalho e pesando menos de meio quilo, uma maravilha tecnológica cuja carga da bateria durava mais de quatro horas. E precisava ver o orgulho com que os proprietários de uma daquelas joias, com ares de superioridade e para embasbacamento geral e inveja disfarçada dos circunstantes, as sacavam do bolso para falar ostensivamente, geralmente tão alto que um pouco mais de volume tornaria o aparelho desnecessário já que, seja lá onde estivesse, o interlocutor poderia ouvir sem ele.
Mas isto são coisas de antanho e melhor é voltar ao presente.
Pois bem: quando a telefonia móvel atingiu o estágio digital, as prestadoras começaram a oferecer o SMS. Pago, naturalmente, já que a única coisa que prestadora de telefonia faz de graça e mandar a conta no final do mês.
O custo varia com a prestadora e o plano, geralmente se situando próximo dos vinte centavos por mensagem, podendo chegar a cinquenta. Mas seja qual for, o lucro é imenso, pois o custo real para a operadora do envio de uma destas mensagens é em média pelo menos cinco vezes menor do que o que ela cobra pelo envio. O que faz com que a receita das teles com elas seja brutal: segundo recente artigo de Daniel Thomas e Tim Bradshaw publicado no Financial Times no último 29 de abril e intitulado ?Rapid rise of chat apps slims texting cash cow for mobile groups?, elas esperam faturar mais de 120 bilhões de dólares americanos somente este ano com o SMS. O que significa aproximadamente cem bilhões de dólares de lucro anual. Uma galinha dos ovos de ouro.
Que, para tristeza das operadoras, começa a agonizar.
E seu algoz são os serviços conhecidos como ?mensagens instantâneas? (?Instant Messages?) via Internet, que sequer existiam cinco anos atrás.
E olhe que não me refiro aos serviços de ?bate-papo? (?chat?) oferecidos pelas redes sociais como o Facebook e similares, mas a serviços específicos de troca de mensagens entre quaisquer dispositivos conectados à rede através de aplicativos tipo ?Instant Messages?. Dos quais o exemplo mais ilustrativo (e mais popular), penso eu, é o WhatsApp (um jogo de palavras com a expressão coloquial do inglês americano ?What?s up??, que significa algo parecido com a nossa saudação ?e aí??, ?o que há de novo?), que está se disseminando tanto que Nokia adicionou um botão (físico, não virtual) só para ele em seu novo modelo Asha 210. Mas há outros, como o igualmente popular WeChat, além dos Viber, Nimbuzz, Line e mais uns tantos.
Como a coisa funciona?
Fácil: você instala o bichinho eu seu telefone esperto (essa é a única limitação: como a transmissão das mensagens é feita via Internet e não pelo serviço telefônico oferecido pela prestadora, o telefone tem que ter acesso à Internet) ou em seu computador, ou tablete, ou seja lá o que for que tenha acesso à Internet. Em seguida seus amigos, parentes, contatos e seja lá mais com quem você costuma se comunicar fazem o mesmo (quase todos estes aplicativos têm versões para Android, iOS, Windows e outros sistemas operacionais) e trocam seus ?endereços? com você. É o que basta. Quando você quiser trocar mensagens com eles, simplesmente lhes envia sua mensagem exatamente da mesma forma que o faria em um sistema tipo SMS ? com algumas pequenas vantagens sobre este último, como a ausência de limitação do número de caracteres, a possibilidade de enviar anexos como fotos e vídeos e coisas que tais. E, acima de todas as demais, uma vantagem insuperável: é de graça.
Taí o tipo da coisa que só vi acontecer nos tempos da Internet: o oferecimento de um serviço similar a outro pago, porém melhor ? muito melhor ? e gratuito.
Sendo assim, não é de estranhar que, para desespero das operadoras, uma pesquisa conjunta da empresa Informa e do Financial Times tenha indicado que no final do ano passado, pela primeira vez, o número de mensagens instantâneas trocadas entre estes aplicativos superou o número das trocadas entre celulares via SMS. E olhe que não foram computadas as mensagens enviadas ?dentro? das redes sociais, como os serviços de ?bate papo? (?chat?) do Facebook e similares.
A pesquisa é citada no artigo de Daniel Thomas e Tim Bradshaw mencionado acima. Nele, os autores informam que ainda este ano o número de mensagens instantâneas trocadas pelos aplicativos via internet chegue a 41 bilhões, mais que o dobro das SMS trocadas via operadoras. E que no próximo ano a diferença ainda seja maior. E como muitos destes aplicativos oferecem ainda a comunicação por voz, alguns deles gratuitamente, a perda de receita das teles tende a aumentar.
Aliás, ainda citando a pesquisa, mesmo desconsiderando a comunicação via voz a perda já é significativa. Na Espanha, a receita das operadoras devida exclusivamente ao SMS caiu de 1,1 bilhões de Euros em 2007 para 758,5 milhões em 2011 devido ao declínio do número de mensagens trocadas ? que caiu de 9,5 bilhões em 2007 para 7,4 bilhões em 2011. E as operadoras da Holanda e Coreia do Sul observaram uma queda similar.
Portanto não é de admirar que o número de usuários que adotam estes aplicativos seja grande e continue crescendo rapidamente. Só o WhatsApp e o WeChat têm pouco menos de 300 milhões de usuários inscritos em cada que, somados, igualam ao número de usuários móveis do Facebook (e se você se espantou com o elevado número de usuários do WeChat, do qual provavelmente nunca ouviu falar, não estranhe: é chinês, e na China 300 milhões de pessoas sequer chega a ser ?muita gente?).
O curioso é que o número de usuários das mensagens instantâneas é significativamente menor do que os do SMS. Segundo artigo de Victoria Woollaston no Mail Online, em 2012 a soma do número de usuários dos seis maiores aplicativos de mensagens instantâneas via Internet chegou a 586,3 milhões (liderados com folga pelos WhatsApp e WeChat) enquanto o de usuários do SMS atingiu 3,5 bilhões. Em contrapartida, o usuário médio do SMS envia cinco mensagens por dia, enquanto o das mensagens instantâneas envia 32,6 mensagens diárias.
A conclusão é óbvia: assim que descobrem os serviços de mensagens instantâneas, gratuitos e muito mais flexíveis, os usuários aderem a elee e, além de aumentar significativamente o número de mensagens trocadas diariamente (afinal, é de graça…) tendem a abandonar o SMS.
Péssima notícia para as operadoras.
Excelente notícia para nós, usuários.
Aproveitem, porque isto é raro…
B. Piropo
