Uma reflexão sobre sociedades, transparência e o futuro dos negócios

Reflexões para auxiliar outros profissionais no desenvolvimento de uma visão estratégica sobre sociedade e construção de resiliência

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10:00 am - 07 de maio de 2024
Imagem: Shuttestock

Empresas de Venture Capital costumam fazer uma diligência grande de fundadores para investir em uma startup e encontrar o time certo. Mas, muitas vezes, não têm o mesmo cuidado na hora de escolher quem serão os sócios do próprio negócio.

Acredito que é fundamental prestar muita atenção na entrada para não ter problemas com as saídas. Escolher um parceiro para iniciar uma empresa de capital de risco é, sem dúvidas, uma decisão crítica que requer considerações cuidadosas e muita cautela.

Escrevi esse artigo com base na minha experiência e em uma pesquisa que conduzi com meus parceiros, colegas e sócios. A intenção desta reflexão é compreender as percepções de outros profissionais do mercado e auxiliar no desenvolvimento de uma visão mais estratégica sobre sociedade, sucessão e como construir uma VC perene.

Um investidor de capital de risco passa a maior parte do tempo diligenciando fundadores de negócios inovadores e tentando encontrar o time certo para apoiá-los na missão de crescer e se estabelecer no mercado. Mas e quando o assunto é escolher os sócios para compor a nossa equipe e abrir o nosso próprio negócio? Parafraseando o provérbio grego, o médico deve curar a si mesmo. 

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Ser Venture Capitalist sempre esteve nos meus planos, mas nunca pensei em fazer isso sozinho. Sinceramente, não imaginava comandar uma gestora de investimentos sem ter parceiros de confiança para compartilhar a experiência que é estar em uma posição de decisões e risco. 

A verdade é que, não importa qual a sua área de atuação, começar uma empresa é difícil. Mas a jornada se torna um pouco menos árdua se tivermos alguns parceiros ao nosso lado para enfrentar as oscilações do mercado e fazer as escolhas difíceis.

Por isso, a escolha dos sócios é o passo mais importante. Mais do que afinidade e vontade, essa decisão requer uma série de considerações cuidadosas, como o alinhamento de valores – financeiros, éticos e morais -, objetivos profissionais e, claro, a experiência de mercado. 

Muitos VCs falham por não terem os critérios apropriados na escolha dos parceiros certos. Claro que não há garantia para o sucesso. A questão principal aqui é estabelecer guias para o empreendedor traçar um caminho que faça sentido para o seu negócio.

Espero que compartilhar minha experiência, bem como muitas ideias de pessoas que admiro e me inspiro, seja proveitoso para aqueles que estão vivendo diferentes momentos nessa jornada chamada sociedade.

Antes de mais nada, quais são os valores das pessoas que você quer na sua empresa? 

A cada dia o mercado busca, mais e mais, instituições que tenham propósitos muito claros. E isso já seria argumento suficiente para defender que as habilidades dos sócios precisam estar alinhadas se eles desejam o sucesso do negócio.

Entretanto, mais do que isso, esses posicionamentos são peças fundamentais para a saúde da parceria a longo prazo. Pois são eles que irão sustentar as decisões nas grandes oportunidades e, principalmente, nos momentos difíceis.

Aqui na Domo, somos realizadores de sonhos, comprometidos com os resultados e sempre dispostos a cometer novos erros. Nós partilhamos a visão de que fazemos muito mais juntos e, é por isso, que deixamos o microfone aberto para que todos possam compartilhar ideias que possam agregar valor ao trabalho. 

Quando perguntei aos meus colegas, investidores e empreendedores, 52% das respostas que recebi foram relacionadas a pilares que categorizei como “comportamento e responsabilidade”, pois tem relação com as qualidades e perfil profissional que os entrevistados buscam em alguém que faça parte da sua empresa.  

Entre as características identificadas estão resiliência, coragem, empatia, determinação e humildade. Um perfil que favorece a atitude empreendedora, como inovação, mente aberta, filosofia semelhante para conduzir negócios e disposição para sacrifícios.

