“Todo meio de transporte será elétrico, exceto foguetes”

Estamos vivenciando uma verdadeira revolução no setor de transportes e logística provocada pela rápida adoção de veículos elétricos.

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6:15 pm - 24 de junho de 2021

A frase emblemática do título do artigo foi proferida por Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX e, cada vez mais vemos se tornar realidade.

Em 2018, Mary Barra (CEO da General Motors) declarou que ¨ Entre 5 e 10 anos haverá mais mudanças no setor automobilístico do que nos últimos 50 anos¨.

Antes mesmo de chegarmos em 2023, as mudanças anunciadas pela CEO da GM estão se confirmando.

Não só a indústria automobilística, mas quase toda a indústria de veículos de transporte se move cada vez mais para a utilização de meios alternativos aos combustíveis fósseis, inclusive de forma autônoma. Isto inclui a indústria de aviação, ferroviária e a naval, dentre outras.

Vejamos alguns exemplos:

  • Os drones autônomos já fazem parte da nossa rotina e cada vez ganham versatilidade e formatos e são utilizados em diversas aplicações, inclusive, críticas e sensíveis;
  • O uso de caminhões e ônibus elétricos e autônomos já é uma realidade em vários países. Já existem no mercado modelos de caminhões elétricos e autônomos sem cabine do motorista, como é o caso do Vera da Volvo. A China liberou recentemente o uso de mais de 5.000 caminhões autônomos nas estradas chinesas;
  • A Navistar está desenvolvendo, em parceria com a GM, caminhões movidos a hidrogênio, previstos para serem lançados em 2024;
  • A startup Merlin, que tem o Google como acionista, já trabalha no desenvolvimento de uma aeronave elétrica e autônoma;
  • A Wabtec Corporation firmou uma parceria com a GM para o desenvolvimento da primeira locomotiva elétrica do mundo;
  • O Mayflower 400, primeiro navio autônomo do mundo, já está navegando nos oceanos. O projeto foi desenvolvido pela organização marinha ProMare e usa inteligência artificial e energia do sol para atravessar o oceano de forma limpa e independente;
  • As empresas norueguesas Marin Teknikk e Kongsberg Maritime desenvolveram, em parceria com a empresa suíça Leclanché AS, o Yara Birkeland, o primeiro navio de contêineres autônomo e movido a bateria do mundo;
  • Carros voadores, que até pouco tempo eram somente tema do desenho animado ¨Os Jetsons¨, são hoje uma realidade. No momento, mais de duzentos projetos de aeronaves elétricas e híbridas estão em desenvolvimento, com destaque para os projetos de veículos elétricos e híbridos de decolagem e pouso vertical (conhecidos como eVTOLs). A Eve Urban Air Mobility Systems, startup nacional criada pela Embraer, fechou um acordo de venda de 200 eVTOLs para a Halo (imagem de destaque), famosa empresa de táxi aéreo urbano que atua nos Estados Unidos e em Londres. As entregas, de acordo com a empresa, começam a ser feitas em 2026;
  • Já se prevê a adoção de taxis aéreos em 2024 em alguns países e em alguns estados americanos.

Em janeiro, a Federal Aviation Administration (FAA) dos EUA anunciou que espera certificar os primeiros eVTOLs ainda este ano e ter regulamentações sobre sua operação até 2023. A Agência de Segurança da Aviação da União Europeia espera que serviços de táxi aéreo estejam operacionais na Europa entre 2024 e 2025.

O grande esforço mundial para a sustentabilidade e redução da emissão de CO2 tem sido um impulsionador da substituição dos combustíveis fósseis por fontes limpas de energia.

Associado a esse esforço mundial, os ganhos advindos das evoluções exponenciais de algumas tecnologias e redução de custos, como exemplo, as baterias, semicondutores, infraestrutura de conectividade, capacidade computacional, dispositivos de armazenamento de dados, dentre outras, bem como a automação dos processos produtivos motivados pela Indústria 4.0 e a utilização mais intensa de aplicações baseadas em algoritmos de Inteligência Artificial, inclusive embarcada, e de plataformas Internet das Coisas (IoT), propiciam a expansão do desenvolvimento de veículos autônomos, inteligentes e conectados de baixo custo.

