Internet via rede elétrica e petróleo

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6:10 pm - 30 de agosto de 2010

O Landmark DSD

Eu e você estamos acostumados a lidar com programas de computador que fazem coisas. Explicando: um programa navegador salta de página em página dos diversos sítios da Internet que visitamos, mostrando seu conteúdo; um editor de textos, além de escrever o que digitamos no teclado, ainda se dá ao trabalho de formatar o texto e indicar os erros de ortografia e gramática; programas de edição de imagens criam desenhos; enfim: programas devem ter um objetivo determinado (pois, como bem sabem meus alunos, o fato de ter um objetivo determinado, ou seja, “fazer uma coisa”, é condição essencial para que possamos alçar um conjunto de rotinas de programação à categoria de “programa”; se não “faz alguma coisa”, então não é programa).

É claro que, por mais que as funcionalidades e recursos oferecidos pelos programas modernos que usamos em nossos computadores nos impressionem pelas “coisas” que são capazes de fazer, sabemos todos que existem programas bem mais poderosos e com infinitos recursos a mais. Devem ser assim, por exemplo, os programas usados pela NASA para planejar, coordenar e controlar as missões espaciais. Ou os programas capazes de controlar as aeronaves não tripuladas que sobrevoam territórios hostis e enviam fotos detalhadas a milhares de quilômetros de distância. Ou ainda os softwares que controlam os satélites artificiais; e outros tantos de igual porte.

Programas deste porte têm algo em comum com filhote de pombo, cabeça de bacalhau e filho de prostituta chamado “Junior”: sabemos que existem, mas ninguém jamais viu um deles de corpo presente.

Pois eu vi um. O DSD é um desses.

Se o objetivo da Landmark era impressionar a plateia, pelo menos no que diz respeito a mim foi coroado de sucesso. Vou tentar passar um pouco destas impressões para vocês, mas antes convém advertir que meus conhecimentos sobre prospecção avançada de petróleo são basicamente aqueles adquiridos através da leitura do “Poço do Visconde”, de Monteiro Lobato. Como esta leitura, apesar de atenta e profundamente interessada, foi feita há cerca de sessenta anos, tendo sido muito pouco atualizada desde então, não sou propriamente um especialista no assunto. Sei o que são anticlinais e sinclinais, aprendi mais alguma coisa na disciplina de Geologia cursada há quase meio século quando fiz Engenharia e temos conversado. Mas de softwares ainda entendo um pouco, de modo que dá para ter uma ideia de como a coisa funciona.

Para começar, o que é o DSD? Bem, segundo a própria Landmark, trata-se de um “espaço de trabalho unificado” para diferentes equipes com especialidades distintas, a ser usado na prospecção de petróleo. Pois, segundo eu entendi, o sucesso desta tarefa depende da estreita interação entre os grupos de especialistas em geofísica, geologia, modelagem do terreno e estímulo. No DSD há um módulo para cada uma destas especialidades que são integrados em um único “espaço de trabalho”, o próprio “DecisionSpace”, ou seja, o DSD.

A Figura 2 mostra o módulo de Geologia (e antes de prosseguir, um comentário: não estranhem o tamanho excessivamente pequeno dos ícones e entradas de menu que aparecem no alto da figura; é que para ser útil o DSD precisa ser exibido em altíssima definição e por isso usa uma tela de definição quatro vezes superior à de televisão HD, com a bagatela de 3840 colunas por 2160 linhas; com uma definição destas mostrada em uma tela LCD de 56″, asseguro que os ícones não parecem tão pequenos).

[photoframe folder=wp-content/blogs.dir/4/files/plc-e-petroleo-2103475885 filename=

Neste módulo os especialistas podem gerar mapas rápidos da estrutura do terreno e da litologia (distribuição das rochas no subsolo considerando sua granulometria e características físico-químicas). As linhas inclinadas que aparecem na figura central são poços e os gráficos na extremidade direita são seus perfis geológicos. Com eles dá para montar não somente os cortes e plantas que se veem à esquerda como também impressionantes vistas tridimensionais sobre as quais falaremos adiante.[photoframe folder=wp-content/blogs.dir/4/files/plc-e-petroleo-2103475885 filename=

Já a geofísica é um ramo de conhecimento das ciências da terra que estuda as propriedades físicas do terreno e sua estrutura sem se preocupar muito com sua natureza. Se você reparar na Figura 2 verá que nela o subsolo está dividido em camadas com diferentes características físicas. Dá para perceber a formação dos diversos “horizontes”, superfícies com características físicas semelhantes que se formam no subsolo em consequência da atividade sísmica. Dá para perceber, na figura de cima, à esquerda, a “fatia” do solo da qual um corte vertical é mostrado na figura inferior. As características são obtidas a partir de interpretação de dados sísmicos (provoca-se uma explosão e acompanha-se a propagação das ondas de choque no terreno). Tudo isto é feito pelo programa.

Juntando estes aos dados do módulo de estímulo, que permite a visualização do tratamento  e diagnóstico de fraturas do terreno, chega-se ao módulo de [photoframe folder=wp-content/blogs.dir/4/files/plc-e-petroleo-2103475885 filename=, mostrado na Figura 4.

Se os gráficos tridimensionais da figura representassem a superfície do fundo do mar (sim, porque o DSD tem sido utilizado principalmente para prospecção de petróleo em águas profundas) já seria impressionante. Mas não representam. O que representam são modelos tridimensionais dos “horizontes” mencionados dois parágrafos acima. Se levarmos em conta que este modelo em particular representa o subsolo do fundo do mar em regiões onde a profundidade média é de alguns milhares de metros e que as camadas podem estar a outros tantos milhares de metros abaixo do fundo, não conheço quem fique indiferente.

Quer dizer: até aqui o software parece um prodígio tecnológico. E olhe que apenas vimos capturas de telas, figuras estáticas.

Mas o DSD é dinâmico. Ele integra os quatro módulos acima descritos e os coordena, consolidando as informações e as apresentando da forma que o usuário achar mais conveniente, inclusive representações tridimensionais dos diversos “horizontes” do subsolo. Basta clicar e arrastar o mause que se vê tudo isto se mover na direção e sob a perspectiva desejadas. E a resposta do programa é impressionante, como se pode perceber no vídeo, um trecho do material de divulgação distribuído no evento.

http://www.youtube.com/watch?v=t4YsIfviWBY

Com este treco nas mãos é fácil descobrir onde o petróleo se esconde nas entranhas da terra. Só resta ir até lá e retirá-lo. Mas isso não é com a Landmark, é com gigantes do porte de uma Petrobrás (que tem o DSD instalado e em plena operação) ajudados por empresas como a Halliburton ? que, não sem razão, incorporou a Landmark.

E como foi o coquetel? Não sei. Como cheguei antes da hora, o salão estava vazio e a equipe havia acabado de instalar o módulo de demonstração. A seu lado estava um cavalheiro simpático testando a coisa toda. Perguntei do que se tratava e ganhei uma soberba aula sobre o DSD, com uma demonstração particular e interativa. Cada pergunta minha era respondida com extrema boa vontade pelo cavalheiro, que estava genuinamente interessado em me mostrar as virtudes do programa e parecia saber tudo sobre ele.

Pois não é que sabia mesmo? O cara, como descobri depois, era Nick Purday, Diretor de Tecnologia de Geociências da Landmark, mestre em Geologia do Petróleo pela Royal School of Mines do Imperial College de Londres e craque em técnicas de interpretação.

Apresentação melhor que aquela eu sei que não assistiria mais tarde. Coquetel, pra que? Sai de mansinho e fui à luta.

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