Evite confundir tendência com modismo ao empreender

Tivemos muitos casos de oportunismos, até mesmo de aceleradoras sem background adequado entrando no mercado

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7:01 am - 30 de janeiro de 2017

Um movimento extremamente muito importante para o país é o
crescimento de uma cultura empreendedora inovadora. Recentemente a Techcrunch
publicou artigo bem interessante, “Brazil:
A look into Latin America’s largest startup ecosystem
”, mostrando que o
Brasil, apesar da crise, tem o maior ecossistema de startups da América Latina.
Quando falamos em empreendedorismo, é importante destacar a diferença entre empreender
por necessidade ou subsistência, muito comum em países com baixas oportunidades
de emprego, e os que empreendem por oportunidade, que lançam novos produtos,
processos ou serviços.  O empreendedor
inovador tem visão de empresas com potencial de ganhar escala, mas também deve
ter a capacidade de transformar essa visão em realidade. Não são meros
inventores, que param na ideia, mas devem ter a consciência que o sucesso é 5%
de inspiração e 95% de suor.

Na prática, a palavra empreendedorismo soa como algo
mágico.  Tem seu lado bom, inovação e
salvação de economias, e um lado ruim, quando a energia empreendedora se esvai
em áreas de baixa agregação de valor e consequentemente de baixo impacto
econômico e social. Uma forte cultura de empreendedorismo é essencial ao
crescimento de um país. Para criar uma cultura empreendedora, é preciso formar
uma mão de obra empreendedora. Mas, ensinar empreendedorismo não é fácil. Envolve
criatividade, inovação e investimento, que não é gerado pelo ambiente pelo
atual modelo de ensino clássico e limitador. Isso implica que as escolas ou
universidades têm que sair das salas de aula e ir para o mercado, para trazer a
realidade para dentro dos processos de criação de oportunidades. Empreender exclusivamente
em sala de aula é engodo.

Empreender no Brasil não é fácil. Não temos um cenário
propício à inovação, temos um aparato de impostos e um ambiente regulatório
(leis trabalhistas obsoletas) e burocrático que é um dos piores do mundo, além
de uma cultura que tende a punir fracassos e, consequentemente, é altamente
desestimuladora. O medo de falhar é um dos principais empecilhos para criar um
negócio. Diversos estudos já comprovaram que extensa burocracia e leis
trabalhistas rígidas, em mercados excessivamente regulados, têm efeito negativo
no espírito empreendedor por que punem os que querem tentar. Na Irlanda
abre-se uma empresa em cinco dias, e aqui leva-se em torno de 80 dias! Mesmo
assim, vemos muitos exemplos de empreendedorismo criativo pipocando por tudo
que é canto. 

Tem uma parcela da nova geração que quer empreender, inovar em
ambiente de tecnologia. Não pensam em ser empregados numa grande empresa e
muito menos em serem funcionários públicos. Querem ser empreendedores criativos,
desenvolver algo inovador e não temem correr riscos. Estão dispostos a
trabalhar duro, se dedicarem e lutarem em condições adversas, se esse for o
custo a ser pago para terem sucesso.

Precisamos, certamente, avançar muito. Um ambiente
que incentive o florescimento do empreendedorismo é visto como estratégico para
a maioria das nações. A União Européia criou seu programa “Empreendedorismo
2020”, elegendo como prioridade o fomento das ambições empreendedoras de seus
cidadãos. O projeto foi lançado em 2013 e até 2020 terá injetado 75 bilhões de
euros no financiamento de novas empresas nos países da região.

O mundo das startups não permite acomodação. Claro que
muitas têm ambição de se tornar unicórnios brasileiras. O nome refere-se às
empresas com valor de mercado superior a um bilhão de dólares e que mantém o
capital fechado. Inicialmente, esse nome fazia sentido, pois os unicórnios eram
realmente raros. Mas hoje, nos EUA, por exemplo, dezenas de empresas,
especialmente de tecnologia, são unicórnios.

Mas criar uma startup de sucesso não é simples. Muitas vezes
vemos o modismo direcionando o lançamento delas. O fantástico crescimento do
Uber e outras, como Airbnb, baseadas no conceito da economia do compartilhar,
geraram uma verdadeira compulsão ao “Uber for X”, ou seja, tudo poderá ser
uberizado. Um recente estudo publicado pela Wharton (Universidade da
Pennsylvania), “Growth
vs. Profits: Uber’s Cash Burn Dilemma
” mostra que criar um Uber ou Airbnb
talvez seja uma ocasião única, dificilmente replicada. O incrível crescimento
do Uber demanda muito investimento. Em 2016, seu prejuízo foi de três bilhões
de dólares. 