Essas evoluções tecnológicas tem provocado uma verdadeira revolução no modelo de negócios das empresas tradicionais da indústria automobilística, com um maior foco na mobilidade e nos veículos autônomos, inteligentes e conectados, como também das empresas do setor de logística e das operadoras do setor elétrico.

As principais montadoras mundiais já anunciaram planos para a priorização de investimentos em veículos elétricos, híbridos ou baseados em células de combustível. A figura abaixo apresenta um resumo do plano de algumas montadoras:

Cronograma das montadoras “Todo meio de transporte será elétrico, exceto foguetes”

Embora, a expressiva maioria das montadoras tenha anunciado a substituição dos veículos que utilizam combustíveis fósseis por alternativas elétricas para no máximo até dez anos, a Toyota aposta em modelos híbridos.

Outras montadoras apostam também no desenvolvimento de alternativas utilizando motores com célula de hidrogênio. A Daimler, que também investe em veículos elétricos, é uma empresa que está avançada no desenvolvimento de alternativas para seus caminhões pesados e que percorrem longas distâncias utilizando esta tecnologia. Em abril, a Daimler começou a testar um protótipo de caminhão para longos trajetos (“GenH2”),  capaz de percorrer 1.000 Km sem a recarga da bomba de hidrogênio.

A Daimler anunciou uma parceria com a Shell para construir um “corredor de hidrogênio” de postos de abastecimento no norte da Europa. Em março último, a Daimler e a Volvo Trucks formaram uma joint venture para desenvolver sistemas de células de combustível que converterão hidrogênio em eletricidade para alimentar caminhões de longa distância.

As políticas de incentivos fiscais praticadas pelos governos dos EUA, da China e pela União Europeia, bem como as políticas de sustentabilidade e de redução da emissão de CO2 em curso no mundo, tem sido fatores importantes para a grande revolução que estamos vivenciando.

O programa anunciado recentemente pelo Presidente Biden, com investimentos da ordem de US$ 174 bilhões para estimular a produção local e o uso de veículos elétricos produzidos nos EUA, com a substituição da frota de carros dos órgãos públicos por carros elétricos, bem como criando incentivos fiscais e bônus de US$ 7.500,00 para a aquisição de carros elétricos produzidos nos EUA pela população, já está sendo um grande estímulo para a alavancagem na produção de veículos elétricos naquele país e tem provocado mudanças profundas no modelo de negócios da indústria automobilística americana, cujas principais montadoras anunciaram recentemente pesados investimentos para a produção de veículos elétricos e de baterias em solo americano.

A União Europeia está subsidiando a produção de baterias em território europeu para evitar a dependência hoje existente de fornecedores asiáticos e para preservar empregos na indústria automobilística. Recentemente, a Comissão Europeia anunciou um fundo de 2,9 bilhões de euros (ou US$ 3,5 bilhões) para apoiar a pesquisa e fabricação de baterias localmente. Esse fundo vem somar a investimentos já anunciados da ordem de € 60 bilhões (ou US$ 72,4 bilhões) que governos europeus e montadoras já haviam se comprometido com projetos de veículos elétricos e baterias.

O governo chinês há muitos anos tem estimulado o desenvolvimento e produção local de veículos eletrificados. Em 2017, o governo chinês já havia determinado que 20% dos carros em circulação na China em 2025 deveriam ser eletrificados ou movidos a combustíveis alternativos.  Nesse mesmo ano, o governo chinês aprovou uma lei que criou um sistema de cotas, obrigando as montadoras a produzirem mais veículos elétricos, com um percentual de modelos eletrificados em contrapartida para cada produção de carros a combustão.

Além disso, o governo estabeleceu uma regra que obriga as frotas de veículos de seus gigantescos órgãos estatais a utilizarem pelo menos 30% de veículos elétricos. Recentemente, o governo chinês restringiu o uso dos carros elétricos da Tesla por funcionários de empresas estatais e militares, alegando questões de segurança nacional.

