Plataformas digitais superam jornalismo como fonte de notícia mais usada, mas público ainda confia pouco
Quando o uso das redes sociais explodiu, ouvia-se muito que as pessoas não precisariam mais da imprensa, pois teriam a liberdade para escolher como se informar, indo direto às fontes dos fatos. Nas últimas duas décadas, essas plataformas vêm provocando mesmo grandes baixas na audiência do jornalismo, mas é um erro achar que elas nos oferecem tal liberdade.
No jornalismo, uma notícia nasce com um repórter investigando o fato, um editor analisando sua importância e o veículo o publicando, seguindo critérios transparentes e conhecidos. Com as redes sociais, existem influenciadores, sistemas de recomendação e inteligências artificiais entre a informação e os usuários.
Eles acreditam estar acessando as “fontes dos fatos”, mas acabam sendo iludidos por sistemas que filtram, priorizam e, cada vez mais, reescrevem as informações que consomem como verdades inquestionáveis. Não há preocupação com a veracidade ou com os interesses dos usuários, apenas a busca pelo engajamento a qualquer custo.
Essa ilusão confortável funciona. Segundo o Digital News Report 2026, publicado no dia 16 pelo Instituto Reuters e pela Universidade de Oxford (Reino Unido), pela primeira vez as pessoas se informaram mais pelas redes sociais que pela imprensa. Na média de quase 100 mil pessoas analisadas em 48 países (incluindo o Brasil), 54% usam essas plataformas para se informar, contra 51% dos que usam a imprensa.
Devemos tomar cuidado com a leitura superficial de que “as redes sociais venceram o jornalismo”, como tenho visto. O relatório mostra um cenário muito mais complexo, que ele chamou de “plataformização” da notícia. O risco disso não é que elas digam às pessoas como pensar, e sim que indiquem sutilmente sobre o que pensar. Isso influencia o debate público antes mesmo que qualquer opinião seja formada.
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Na faculdade de Jornalismo, aprende-se que tão importante quanto informar bem o cidadão é formar bem o cidadão. Um jornalista pode errar, mas sua missão é publicar o que considera mais relevante para a sociedade. E quando você escolhe um jornal, sabe quem decidiu a manchete, conhece a linha editorial, identifica o responsável pela publicação e pode confrontar aquela cobertura com outras fontes.
Ironicamente, o conteúdo continua sendo produzido por veículos profissionais, mas o acesso a ele ocorre cada vez menos por canais controlados pelos próprios jornais e cada vez mais por intermediários. A distribuição passou para as plataformas, que não se guiam pelo interesse público, e sim por prender a pessoa online.
Com isso, o que é mais importante para o desenvolvimento do cidadão é preterido pelo que chama mais atenção. Uma reportagem investigativa perde para um conteúdo indignado que provoca muitos comentários, assim como um escândalo político complexo fica atrás de um vídeo emotivo que gera compartilhamentos.
A “plataformização” da notícia também elimina o contexto. O jornalismo organiza os fatos, explica antecedentes, consequências, personagens e interesses envolvidos. Já nas plataformas, a notícia normalmente aparece fragmentada, em vídeos curtos, soterrada por comentários. Vira meme e pode ser ampliada por influenciadores sem preparo ou até ética. Ao final, o público acredita estar bem informado sem nunca ter visto a reportagem original, e isso empobrece muito o debate público.
Outro problema é que cada pessoa passa a viver dentro de uma agenda diferente. Por décadas, a população assistia aos mesmos telejornais ou lia as manchetes dos mesmos jornais, criando um conjunto mínimo de fatos compartilhados. Hoje, dois vizinhos podem abrir o celular na mesma hora e receber notícias completamente diferentes. Isso não os leva a viver em bolhas absolutas, mas certamente compartilham menos referências comuns, o que dificulta o diálogo democrático.
No final, a “plataformização” muda nossa relação com o conhecimento. Informar-se era uma atividade consciente quando se decidia comprar um jornal, ligar a TV para assistir ao noticiário ou entrar em um site jornalístico.
Hoje, informar-se tornou-se uma atividade passiva. Abrimos uma plataforma para conversar com amigos ou assistir a vídeos, e a notícia aparece misturada a publicidade, entretenimento e opiniões. Achamos que estamos escolhendo nossas fontes, mas escolhemos apenas a plataforma, e ela faz o resto.
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Com esse movimento, terceirizamos a decisão sobre o que merece nossa atenção, em que ordem veremos os acontecimentos, quanto tempo dedicaremos a cada tema e quais perspectivas chegarão até nós, com enorme risco de o que realmente importa ficar de fora. E isso impacta pesadamente a confiança no noticiário.
Segundo o Digital News Report, ela atingiu o menor patamar em uma década, com apenas 37% das pessoas confiando no noticiário como um todo. No Brasil, esse índice é ainda menor: 36%, caindo de 62% em 2015.
Aí reside uma aparente contradição. Apesar de as pessoas usarem mais as redes sociais para se informar, apenas 22% confiam em notícias que consomem por elas. A confiança pelo noticiário vindo de plataformas de IA é ainda menor: 20%. No Brasil, todos os veículos jornalísticos analisados receberam um voto de confiança de mais de 50% do público, liderados pela CNN Brasil (62%). A explicação é que as pessoas usam mais as redes sociais por serem mais fáceis e divertidas, entretanto percebem que ali há muito mais ruído, opinião, manipulação e falta de responsabilidade editorial.
O Digital News Report mostra que, mais que produzir boas notícias, o maior desafio do jornalismo é permanecer visível em uma realidade em que a atenção se tornou o recurso mais disputado, e onde os intermediários digitais passaram a decidir, em grande medida, o que cada cidadão verá primeiro.
Já o público perde gradualmente sua autonomia informacional. Quanto mais dependemos de sistemas que selecionam automaticamente o que vemos, menos percebemos que estamos consumindo uma versão do mundo organizada segundo critérios que não definimos e não conhecemos, e que não podemos interferir.
Essa ilusão é discreta, mas há anos mostra seus efeitos duradouros sobre a forma como indivíduos e sociedades constroem sua compreensão da realidade. É assim que os brasileiros vêm deixando para trás a imagem de “povo cordial” e se tornando uma sociedade mais polarizada e menos tolerante a quem pensa diferente.
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