Em sequência, temos uma diretriz ética e moral, em que aparecem valores mencionados por 25% dos entrevistados. Alguns deles são transparência, empatia, integridade, honestidade e coragem. Ponto importante, afinal, são elas que irão garantir a integridade e a reputação da empresa, bem como a estabelecer relações de confiança com os diversos públicos envolvidos.

Não me surpreende que, em um mundo em que cada vez mais falamos sobre Governança Corporativa, esses tópicos se destaquem. Acredito que a soma de todos esses fatores é o que contribui para o fortalecimento da imagem e da reputação de uma empresa, bem como para a construção de relações de confiança e o desenvolvimento sustentável e socialmente responsável.

O que é importante buscar quando estamos montando uma sociedade?  

Escolher um sócio para uma empresa de venture capital requer dedicação e empenho, pois estamos falando de encontrar alguém com uma experiência relevante, habilidades de liderança, bom networking e, claro, valores compatíveis. Me refiro, principalmente, a alguém que complemente as suas habilidades e tenha uma independência de pensamento. 

Isso porque ao trazer alguém para o jogo que ofereça novos componentes ao time, você está preenchendo lacunas e tornando a sua empresa mais forte e competitiva. E ainda pode melhorar a tomada de decisões, criar soluções inovadoras e explorar novas oportunidades de negócios. 

Além disso, é importante garantir que haja conexão pessoal e respeito entre os envolvidos. Ao compartilhar os mesmos propósitos, há um aumento da probabilidade de garantir que todos estejam trabalhando em direção ao mesmo objetivo e possam se apoiar mutuamente durante os momentos difíceis.

Note que não estou dizendo que é preciso ter uma pessoa perfeita. O fato é que os sócios devem estar na mesma sintonia, pois é isso que, a longo prazo, vai viabilizar a construção de uma cultura empresarial sólida.

Entretanto, um ponto que me chamou atenção nas respostas à minha pesquisa, é que apenas 9% das pessoas mencionaram a diversidade como um fator crucial. Isso me preocupa, pois acredito que o futuro do mercado de VC depende da construção de um mindset orientado à diversidade hoje.

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Por outro lado, entendo que esse dado pode indicar que, embora o assunto seja extremamente importante, ainda não é visto como uma prioridade para a maioria porque ainda carecemos de parâmetros e precedentes de como colocar a diversidade em prática. 

Independente disso, acredito que ter sócios com um pensamento de liderança empática e humanizada amplia o olhar às necessidades para o desenvolvimento e a sustentabilidade do ponto de vista social e corporativo. O futuro e o presente são humanos e eles priorizam o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas, e não só a maximização de lucros ou a eficiência produtiva. 

No fim das contas, escolher alguém para construir uma sociedade é sempre um processo importante, que exige dedicação e empenho. Mas com uma análise cuidadosa é possível encontrar o(s) parceiro(s) ideal(ais) que pode(m) agregar valores e ajudar a levar a empresa ao sucesso.

Mais uma vez, não foi surpresa alguma ter recebido como respostas completamente diversas. Afinal, há a necessidade dos sócios cobrirem os pontos fracos uns dos outros. Inclusive, uma das respostas foi exatamente “eles precisam compensar as minhas fraquezas”.

Como construir um acordo acionário sólido e justo?

Agora, no aspecto jurídico, é imprescindível prestar muita atenção na entrada para não ter problemas na saída. Essa é a única forma de garantir a estabilidade e a equidade entre os sócios e, claro, resguardar a saúde e a sustentabilidade do negócio.

Nesse tópico, as pessoas me surpreenderam em suas respostas. A maioria reforçou que era necessário que as partes estivessem “na mesma página”, com transparência e clareza sobre os valores e atividades do negócio. Entretanto, senti falta de mais concretude sobre o que seria colocado no contrato.