São concedidos na China subsídios expressivos para a produção de veículos movidos a combustíveis alternativos, os chamados New Energy (elétricos, híbridos plug-in e baseados em células de combustível). Adicionalmente, o governo tem feito pesados investimentos para o desenvolvimento e produção local de carros elétricos e baterias, o que tem atraído grandes volumes de investimentos por investidores (locais e estrangeiros) e por empresas estrangeiras. Essa política fomentou o surgimento de dezenas de startups chinesas, que hoje são responsáveis por parcela expressiva dos projetos desenvolvidos naquele país, na área de mobilidade. Algumas, inclusive, como a NIO e a Xpeng, com ações em bolsa, batem recordes de vendas a cada mês e já figuram entre as dez maiores montadoras globais em termos de valor de mercado.

As principais montadoras globais já estão fabricando carros elétricos na China. A GM e a Volkswagen vendem mais carros por meio de joint venture na China do que em seus mercados domésticos. Para citar outras empresas, a Ford, a Daimler e a Toyota firmaram grandes joint ventures com fabricantes chineses para produzir carros elétricos naquele país. A Tesla tem uma grande operação na China desde 2019 e é uma exceção, pois não possui parceria com empresas locais, como historicamente fizeram as demais montadoras estrangeiras.

Adicionalmente, o governo chinês fez pesados investimentos na infraestrutura para o carregamento de baterias dos carros elétricos, com o lançamento de um programa de instalação de mais de 800 mil estações públicas de carregamento. A China abriga 82 por cento das instalações de carregadores rápidos de veículos elétricos do mundo e possui mais carregadores lentos públicos do que o resto do mundo combinado.

Aliás, a instalação mais lenta de estações de carregamento no resto do mundo, tem feito com que algumas montadoras priorizem também investimentos em alguns modelos de carros híbridos plug-in com motores a gasolina.

Um dos pontos que favorece a expansão da base de veículos eletrificados na China é que o país possui seis das dez maiores fábricas de baterias de íon lítio do mundo, item que é um dos principais e mais crítico componente de um veículo elétrico.

A China espera produzir cerca de 2 milhões de veículos eletrificados em 2021 (em comparação com 1,3 milhão em 2020) e atingir uma participação de mercado do segmento zero emissão de CO2 de 20% em 2025 (contra quase 6% este ano).

Segundo a Statista*, mesmo com um encolhimento na produção da indústria automotiva mundial, provocada pela pandemia do Covid-19 e pela falta de componentes semicondutores, o que provocou uma redução nas vendas em 16% em 2020 no setor automotivo, as vendas de veículos elétricos registraram um forte crescimento no ano passado, atingindo um recorde de três milhões de carros elétricos vendidos globalmente, 41% a mais do que em 2019. Essa tendência tende a continuar em 2021, com um aumento expressivo nas vendas.

Um relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) apontou que o número de carros elétricos, vans, caminhões e ônibus deve crescer de 11 milhões de unidades este ano para 145 milhões até 2030. Até o final da década, o número pode chegar a 230 milhões, se os governos acelerarem seus esforços para alcançar as metas climáticas e mantiverem, ou mesmo expandirem, as políticas de incentivos fiscais e de estímulo para a aquisição.

Em 2020, as vendas mundiais de veículos elétricos foram de US$ 120 bilhões e os governos concederam US$ 14 bilhões em subsídios, um aumento de 25 por cento em relação a 2019. Isso foi impulsionado por fortes incentivos concedidos pela Europa, o que fez com que pela primeira vez o continente europeu ultrapassasse as vendas na China.

Se os números divulgados pela IEA se comprovarem, haverá um grande impacto no mercado global de petróleo, com milhões de barris deixando de serem consumidos. Espera-se que haja dois milhões de barris de gasolina e diesel a menos por dia até 2030, com o equivalente a 120 milhões de toneladas de dióxido de carbono economizadas. Se os governos elevarem suas metas de acordo com as metas climáticas globais, 3,5 milhões de barris poderão ser removidos até o final da década, com a redução de carbono quase dobrando.

