Empresas brasileiras precisam sair do discurso e levar inovação à prática

Contrariando o desejo de muitos dos que lerão esse texto (inclusive o meu), a indústria de TI no Brasil não tem grandes motivos para celebrar seu desempenho quando o assunto é inovação. Apesar de alguns lampejos pontuais de criatividade, as estatísticas demostram que temos que comer ainda muito feijão com arroz para evoluir. Um exemplo simples e não tão preciso disso pode ser medido pelo fato de que 77% dos softwares comercializados no País, segundo estudo da IDC, são produzidos no exterior.
?Inovação virou um assunto desgastado. Todo mundo agora é inovador. A boa notícia é que não precisa convencer ninguém mais que inovação é importante. Agora é partir para a prática?, comenta Eduardo Costa, diretor do ÁgoraLab.
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Um esforço para virar esse jogo começou há pouco tempo quando o Ministério de Ciência e Tecnologia inseriu o termo ?inovação? no título da pasta. A partir disso começou a desenrolar uma série de medidas para incentivar os empresários.
Pois bem, para o Governo, ?inovação é feita na empresa e é um aspecto econômico?, sintetiza José Henrique de Lima Correa Dieguez Barreiro, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que adiciona: ?tecnologia vai a reboque nesse processo?. A ideia é incentivar o desenvolvimento de soluções que devem ser comparadas ao que vem sendo feito no mercado internacional. ?Para saber se estará competitivo no futuro?, completa.
Recentemente, governo e entidades de fomento se reuniram para discutir o tema. De acordo com Glaucio Arbix, presidente da Finep, há uma demanda por recursos para apoiar projetos de inovação. O executivo informou que 1904 empresas apresentaram projetos para o programa InovaEmpresa, lançado em março. Esse volume criou uma demanda por investimentos da ordem de 56 bilhões de reais.
?Se aprovarmos 10% desses projetos, e essa é uma meta bem conservadora, teremos pelo menos 6 bilhões para os próximos dois anos?, ponderou. O governo lançou linhas de inovação direcionadas a diversas indústrias. TI, no caso, não está nessa lista por se considerar que é uma atividade que permeia as demais verticais. ?Quase todas chamadas e editais que fazemos contemplam desenvolvimento de software?, comenta André Nunes, chefe do departamento de TI e serviços da Finep.
Os esforços estatais para alavancar inovação estão na rua. Contudo, ainda há questões básicas a solucionar. Por exemplo: a Finep vê uma concentração de projetos pleiteando recursos de financiamento sendo submetido nos últimos dias dos prazos estabelecidos. Até aí, deixar pra última hora é uma das ?paixões nacionais?.
O problema é o grande volume de propostas com erros que desqualificam as empresas já na primeira etapa de avaliação. Nunes cita um caso onde 75% dos projetos vieram com algum tipo de falha que o desclassificaram da chamada.
Mas as empresas nacionais acordaram para a subvenção governamental. Nos anos anteriores sobrava dinheiro e faltava projeto de TI. ?Esse ano, pela primeira vez, sobrou empresa. É um problema bom para resolvermos?, comenta Nunes.
O órgão encara que no campo da tecnologia há oportunidades para projetos em interatividade, infraestrutura de telecomunicações (com gestão de rede e integração com o legado), microeletrônica e cloud computing.
Alinhamento
?Entendemos inovação com algo muito maior, vinculado a estratégia da empresa do que no desenvolvimento de um produto ou processo específico?, comenta André Nunes, chefe do departamento de TI e serviços da Finep. O sucesso das iniciativas passa pelo alinhamento do conceito à cultura corporativa, plano estratégico e modelo de negócio das empesas.
Na visão de Guilherme Bernard, da catarinense Reason, uma empresa que atua com monitoramento de linhas de transmissão de energia, que ganhou alguns prêmios em inovação, quando se trata de startups, o executivo enxerga outra questão. Na visão dele, há uma dificuldade de achar clientes capazes de aceitar um produto inovador e permitir acesso ao mercado. Bernard observa até há certo ?preconceito? do mercado quanto produtos inovadores vindos de empresas novas no Brasil.