Criar um novo mercado não é barato. Por outro lado, a economia do
compartilhar é uma realidade na sociedade. A questão é descobrir se é aplicável
a tudo e todas as coisas. O Uber tem todo potencial de continuar crescendo,
mesmo porque, de forma similar à Amazon, adota uma estratégia pouco comum
no mundo das startups, que é investir muito, crescer antes de gerar
lucratividade. Não é uma estratégia para muitos, pelo simples fato que fazer o
“efeito de rede” criar seu momento de ignição custa, sim, muito dinheiro.

startup

 Mercados fortemente baseados no “efeito de rede” tendem a se aglomerar em uma
ou duas plataformas. Não temos dois Facebook, nem dois Twitter. Só há espaço
para um. Mesmo a poderosa Google não conseguiu emplacar seu Google+. O texto “Inside
the failure of Google+, a very expensive attempt to unseat Facebook
mostra
isso claramente.

Mas, o modismo do “Uber for X” se propaga por todo mundo, e
aqui no Brasil vemos exemplos e mais exemplos de startups adotando esse modelo, para qualquer tipo de oferta. Vamos, por exemplo, olhar os EUA, país com forte
adesão ao conceito de “on demand economy”. Muitas startups não conseguiram
sobreviver, como a Washio, como vemos em “Washio
on-demand laundry service shuts down operations
”.

A questão é que muitas vezes se confunde tendências de
mercado, difícil de reconhecer quando aparecem seus primeiros sinais, com
modismo, levado pelo efeito manada. O Uber encontrou um momento propício quando lançado em 2009. Serviços de táxi ruins, de qualidade duvidosa, uso
crescente de smartphones, busca por facilidade de uso e, nos EUA, a crise
econômica que levava as pessoas a buscarem fontes de renda alternativas. Mas, estas condições são aplicáveis a todos serviços? Por
exemplo, o Minibar, o “Uber for alcohol”, demanda consumo de álcool com a
periodicidade de transporte individual?

O sucesso de startups baseadas no conceito da economia do
compartilhar exige que elas alcancem massa crítica rapidamente, o tal “efeito
de rede”, para conseguir dominância no mercado, porque são ofertas que tendem a
ser facilmente replicados (basta a ver a diferença de tamanho entre o Uber e seus
concorrentes como Lyft e Cabify. Didi, na China, não conta, pois é um mundo à
parte); sejam serviços que realmente sejam necessários (o famoso teste da
escova de dentes: você usa sempre?); e resolvam um problema incômodo e
persistente para o usuário, e não apenas uma demanda pontual. Caso não consigam
alcançar estes três pontos, ou serão um negócio de nicho ou não sobreviverão.

A maioria das startups criadas nos últimos anos é
insustentável. Muitas outras que serão criadas também serão insustentáveis. Tivemos
muitos casos de oportunismos, até mesmo aceleradoras sem background adequado
entrando no mercado. Mas, esse é mundo das startups. Falhar faz parte do jogo.
E quanto mais cedo detectar o erro, parar o jogo. Mas, vamos olhar mais pelo lado positivo. Esta mentalidade
empreendedora que está florescendo no país é altamente benéfica. Claro que a
limitação de recursos tira do jogo, naturalmente, os empreendedores mais
despreparados e os negócios que não geram valor. Isso é saudável. Mas, como a
crise é uma chance grande demais para não a desperdiçarmos, devemos incentivar
a e apoiar o ecossistema de startups, ajudando-as a se desenvolverem, a
identificarem as tendências de mercado de um modismo tecnológico, e interagirem
com as demandas das corporações de criarem inovação. 

 Aliás, essa sinergia, entre empresas e
startups através de diversos meios, como Corporate Ventures, tende a se tornar
um dos mecanismos mais eficientes de co-inovação rápida nas corporações. O
artigo “More
Corporations Are Looking to Corporate Venture Capital to Access Innovative
Startup Technologies
” mostra isso claramente. Ao investir em empresas
inovadoras, as organizações podem acessar tecnologias inovadoras, descobrir
novos produtos e experimentar novos modelos de negócios. E elas podem fazer
todas essas coisas na velocidade de uma startup!

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures  e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data

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