A adoção de veículos elétricos no Brasil ainda é tímida, mas crescente, por diversos fatores, sendo restrita, basicamente, a modelos de alto custo, ao contrário do que já acontece em diversos países, onde já é possível adquirir carros elétricos a custos acessíveis.

Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico, o mercado de carros elétricos no país teve o melhor quadrimestre da história, com 7.290 novos automóveis emplacados de janeiro a abril de 2021, o que representa um incremento de 29,4% em relação ao primeiro quadrimestre de 2020, apontando para a venda de mais de 28 mil carros elétricos até o final deste ano.

Aliás, o mês de abril de 2021 foi o melhor mês da história da venda de carros elétricos no país, com a comercialização de 2.708 veículos, batendo um recorde na participação dos carros eletrificados nas vendas totais de autos e comerciais leves no mercado interno, com 1,6% de participação no mercado.

Já são produzidos alguns modelos de veículos eletrificados localmente. Entretanto, o alto custo e a falta de infraestrutura compatível com os requisitos exigidos por esses veículos impedem a popularização dos carros elétricos no Brasil. Recentemente, a Volkswagen anunciou a produção do primeiro caminhão totalmente elétrico em Rezende, o e-Delivery. Com certeza, outras montadoras iniciarão a produção de carros elétricos no Brasil, mesmo porque, a tendência das montadoras é cada vez mais substituir os atuais modelos de carros a combustão por alternativas elétricas ou híbridas!

O Programa Rota 2030, institucionalizado pela Lei 13.755,  tende a ser um indutor de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação realizados no país, permitindo a criação de competência local nos setores de mobilidade e logística, por meio dos aportes recebidos de empresas beneficiadas pelo Regime de Autopeças Não Produzidas e que, em contrapartida, recebem isenção fiscal. Com os projetos desenvolvidos com recursos do Rota 2030, temos uma grande oportunidade para posicionar o ecossistema de mobilidade e de logística brasileiro no novo patamar tecnológico que estamos vivenciando.

Ainda temos grandes desafios a enfrentar no País, que vão desde a revisão do modelo regulatório, a expansão da produção local, com a consequente redução dos preços de vendas, a ampliação da política de incentivos fiscais, a possível concessão de benefícios para a aquisição, a expansão dos pontos de recarga das baterias no território brasileiro, dentre outros tópicos estratégicos fundamentais.

Adicionalmente, é fundamental a adoção de novos modelos de negócios pelas operadoras do setor elétrico para suportar requisitos específicos dos consumidores de carros eletrificados, associada à necessária expansão de redes inteligentes (Smart Grid), que permitirá a utilização da tecnologia Vehicle-to-Grid (V2G ou Veículo-para-Rede), que viabiliza a utilização do banco de baterias de um veículo elétrico como uma unidade de armazenamento para a rede elétrica, ou grid, de tal modo que um sistema de recarga inteligente gerencie os períodos em que o preço da energia é mais adequado, carregando o veículo nos horários fora de pico (energia mais barata) e fornecendo energia à rede em horas de grande consumo, permitindo gerar receitas pela comercialização de energia aos proprietários dos veículos. Aliás, este será o tema de um outro artigo que publicarei em breve.

* Dados: https://www.statista.com/chart/24758/projected-number-of-electric-vehicles-driving-globally/

Edelvicio Souza Junior – Especialista em Inovação Industrial da EMBRAPII (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) e professor convidado da Fundação Dom Cabral em temas relacionados com a Inovação, Internet das Coisas e Transformação Digital, onde atua em projetos de formação de liderança inovadora para executivos C-Level envolvidos em projetos de digitalização de negócios. É membro do Conselho de Tecnologia e Inovação da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais. Foi membro do Comitê de avaliação do prêmio 100 empresas mais inovadoras do Brasil (edições 2020 e 2021), organizado pela IT Mídia. Foi membro da Câmara IoT, coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, que elaborou o Plano Nacional de IoT.

 

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