Apertem os cintos, os HDs sumiram!

Desde junho as chuvas castigavam e devastavam, sobretudo, regiões agrícolas ? principal fonte econômica do país asiático ? e até novembro daquele ano, a Tailândia já registrava mais de 506 mortos. Em todo território tailandês, as enchentes causavam problemas com a infraestrutura, comprometendo o transporte e outros serviços públicos.
Mas outubro foi fatídico para as empresas de insumos tecnológicos. No dia 17 daquele mês, a Western Digital publica em seu site que suas duas fábricas foram invadidas pelas águas, inundando as instalações e submergindo alguns equipamentos. Desde aquele momento, a companhia previa o que muitos hoje afirmam: haveria um impacto significativo como decorrência do acontecido.
Só no quarto trimestre de 2011, houve um déficit de 60 milhões a 70 milhões de unidades em relação à demanda prevista. Em 2012, espera-se que o saldo negativo total gire entre 120 milhões a 150 milhões de unidades, de acordo com um estudo realizado pela empresa de consultoria em armazenamento de dados Coughlin Associates e publicado durante a Consumer Eletronic Show (CES) 2012, no início do ano. No evento, os desastres naturais que podem elevar os preços dos aparelhos eletrônicos de consumo, foram apontados como uma tendência quase irreversível para este ano.
A Accept sentiu isto na pele. O pedido colocado no fabricante, lá na Tailândia, não foi entregue. ?Os servidores chegaram, mas os discos não?, relata Campos. Os sócios então se reuniram e perceberam que, para continuar a cumprir a cota do PPB (Processo Produtivo Básico), precisavam da peça. Assim, entraram com pedido de compras em um distribuidor nacional para a aquisição de HDs para desktop. Mesmo com a compra aceita pelo distribuidor, o insumo também não chegou às linhas de montagem da integradora. Neste momento, o preço do produto que variava de 35 a 40 dólares já estava sendo comercializado a 130 dólares.
?Estávamos tranquilos, achando que o distribuidor nos entregaria o pedido. Precisávamos atender à cota do PPB e também aos nossos clientes! A partir daí a lei da oferta e da procura começou. E nós precisamos usar nossa habilidade em superar crises?, conta o executivo, ao revelar que uma das estratégias usada foi administrar o estoque que já tinha com os produtos que chegavam a preços altíssimos. Calculava-se um preço médio e se vendia assim no mercado. ?Tivemos clientes [revendas] que não acreditavam no que estava acontecendo porque, ao mesmo tempo, grandes varejistas brasileiros, que tinham estoques antigos, colocavam PCs a preços muito baixo no mercado?, lembra.
A confusão estava armada
A Megaware também sentiu os solavancos das enchentes na Tailândia por aqui e reduziu em 20% a produção em novembro e dezembro de 2011. ?O preço do insumo em alguns casos aumentou três vezes. Isto está sendo repassado de forma gradual. As margens estão sendo sacrificadas pela dificuldade de repasse dos custos principalmente no canal de varejo?, afirma Germano Couy, presidente da companhia, que espera que o cenário de fornecimento seja reestabelecido no segundo trimestre de 2012. ?Mas, mesmo assim, não temos expectativas de voltar aos patamares de preços do passado?, prevê.
A Accept também relata queda na lucratividade nestes mesmos meses. A força ficou concentrada em atender aos clientes, fazendo a média de preços ou, em casos em que o valor do projeto já estava definido, honrando com o combinado. ?Parte dos clientes continuou comprando da gente, outros foram para concorrentes com preços mais baixos e alguns não compraram de ninguém. Temos uma empresa sólida e experiência em lidar com oscilações do dólar e em desastres, como o fogo na fábrica de memória em 2011?, analisa Campos.
A tranquilidade veio em partes também pela visita do alto escalão das empresas de insumos ao Brasil. Fontes do mercado afirmam que os executivos alertavam sobre o problema que haveria, mas se mostravam seguros quanto à lucratividade de suas companhias. A Positivo Informática avisava os investidores quanto ao problema, mas garantia que o estoque seria suficiente e o aumento do preço, esperava-se, poderia ser repassado.