Então aqui vai o meu conselho: enquanto a escolha do sócio é aspiracional e ideológica, a formalização contratual da sociedade é jurídica e objetiva! Pense nos mínimos detalhes, em caso de sucesso e – principalmente – nos contratempos. Sabe a história das “letras miúdas” que assustam as pessoas? Nas sociedades elas devem ser todas garrafais.

Com isso estou falando sobre definir claramente as participações acionárias de cada um – tanto em termos de percentual quanto em termos de direitos e deveres -, estabelecer regras claras de como as decisões serão tomadas e, por último, mas não menos importante criar termos de saídas. 

Nesse sentido, é possível incluir opções para compra de ações, cláusulas de não concorrência e outras regras que ambos considerarem justas. Contratar um advogado especializado em direito societário também é importante para orientá-los a fazer um acordo acionário equilibrado, garantindo que todos os aspectos legais sejam considerados. 

Entendo que começar uma parceria, já pensando no que pode dar errado parece um pouco desanimador e, para os supersticiosos, até um sinal de mau presságio. A verdade é que pensar nas possíveis situações de conflito é uma forma de prevenção.

E claro, ainda assim imprevistos podem acontecer, mas essa é a mentalidade ideal para minimizar os impactos e solucionar os problemas de forma mais eficiente. Lembre-se, sempre, de não comprometer o que realmente importa: o seu negócio.

Como agir quando algo não sai conforme o planejado?

Mesmo quando somos cautelosos, nem sempre as situações e as circunstâncias colaboram para que as previsões aconteçam conforme o planejado. Nos momentos de crises, em que a sensação de frustração começa a tomar conta, é importante olhar de acordo com a perspectiva de ambos e não agir de acordo com as emoções.

A pesquisa apontou que 50% dos entrevistados consideram que a mediação da disputa é o melhor caminho e alguns foram bem diretivos: busquem um mediador de conflitos. Outros 35% ressaltaram a importância, mais uma vez, da transparência, boa comunicação e objetividade na hora de encarar os fatos. Enquanto 10% sequer cogitaram a hipótese de que isso pudesse acontecer e revelaram que não saberiam como agir, com um honesto e admirável “no clue”. 

Por isso, precisamos desromantizar as sociedades. É importante que os sócios sejam amigos e que confiem um no outro. Mas, antes de tudo, sociedade é um acordo de negócios: sejamos profissionais. Por isso, concordo totalmente que é importante tornar o processo estritamente profissional e não pessoal desde o primeiro passo. 

Inclusive, é importante ter um pilar de governança bem estruturado já no início do negócio. Assim, as políticas e diretrizes internas ajudam as empresas a se adaptarem e se reinventarem em face de mudanças e incertezas, pois garante que os recursos – financeiros ou não – sejam gerenciados de maneira adequada e responsável.

Quando não há mais jeito e a sociedade precisa ser dissolvida, uma comunicação objetiva e aberta é fundamental para lidar com o rompimento. Costumo dizer que um mau acordo é melhor do que uma boa briga, portanto mantenha o foco em agir de forma racional e estratégica. 

No fim das contas, ninguém quer um litígio! E evitar esse transtorno começa cedo: escolher bem os sócios, fazer um bom contrato de sociedade, estabelecer as rédeas desde os primeiros dias e, em caso de rompimentos, manter o processo estritamente profissional. Eis o caminho para proteger o negócio de um possível rompimento.

Se tudo isso te pareceu muito elaborado e confuso, deixo aqui uma síntese, que recebi como resposta de um colega: Tenha uma “asshole clause”  para planejar o que acontecerá se um lado deixar o outro em uma situação ruim. Esperar pelo melhor, mas se preparar para o pior! 

Existe uma fórmula para a sociedade perfeita ?

Com certeza não! O imponderável sempre estará presente mas o que aprendi é que o caminho para uma boa sociedade e para a criação de uma empresa geracional é começar com um time de founders alinhados em valores  e diversos em pensamento, um norte definido que resultará em uma cultura forte, regras claras de gestão e a flexibilidade de mudar à medida que o mercado e a sociedade evolui.

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