Intel investe em solução para identificação eletrônica de carros
Concebida para atender ao Siniav e licenciada pela Autofind, solução baseada em RFID tem aplicação também em sistemas de pagamento em postos, estacionamentos e pedágios e no controle de acesso em condomínios

Já pensou em ter um transponder
RFID, parecido com o do “Sem Parar” ou o do “Via fácil”, instalado em todos os veículos autorizados a
entrarem no estacionamento do condomínio? Ou nos carros em abastecimento na
bomba de combustível, capaz de se conectar ao cartão de crédito do motorista
para débito automático do consumo, sem a necessidade de intervenção do
frentista? E se esse tranpsonder (ou tag) obedecesse ao padrão criado
pelo Siniav ( Sistema de Identificação Automática de Veículos, do Contran) e
estivesse associado a um cadastro contendo a marca, o modelo, o ano de fabricação
e informações sobre o principal condutor do veículo?
Pois todos esses cenários de uso,
privado e público, capazes de possibilitar o desenvolvimento de novos modelos
de negócio nas áreas de transporte inteligente (mobilidade urbana e o
transporte de cargas) e varejo inteligente, motivou a Intel a criar uma solução
completa para identificação eletrônica de veículos especificamente para o
mercado brasileiro, baseada na plataforma WISP (Wireless Identification and
Sensing Platform), sistema RFID desenvolvido pelo Intel Labs em colaboração com
a Universidade de Washington e o MIT.
Licenciada pela empresa Autofind,
a solução completa para a identificação automática de veículos inclui desde a
placa de identificação veicular – Transponder RFID, antenas e subsistemas de
leitura de placas – até as estações de gravação e configuração das tags.
Localizada na cidade de Itajubá-MG, região do Vale da Eletrônica Mineiro, a
Autofind faz parte do portfólio de empresas da Intel Capital.
A intenção da Intel é que os
modelos de negócio surgidos no Brasil a partir do uso do sistema em áreas como
segurança, logística e localização automática de veículos, sirvam como grande
vitrine para as potencialidades da tecnologia no resto do mundo.
Siniav
O sistema criado é o primeiro passo na construção de um sistema avançado para
atender às demandas do projeto Siniav, do governo brasileiro. Atualmente, a
Autofind está trabalhando no desenvolvimento de uma versão a ser submetida ao
processo de homologação de um OCD (Organismo Certificador Designado) autorizado
pelo Denatran.
A ideia do Siniav é que todos os
veículos leves, comerciais leves, caminhões, ônibus, ciclomotores,
motocicletas, triciclos, quadriciclos, tratores, reboques e semi-reboques, além
dos modelos importados, instalem um chip RFID com o intuito de permitir uma
melhor fiscalização sobre os veículos, tanto no que se refere ao recolhimento
de impostos e taxas, como sobre sua localização, respeito às regras de
trânsito. Ele é de adoção obrigatória nacional.
Segundo Antônio Sérgio Calmon,
presidente da Autofind, o país tem hoje 77 milhões de veículos licenciados
anualmente, 56 milhões deles considerados ativos. Mais cedo ou mais tarde (o
prazo previsto para a total adequação ao Siniav termina no fim de junho de
2014), toda essa frota estará utilizando o tal transponder, ou tag, que
substituirá o selo de licenciamento. Por isso, a instalação ficará a cargo dos
Detrans. “Projetos já estão em andamento em várias cidades e incluem desde
a instalação da infraestrutura de campo até a estrutura de gravação e cadastro
das tags. Roraima é o primeiro estado onde o sistema já está praticamente
pronto”, completa o executivo.
Cada cidade tem liberdade para
decidir onde vai instalar a infraestrutura de campo, obedecendo o tipo de uso
que fará da solução. Há cidades, como São Paulo, interessadas em usar na gestão
de trânsito e combate à evasão fiscal. “Só a cidade de São
Paulo deve ter perto de 4 mil antenas planejadas para serem instaladas na
cidade, voltadas para uma aplicação de gerenciamento do trânsito paulista que
qualquer outra coisa”, diz Calmon. Isso sem falar na fiscalização de
pagamento do IPVA. Ou do rodízio.
A solução já recebeu certificação
da Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de
São Paulo – ARTESP – e está sendo testada por operadoras de serviços de
arrecadação e concessionárias de rodovias, em aplicações como pedágio
eletrônico com tecnologia RFID de 915 MHz. Hoje, de acordo com Calmon, o
“Sem Parar” trabalha com uma tecnologia europeia, que trabalha com
5,8Ghz, proprietária, que não é interoperável. Já a tecnologia usada no Artesp
segue o padrão interoperável patenteado pelo Denatran, e que será usada por
todos os pedágios das rodovias federais.
Um dos motivos da troca da
tecnologia e uso da frequência de 915MHz foi a possibilidade de, um dia, o
Brasil poder fabricar aqui o chip usado no sistema. As duas frequências vão
conviver por mais ou menos três anos. Quem tem o “Sem Parar” ativado
no veículo vai poder usá-lo até o término da bateria da tag. Ao trocar, já
receberá uma tag com o novo sistema que, dependendo do gestor da aplicação,
poderá de vida útil de até 5 anos.
“As secretarias de Fazenda,
por exemplo, estimam em um aumento de 30% na arrecadação só pelo monitoramento
dos caminhões nas estradas”, diz ele.
