von Neumann IV: pioneiro da informática

O projeto
Durante a primeira metade dos anos quarenta do século passado, ou seja, durante a Segunda Grande Guerra, o Governo americano se empenhou vivamente no desenvolvimento de computadores. E a razão eram as imensas possibilidades de uso bélico destas máquinas. Neste contexto, “uso bélico” pode significar desde máquinas destinadas a decifrar mensagens criptografadas, como o Colossus britânico de Alan Turing, até computadores como o ENIAC, desenvolvido especificamente para criar tabelas usadas para efetuar cálculos balísticos (até então feitas pelas “computadoras”, ou seja, uma equipe feminina ? já que os homens estavam empenhados na guerra ? que efetuava manualmente os cálculos e produzia as tabelas).

Encerrada a guerra, cessou o entusiasmo oficial. Tanto assim que a montagem do ENIAC ? sigla de Integrador e Calculador Numérico Eletrônico , ou “Electronic Numeric Integrator And Calculator” ? que teve início em 1943 na Universidade de Pensilvânia, praticamente deu em nada. Isto porque a missão de conceber e montar um gigante de trinta toneladas, mais de dezessete mil válvulas e ocupando 170 metros quadrados, demandava tempo. E a máquina só foi dada como pronta em fevereiro de 1946, mais de meio ano depois que os japoneses assinaram o armistício que pôs fim às hostilidades, o que a transformou ? pelo menos do ponto de vista das autoridades militares americanas que a haviam encomendado ? em um artefato imprestável. De que serviria uma máquina concebida para criar tabelas cuja principal finalidade era estabelecer a trajetória dos projéteis disparados pelos canhões usados na Segunda Grande Guerra se o confronto havia terminado?
Foi então que von Neumann passou a exercer um papel fundamental neste panorama. Não apenas pela concepção de uma nova máquina ? embora sua colaboração neste sentido tenha sido crucial, como já veremos ? mas principalmente por se dispor a reunir recursos materiais e, sobretudo, científicos e acadêmicos para cumprir uma tarefa que, na época, não era tida como essencial. Isto porque, não existindo computadores, tanto o público em geral quanto as autoridades que poderiam se empenhar em seu desenvolvimento desconheciam totalmente suas reais possibilidades. Na verdade, nem mesmo algumas das mais poderosas mentes envolvidas na empreitada tinham uma noção sequer aproximada do que poderiam significar: Howard Aiken, por exemplo, o principal desenvolvedor do Mark I, estimou em 1947 ? quando seu computador estava em plena atividade e portanto ele já tinha exata noção daquilo que a máquina podia realizar ? que “six electronic digital computers would be sufficient to satisfy the computing needs of the entire United States” (seis computadores digitais seriam suficientes para satisfazer as necessidades computacionais totais dos Estados Unidos). Vejam vocês, quem diria: por este critério tenho hoje em minha casa máquinas suficientes para satisfazer de sobra todas as necessidades computacionais dos EUA…
A única mente suficientemente aberta para antever do que um dia os computadores seriam capazes foi justamente a de von Neumann que, como foi dito na coluna anterior, via estas máquinas como artefatos para resolver problemas e não como meros executores de cálculos e confeccionadores de tabelas (referindo-se certamente às tabelas para cujo desenvolvimento o ENIAC tinha sido concebido).
Então, apoiado na enorme influência de membro fundador do IAS de Princeton, usando a experiência, os contatos com cientistas e os conhecimentos adquiridos em Los Alamos durante o Projeto Manhattan, o respeito que sua personalidade despertava nos meios acadêmicos e, sobretudo, sua sólida reputação de gênio matemático, von Neumann empenhou-se pessoalmente em reunir recursos materiais e humanos e levantar fundos para desenvolver e implementar um projeto ambicioso.
O projeto consistia em desenvolver um computador digital eletrônico e talvez fosse ele, naquele momento, a única pessoa que reunisse todos os requisitos necessários para propor tal empreitada com alguma chance de sucesso.
E, de fato, foi bem sucedido. Usando sua influência para apoiar a proposta original de Mauchly e Eckert, ainda durante o desenvolvimento do ENIAC, von Neumann conseguiu convencer o Governo americano a participar do projeto através do Laboratório de Pesquisas Balísticas do Exército (“U.S. Armys Ballistics Research Laboratory”), projeto este desenvolvido pela Moore School of Electrical Engineering da Universidade de Pensilvânia sob a supervisão dos criadores do ENIAC.
Tratava-se da concepção e montagem do EDVAC.
