A ordem é: execute suas ideias

Ela sabia que as mulheres eram a maioria nas redes sociais; sabia que ficavam mais tempo navegando e tinham maior senso de colaboração; sabia que tinham o maior poder de consumo na internet; e sabia que havia muitas mulheres notáveis na área de criação que nunca estiverem nem em um cargo de direção das agências e nem montaram seus próprios negócios. Ela pensou: com todos estes dados, como posso ganhar dinheiro?
Ela é Alessandra Lariu, cofundadora da comunidade na internet chamada SheSays, site que ajuda mulheres a entrar na carreira de criação digital. Atualmente, é diretora executiva do portal Shout, uma plataforma online de criação publicitária, que surgiu a partir da comunidade. ?Pensei: já tenho as pessoas, só preciso do negócio?. Com passagem como diretora de criação na agência McCann Erickson, em Nova York, liderou campanhas premiadas para clientes como Nikon, MasterCard e Verizon. Em 2010, foi eleita uma das 100 pessoas mais criativas do mundo, pelo ranking da revista FastCompany. Em menos de um ano, o Shout é sucesso nos Estados Unidos, já opera com lucro e atende a clientes como Diesel, Bacard e Digigay, entre tantas outras grandes companhias.
Alessandra esteve na primeira edição da Virada Digital, em Paraty, no Rio de Janeiro, no início de maio, para falar sobre empreendedorismo e mídias digitais e o poder das mulheres na rede. Na passagem pelo Brasil, a executiva aproveitou para falar, com exclusividade, com a CRN Brasil e explicar os ganhos de atuar nas mídias sociais.
CRN Brasil ? Em um passado nada distante muitos questionavam sobre qual seria o modelo de negócios do Facebook e do Google. Hoje, estas são empresas com o maior valor de mercado. O que isto tem a ver com as mídias digitais?
Alessandra Lariu ? Tem um tipo de produto e comportamento novo que é exatamente a comunidade. E isto, curiosamente, é uma coisa que as empresas de TI não pensam muito. Que é como as pessoas interagem uma com as outras e como elas vão se conectar. Essa ideia de criar uma comunidade sobre um tópico, ou vários tópicos diferentes, é uma linha de pensamento que ajudou várias empresas, como o Facebook. Mas eu acho que é um valor diferente que se tem hoje em dia. Antes, se pensava muito só no valor financeiro das empresas, só se pensava no valor das coisas. Hoje, a gente tem que pensar no valor da comunidade, como servi-la e como se pode tirar dinheiro disso. E isso é exatamente o modelo do Facebook e do Google.
CRN ? Então, como tirar dinheiro disto?
Alessandra ? A maneira de ganhar dinheiro é exatamente essa. Achar um interesse e uma comunidade que vai se engajar naquele tópico. Eu mesma criei uma comunidade para se engajar no tópico criatividade. Então, eu encontrei algo que as motivasse a se relacionar com isto. E como isto pode dar dinheiro? Eu aconselharia as empresas a fazerem a maioria do seu advertising (propaganda) em redes sociais. Por quê? Porque as pessoas confiam nos amigos mais do que confiam nas marcas. Por isso que no Facebook se alguém falar pra mim: ?veja este filme?; ?compre isto?, eu vou ouvir. Mas se for uma marca falando isto, eu vou pensar: ?espere aí!?. Porque eu não tenho a mesma validação que eu tenho da minha comunidade, dos meus amigos, da minha família. E este é o novo jeito de ganhar dinheiro: esse sentimento de comunidade, amigos e família, que pode fazer você ganhar dinheiro.
CRN ? Hoje você ganha dinheiro com isto. Como você pensou na sua agência virtual, o Shout?
Alessandra ? O Shout é algo que eu comecei, mas pra mim, eu fui só o veículo, pois a própria comunidade é que o fez. Eu havia aberto uma comunidade chamada SheSays, de mulheres profissionais na área de publicidade, porque eu via que havia poucas mulheres na direção da criação das agências de publicidade. A comunidade que começou pequenininha, em Londres, com cinco mulheres, agora tem mais de cinco mil pessoas ? 90% mulheres ? em 17 cidades do mundo todo. E não fui eu que fiz isso, eu só comecei. Cresceu organicamente, porque havia uma necessidade. Então, porque eu não posso usar estas mulheres espertas, engajadas, super profissionais, para começar a fazer alguma coisa? Pra ir além da comunidade de discussão? Por que eu não posso usá-las justamente para trabalhar? Então, essa foi a ideia do Shout, que é uma plataforma online, como se fosse uma agência virtual, onde o cliente põe um briefing e as profissionais do mundo inteiro colocam suas ideias para marketing, para site, design, parte gráfica e de embalagens.
CRN ? Você abre o faturamento?
Alessandra ? Começamos em agosto de 2011. Não posso falar o faturamento ainda. Mas posso te dizer que já começamos a ter lucros. Temos um projeto restrito agora, que eu seleciono as pessoas que vão trabalhar nele, e há um acordo de confidencialidade, que a melhor ideia ganhará seis mil dólares. Falo isto pra você ter ideia de quanto ganha quem trabalha conosco. Ah, essa foi a parte mais chata da construção do Shout, temos vários modelos de contratos.
Eu aconselharia as empresas a fazerem a maioria do seu advertising (propaganda) em redes sociais. Por quê? Porque as pessoas confiam nos amigos mais que elas confiam nas marcas.
CRN ? Como esta relação de negócio com as mídias digitais pode ser colocada em prática por empresas tradicionais?