Tudo isso será capaz de tornar o
sistema economicamente viável. Inicialmente, segundo Calmon, o custo da
implantação da solução para o Siniav será coberto pelo Fundo Nacional de
Segurança e Educação de Trânsito (FUNSET). O Código de Trânsito Brasileiro
(CTB), instituído pela Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, em vigor desde
22 de janeiro de 1998, estabelece em seu artigo 320, parágrafo único, que o
percentual de 5% (cinco por cento) do valor das multas de trânsito deve ser
depositado mensalmente, na conta do FUNSET.
“Mas hoje, os modelos que
estão sendo discutidos pelas cidades hoje se pagam”, explica Calmon.
Privacidade
De acordo com Antônio
Calmon, a ideia do Siniav nunca foi bisbilhotar ou fiscalizar a vida das
pessoas. “Essa é uma preocupação recorrente. Todo mundo pensa que vai ser
monitorado, rastreado. Mas o intuito sempre foi proteger o bem do
cidadão”, explica o executivo, ressaltando que a tag (ou transponder) tem
um número de identificação único que não é cruzado diretamente no sistema com o
nome do usuário. “Seu nome só é cruzado com o número que a tag transmite
para as antenas se o veículo estiver em alguma situação de irregularidade, como
taxas vencidas, sequestro, roubo do veículo, etc”, explica ele.
O Detran não tem nenhum controle
sobre as informações que são gravadas na tag. Elas vêm direto do Renavan. A
gravação é feita sem interferência humana no Detran. Além do mais, as
informações que saem dos transponders são criptografadas, para garantir a
segurança exigida pelas aplicações.
Os benefícios para os usuários
também podem ser um atrativo. Por que não permitir que, mesmo no horário de
rodízio, em São Paulo, sua esposa possa levar o seu filho na escola do bairro,
por que, nesse caso ela não estará contribuindo para prejudicar a qualidade do
ar ou trânsito nas marginais ou grandes avenidas? E dar desconto no IPVA para
quem respeitasse essas regras, ou outras, ecologicamente corretas? Ou
identificar a clonagem de um carro para evitar a emissão de multas por
infrações cometidas pelo clone?
A parte de Business Intelligence
desse projeto é a parte que vai educar todas as áreas de trânsito,
transformando-o em uma aplicação ganha-ganha, tanto para as autoridades de
trânsito quanto para os motoristas. O banco de dados pertence aos Detrnas, mas o Denatran tem um espelho de todo o fluxo da informação desde que ela sai do tag, passa pelo concentrador e chega ao banco de dados. Isso foi necessário para que um carro roubado em um estado possa ser identificado em outros estados, explica Calmon.
O Denatran tem um servidor que roda dentro do Serpro. É um gerador de chaves que habilita diariamente o funcionamento das antenas. Só com essa chave o concentrador é capaz de armazenar os dados e transmitir tudo para o banco de dados. A caixa concentradora tem uma série de proteções para evitar roubo e violações.
Outros usos
Desde o ano passado, a BR Distribuidora testa o sistema no Posto do Futuro
localizado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para venda de produtos e
serviços para veículos e seus condutores. Quando os clientes chegam a um posto
de gasolina inovador operado pela Petrobras, seus carros são reconhecidos pela
leitura da placa ou pelo rótulo RFID incorporado, cadastrado no banco de dados
do Programa de Prêmios aos Clientes. Isso permite que o letreiro digital de 46
polegadas, posicionado acima do para-brisa, exiba conteúdo personalizado com
base na informação demográfica do motorista armazenada em seus perfis.
Cada posição ou bomba de
abastecimento possui uma antena e uma tela de 50 polegadas de Alta Definição
(HD). As antenas estão associadas a um Subsistema de Leitura de Placas (SLP).
Os SLPs enviam as informações coletadas do veículo para o sistema GSOF, um
software de gestão de dados desenvolvido com a Intel, que, de acordo com as
informações identificadas pelos SLPs e pelo concentrador de bombas do posto,
exibe na tela HD conteúdos específicos associados ao veículo e o abastecimento
em questão.
Na etapa chamada de
pré-abastecimento, o sistema recebe as informações da tag e da bomba onde o
veículo se encontra. De acordo com as informações cadastradas, o sistema exibe
diversas informações, começando pelo combustível escolhido e o status do
abastecimento (quantos litros foram colocados no tanque e o preço da transação)
e também dicas, como o tipo de lubrificante adequado ao modelo de veículo e
vinhetas de marketing, com anúncios de parceiros do posto de abastecimento,
além de notícias sobre as condições meteorológicas e de tráfego nas
proximidades do local.
Outra uso possível é o sistema do
Siniav entregar para o setor privado, para as empresas de GPS, informações
sobre o trânsito. O aparelho de GPS será capaz de saber a velocidade
média do trânsito nas principais vias, uso das pistas, etc e escolher caminhos
alternativos, distribuindo melhor o fluxo.
“Na nossa opinião,
aplicações do setor privado, como essa, ajudarão acelerar a adoção do
sistema”, afirma Max Leite, diretor de inovação da Intel Brasil. Ele
acrescenta ainda que a solução licenciada e vendida pela Autofind é a única
disponível no Brasil que cobre o sistema de ponta, desde a tag até às câmeras,
ao banco de dados e à computação de alto desempenho que possibilita a
identificação da ocorrência de um ilícito em tempo real.
A aporte feito pela Intel Capital na Autofind não foi revelado, bem como o montante investido pela Intel no desenvolvimento da solução que, por enquanto, não será licenciada para outras empresas.
