A saída de Jobs da Apple: o discurso que gostaríamos de ter ouvido

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2:47 pm - 06 de outubro de 2011

A InformationWeek planejava lançar este artigo em junho, mas achamos prematura. Ela parece mais apropriada agora

Quando Steve Jobs entrou, cautelosamente, no palco da World Wide Developer Conference da Apple, em junho deste ano, para falar sobre a iCloud,  seu jeans pendia folgado em seu corpo e a gola alta de sua camisa negra camuflava onde deveria haver um pescoço. Mas o homem dentro dessa roupa continuava brilhante.

Não me lembro muito sobre o que ele disse depois de seu jargão “one more thing” (só mais uma coisa), mas foi dito num sussurro, e então rimos como colegiais: nosso prêmio por passarmos duas horas recebendo informações. Ele saiu do palco, rodeado de amigos, encostou com ternura sua cabeça em sua esposa, e se foi.

Não consegui evitar o pensamento que talvez fosse isso, a última vez que veríamos Jobs em um palco. Depois de dois dias ele apresentou uma nova sede da Apple para o Cupertino City Council, nos Estados Unidos, uma farsa armada para entregar o CEO mais recluso a um grupo que parecia mais preocupado em conhecê-lo do que conduzir negócios. Um membro do conselho perguntou de forma tola a Jobs se, em troca da benção deles, ele daria à cidade wi-fi gratuito. Após lembrar ao membro do conselho que esse era o trabalho da cidade, ele acrescentou que achava que a Apple havia levado à Cupertino mais do que somente wi-fi e iPads. Sabem, como receita fiscal.

Certamente  não era assim que o convalescente CEO gostaria de passar seu tempo.

Os analistas da Apple disseram que seu envolvimento com cada detalhe da empresa não havia diminuído, mesmo em licença médica. É difícil visualizar o dia que Jobs mantivesse atenção completa em sua saúde. Mas se ele fizesse isso, gostaria que fosse de forma cerimoniosa: talvez em para se redimir de sua reputação irritadiça, mas também para nos inspirar uma última vez; não sob a sombra da tecnologia, mas sob o sol da humanidade.

Um pouco antes de ele começar seu discurso, quando o aplauso da multidão arrefeceu, alguém gritou: “Te amamos, Steve”. Nós não o conhecemos a fundo, conhecemos? Podemos conhecer um homem por meio de seu trabalho, o resultado de seus esforços? Podemos saber o que se passa em seu coração a partir do iPad 2 ou do iPhone 4, ou dos APIs para o iOS 5? Não. Nem mesmo  sob a possibilidade da morte do Newton e NeXT e do iPhone.

De forma egoísta, gostaria que ele criasse sua própria saída, sob seus termos e então enterrasse sua alma. Em minha mente, seria mais ou menos assim:

A Cena: Moscone Convention Center – São Francisco, Califórnia, Estados Unidos. Dia nublado. A guarda nacional ajuda a polícia de São Francisco a controlar o tráfego. Andar é praticamente impossível na terça-feira cedo, e o discurso de Jobs será só na quarta-feira.

Quarta-feira cedo: o aeroporto internacional de São Francisco enfrenta atrasos, mas não por causa do tempo. O aeroporto está lotado de jatos privados, de pessoas como Michael Jordan, Bill Gates e Warren Buffet. O cofundador da Apple, Steve Wozniak, enfrentou problemas para conseguir um convite. Os fanboys da Apple marcham fora do Moscone, iPads por cima de suas cabeças, formando uma placa digital com os dizeres: “Eu ‘coração’ Steve”. Por vezes alguns deles têm que apertar o botão de ligar porque o aparelho entrou em logoff.

Dentro do centro, celebridades e blogueiros do mundo todo. A música de Bob Dylan “Every Grain of Sand” toca repetidamente de fundo.

Chega o momento. De forma surpreendente, o ex-CEO da Apple John Sculley – o homem que já despediu Jobs – entra no palco. Ele dirá poucas palavras. Bem poucas: “Despedi Steve. Foi o maior erro da minha vida. Senhoras e senhores, Steve Jobs”.

Jobs surge, dessa vez com uma gola alta branca, sorrindo de forma efusiva. Se é possível, está mais frágil do que nunca, mas sua energia é palpável. Ele senta em um banco no palco, agradece a presença de todos. Por duas horas (e parecem 20 minutos), Jobs fala sobre inovação, sobre o começo de tudo, sobre o que aprendeu, sobre sua infância. Ele fala sobre a Pixar e a NeXT e a Apple, mas fala sobre o que deu a elas e, por fim, o que tirou pessoalmente de cada uma. Esse é um raro vislumbre do que há por trás de seu “cérebro” e  agora visualizamos o software por dentro e talvez esse seja o máximo que nos aproximaremos de sua alma.

Jobs esteve no centro de quase todos os anúncios da Apple e apesar de sua passagem de liderança para tenentes, como o líder do, iOS Scott Forstall, ou o designer Jonathan Ive, ou  o então COO, Tim Cooke, ou o chefe de marketing Phollip Schiller, é difícil separar o homem da empresa. No Google I/O, o vice-presidente de engenharia, Vic Gundotra, fez o papel de anfitrião e chefe de cerimônias. Andy Rubin, diretor de estratégia móvel, é um orador procurado. De fato, há uma longa lista de estrelas emergentes no Google, o cofundador Sergey Brin foi relegado ao papel de palestrante na sessão de imprensa do Chrome.

Então, nesse momento do discurso de Jobs, novas cadeiras são colocadas no escuro ao lado do CEO da Apple. Um por um, os tenentes de Jobs chegam e são apresentados, são contadas suas histórias pessoais e os detalhes de seus feitos, seu lugar dentro da Apple. Jobs apresenta o último e agora fica claro que ele finalmente pode compartilhar publicamente o crédito pelo sucesso da Apple; ele está saboreando. Ao longo do caminho, da Apple a NeXT, para a Pixar e de volta à Apple, ele diz, há, acima de tudo, a lição de colaboração.

Cooke toma à frente por um momento, e diz à audiência o que aprendeu com Jobs; após ele, cada executivo faz o mesmo.

Agora voltamos a Jobs. Ele discorre sobre suas batalhas pessoais, mas fornece poucos detalhes, falando apenas que conseguiu realizar tudo que precisava e que confiava que a Apple – a empresa – seguiria sua caminhada sem ele. Chegou a hora de apagar as luzes.

“On last thing”, ele diz, a multidão fica silenciosa. Arrepios. Ninguém se move. Ele anuncia seu sucessor, já aprovado pela diretoria da Apple. Juntos, anunciam que todos da audiência receberão um iPhone 5, seu presente de despedida. O telefone inclui uma série de vídeos sobre inovações, estrelado por Jobs, e uma cópia gratuita de sua autobiografia, na qual ele trabalhava secretamente – o único livro sobre tecnologia que todos sempre quiseram. Ele se levanta sob uma salva de palmas e sai.

Quando se aproxima da beirada do palco, pula, aterrissa e ri. É uma risada de satisfação.

Tradução: Alba Milena, especial para o IT Web | Revisão: Adriele Marchesini

 

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