Alessandra ? As pessoas que pensam de maneira conservadora têm de pensar que o mundo mudou. E há várias tendências que surgiram nos últimos anos, tanto de tecnologia, que agora tudo é cloud, e tendências comportamentais, com as comunidades e o poder delas. Essas tendências não podem ser ignoradas por companhias tradicionais. Até mesmo o Steve Jobs sacou isso, e ele fez o iTunes. Ele pensou: ?vamos fazer uma comunidade que gosta de música?. Outra coisa que ele aprendeu, quando saiu da Apple pela primeira vez, quando estava fazendo a Pixar, foi a importância do design e criatividade, em qualquer área. As pessoas mais tradicionais têm que pensar que várias coisas mudaram no mundo, até mesmo o modo de trabalhar, o modo de interagir e de se relacionar. Há uma mudança no mundo, e as empresas têm de se adaptar a ela.
CRN ? Sua empresa está enquadrada neste novo modo de pensar. O que é surpreendente para você nesta maneira de trabalhar?
Alessandra ? Eu fiz uma pesquisa com as mulheres que fazem parte da agência pra ver o que elas estavam achando do trabalho. Eu achava que elas iriam responder que o algoritmo é legal, que podem trabalhar a hora que quiserem, podem cuidar dos filhos, ter outro emprego… E, para mim, o mais surpreendente, é que as pessoas falaram que o que elas mais gostavam do modelo era não ter chefe. Eu não tinha nem pensado nisso! E é verdade, não temos chefe! De repente vou usar isto pra fazer a promoção do Shout: ?trabalhe no Shout, não tem chefe!!!? .
CRN ? Ele é baseado no conceito de crowdsourcing então…
Alessandra ? Sim, assim como o OpenInovation é…só que eles trabalham com inovação e eu com publicidade. O OpenInovation faz inovação com carro, casa etc, eu faço publicidade com mulheres engajadas.
CRN ? Você acha que o empresário brasileiro tem ainda muito a aproveitar desta disponibilidade de informações sobre determinados grupos que estão nas redes sociais?
Alessandra ? Tem sim. As empresas têm de fazer parcerias com outras empresas, não ter fronteiras com ninguém, inclusive com os concorrentes. Companhias têm de ser sem fronteiras. Não é um modelo super novo, mas é um negócio que está rodando mais. E os empresários hoje em dia não podem esquecer que eles não têm de saber só da empresa deles. Eles têm de saber como navegar neste mundo louco em que não dá pra prever as coisas tão acertadamente assim. Empresário é muito assim: eu vou prever o que vai acontecer daqui um ano, dois anos, dez anos…Hoje em dia, isto é muito difícil e por isso precisa de uma capacidade de abstrair. Você tem de desapegar da ideia de que é preciso prever as coisas para criar. Uma empresa de TI prevê ficar rica com uma tecnologia, e aí surge uma outra que derruba toda a sua previsão.
CRN ? Você foi considerada pela revista FastCompany como a 29ª pessoa mais criativa do mundo, em uma lista de 100 pessoas. Quais os atributos que você considera essenciais, além da criatividade, é claro, para a conquista desta posição?
Alessandra ? Eu acho que tem um pouco desta ideia de não saber o que vai acontecer. Não tem ansiedade de saber o resultado. E não é só isso; tem de ter a liberdade de fazer e errar, fazer e errar, fazer e errar….quantas vezes forem necessárias! Eu acho que as empresas têm de deixar a empresa em movimento, sem regras muito rígidas.
CRN ? É muito comum escutar que pessoas muito criativas não conseguem colocar suas boas ideias pra rodar. Você é um anticase neste sentido. Qual é a fórmula?
Alessandra ? Eu não sei. Mas eu sou uma pessoa muito criativa, mas a melhor parte pra mim é fazer a ideia acontecer. Tem pessoas que só têm ideias, mas a parte que eu mais gosto é executá-la, ver um resultado. Eu me lembrei agora que o próprio Steve Jobs era assim, um visionário que não sabia executar, o sócio dele é que fazia isso. Eu acho uma pena que nem sempre essas pessoas não achem um sócio mão na massa…
Antes, se pensava muito só no valor financeiro das empresas, hoje, a gente tem que pensar no valor da comunidade, como servi-la e como se pode tirar dinheiro disso. E isso é exatamente o modelo do Facebook e do Google.
CRN ? Como estimular equipes criativas?
Alessandra ? Eu acho que tem que sempre fazer críticas construtivas. Falar do que gosta e do que não gosta. O Shout é uma plataforma virtual, mas eu gosto de encontrar as pessoas pessoalmente, conhecer, conversar. Por exemplo, chega um briefing e o cliente quer conhecer algumas pessoas que vão trabalhar. Aí fazemos umas reuniões diferentes. Tivemos um cliente que, para explicar porque a vodka dele era boa, fizemos um evento para que as nossas profissionais experimentassem a bebida e vissem que era boa mesmo. Para uma marca de roupas para quem joga ping-pong, fizemos o briefing com as profissionais jogando ping-pong. É uma maneira criativa de estimular as pessoas com reuniões criativas.
CRN ? As empresas brasileiras ainda têm medo de se relacionar com as mídias digitais. Como então partir para os negócios na rede?
Alessandra ? As empresas têm de aprender a cuidar disso. Elas vão aprender a lidar com isso, é tudo muito novo. Mas mais do que querer estar no Facebook, por exemplo, é preciso saber como estar. Têm empresas que fazem coisas superinteligentes na rede. A Best Buy foi muito esperta, ela usou o Twitter para que os clientes pudessem tirar suas dúvidas técnicas por meio dele. O que eles fizeram foi eliminar várias ligações pro call center e isso gerou ganhos financeiros para a empresa. Se vou ao Twitter, eu não vou lá pra falar besteira, eu vou de uma maneira útil. O ?como? é super importante!
