Plano diretor de informatização transforma RH

Natura reuniu consultoria externa, administração de pessoal e equipe de TI no plano diretor para tornar o recursos humanos da empresa uma divisão estratégica para cada tomada de decisão.

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2:25 pm - 22 de novembro de 2004

André Borges

Dia 12 de outubro. A Natura, empresa brasileira de cosméticos, envia centenas de convites para um pequeno grupo infantil, centenas de nomes escolhidos a dedo. Nominal e entregue em mãos, a carta convida a criançada para ir até a companhia, entrar em suas salas, corredores, passear pela fábrica, enfim, fazer a festa. A estratégia, que dá pinta de peripécia marqueteira para vender produtos para o público infantil tem, na verdade, um alvo bem distinto: os próprios funcionários da Natura. “Fomos até nossa base dados, identificamos quais dos nossos 3.100 profissionais têm filhos e então mandamos uma carta para a casa de cada um, no nome de cada criança”, conta Flavio Pesiguelo, gerente de RH da Natura.


Ações simples de endomarketing como essa, ou mesmo iniciativas mais complexas – como oferecer pela internet acompanhamento de resultados e performance individuais, informações sobre produtos, gerenciamento de carreira, remuneração, contratação e desligamento de funcionários – ganharam fôlego na Natura há pouco mais de três meses, após a conclusão de um plano diretor de informatização. Criado especialmente para a administração de pessoal da empresa, este projeto é parte do que a Natura batizou de Planejamento e Desenvolvimento de Recursos Humanos, um processo institucionalizado pela empresa usado para identificar, adquirir e desenvolver competências. É com base nesse PDRH que a Natura determina medidas para desenvolvimento organizacional; processo de gerenciamento de desempenho; treinamento e desenvolvimento; recrutamento e seleção.


Os números da empresa explicam por que tanta complexidade está longe de ser mera burocracia. Entre seus mais de 3 mil funcionários diretos, estão 800 promotoras de vendas que hoje respondem pela capacitação, manutenção e ampliação de uma base de 367 mil vendedores indiretos espalhados por todo o País. “Cuidamos especificamente de nossa base interna, para que ela possa dar todo o suporte necessário à revenda”, explica Pesiguelo.


Mas nem sempre foi assim. Em 2000, o contato mais estreito entre RH e tecnologia estava praticamente limitado à geração de folha de pagamento. “Foi quando decidimos que já era hora do Recursos Humanos se tornar estratégico para a empresa. Então iniciamos o projeto em 2002, chamamos a área de TI e contratamos a Accenture.”


Tudo em casa


Pesiguelo não pisava em solo arenoso. Com formação em análise de sistemas, o gerente de RH já tinha desenvolvido sistemas para administração de pessoal e sabia muito bem como uma área poderia colaborar com a outra. Durante dois anos, a Natura tratou de separar problemas de sistemas e de processos, mapeando tudo o que seria informatizado. “Fizemos uma reunião e criamos uma estratégia para definir o papel de cada gestor.”


O namoro entre TI e RH deu certo e a tecnologia presenteou o departamento de pessoal com uma de suas gerentes de sistemas. “Hoje temos uma mediadora, uma profissional que entende nossas necessidades e busca a solução na tecnologia”, explica Pesiguelo.


Na área de sistemas, a companhia avaliou diversas ferramentas, mas acabou decidindo pelo SAP por já utilizá-lo em outros departamentos, inclusive na folha de pagamento. “Compramos uma solução de portal deles, o que facilitou o gerenciamento porque usa interface web”. No ar desde julho, a intranet permite que, por meio de uma senha, seus usuários tenham acesso a diversos serviços e aplicações, tudo desenhado para cada perfil profissional. Na unidade fabril da Natura, em Cajamar (SP), quiosques com computadores forma instalados em diversos locais da empresa. “O gestor passou a ter uma ferramenta abrangente, com isso nós descentralizamos os serviços e passamos a ter tempo para pensar mais estrategicamente.”


As mudanças também levaram a Natura a rever contratos com prestadores de serviços. A gestão da folha de pagamento, até então terceirizada com a empresa ADP Systems, passou para as mãos da Accenture. “Eles faziam parte do serviço e nós ficávamos com a gestão de sistemas, era uma bola dividida. Com a consultoria terceirizamos tudo, da implementação do sistema até a administração de pessoal e de melhorias no R3 (produto da SAP)”, comenta Pesiguelo.


Cultura


Passadas as fases de mapeamento de processos e implementação de sistemas, a Natura entra numa etapa que, segundo seu gerente de RH, é a mais complexa: a questão comportamental. Para avaliar o impacto das mudanças, uma pesquisa está percorrendo todas as áreas da empresa, pedindo opiniões e críticas dos funcionários. Com o resultado que deve ser apurado nos próximos dias a empresa fará os ajustes necessários. “É um pouco cedo para avaliarmos os resultados, o próprio RH mudou muito, é difícil largar a velha planilha”, admite o executivo.
Pesiguelo acredita que, atualmente, apenas 60% do potencial do RH vem sendo utilizado. Tanto a consultoria externa quanto o departamento de TI serão essenciais para ampliar este índice. “Mantemos um contrato com a Accenture por horas de trabalho/mês. Hoje tenho uma lista de 60 melhorias, aos poucos vamos cobrando isso.”


O mercado tem reconhecido o esforço feito pela empresa. Por três anos consecutivos, a Natura ganhou o título de Melhor Empresa do Setor de Higiene e Limpeza, premiada pela revista Carta Capital como a companhia do segmento de cosméticos mais admirada pelo público. O site Natura.net também levou o prêmio iBest Grand Prix no ano passado. Com o mesmo modelo agressivo de remuneração, a empresa já ampliou sua rede para países como Argentina, Bolívia, Chile e Peru. “Hoje o Recursos Humanos é um departamento ativo, que atua nas decisões da companhia, e para isso tem como ferramental fundamental as soluções de tecnologia”, conclui Pesiguelo.

|Computerworld – Edição 420 – 03/11/2004|

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