Oficialmente, a Intel anunciou redução das receitas do quarto trimestre devido ao impacto causado pelas enchentes na produção e distribuição de HDs. A fabricante esperava faturar cerca de 13,7 bilhões de dólares, sendo que as expectativas anteriores giravam em torno de 14,7 bilhões de dólares. Empresas como Acer, NetApp, Microsoft, entre tantas outras, também encolheram os números de suas projeções.
Segundo Luciano Crippa, gerente de pesquisas da IDC, os números absolutos só devem estar disponíveis em meados de fevereiro, quando será possível fazer uma análise mais real dos impactos. ?O maior receio do mercado é justamente agora, quando se colocam os pedidos no fabricante, com preços dobrados, e há a incerteza da entrega. De fato, o impacto é maior em pequenos montadores, seguido dos distribuidores, fabricantes nacionais e depois nas multinacionais [nesta ordem]?, elenca o analista. A consultoria esperava que a TI brasileira registrasse 13,5% de crescimento em 2012, se comparado ao ano anterior. Mas, com os desastres naturais, reduziu as expectativas para 10%. ?O mercado será impactado, mas continua a crescer com taxas de dois dígitos?, mensura.
A subsidiária da Asus no Brasil não reduziu seu forecast de 2012. E mais: aposta em um crescimento três vezes maior que o registrado em 2011. Para tanto, aposta na força de sua operação global. ?Por conta disto, conseguimos ajustar a oferta para atender às demandas mais estratégicas da empresa. Mantivemos algumas SKUs sem alteração, mas, para outras, foi necessário reajustar. Por exemplo, estamos acelerando a adoção de HDs de 750GB que possuem uma disponibilidade mais saudável, aliando a isso uma oferta mais premium com configurações mais altas. Para os próximos meses, a situação continua muito incerta?, diz Guido Alves, gerente de marketing da empresa.
Como alternativa aos discos rígidos analistas sugerem a adoção do SSD. A Asus e a Megaware não acreditam que a oferta seja viável, por conta do alto preço do produto. Já a Accept apostou nos discos sólidos para smart clients (os mini-PCs) e já aponta este produto como uma nova oportunidade de bons negócios. ?Estamos aconselhando aos clientes o uso do SSD de 33 GB ao invés de um disco rígido de 120 GB. Está sendo muito bem aceito em companhias que utilizam os smart clients em balcão de atendimento. Fizemos testes de performance e ele se mostra mais rápido e estável, além de oferecer economia de energia. É mais caro, com menos espaço, mas mais eficiente. Hoje, 30% dos projetos já saem com o SSD?, pontua Campos.
O analista da IDC prevê que a recuperação total do mercado será demorada, sendo os seis primeiros meses do ano os mais severos. Os preços dos HDs começam a cair novamente, mas ainda custando, por vezes, mais que o dobro do normal. Crippa lembra algo importante: a recuperação das fábricas é mais difícil, por exigirem ambientes extremamente limpos por conta do maquinário de alta tecnologia.
Dados globais do Gartner sinalizam que o investimento em TI vai crescer de forma mais lenta que a esperada este ano por causa da fraqueza de economias e das enchentes na Tailândia. A consultoria reduziu sua estimativa para o crescimento global da indústria de tecnologia de 4,6 % para 3,7%. A empresa informou, ainda no começo do ano, que as enchentes vão cortar a oferta de HDs em 25% – ou mais – nos próximos seis a nove meses, uma vez que o país é um grande centro produtor do dispositivo e de seus componentes.
A Seagate ? que assim como a Western Digital, não concedeu entrevista à CRN Brasil ? afirmou, por meio de seu site, que suas fábricas de disco no país asiático não foram diretamente afetadas pela enchente, no entanto, a capacidade da empresa para a fabricação de discos rígidos tem sido afetada devido a restrições de oferta como componente externo.
