Para Ítalo Flammia, protagonismo da área depende da capacidade de traduzir tecnologia em valor, receita e novos modelos de negócios
Um dos principais equívocos que a área de tecnologia ainda comete é permanecer excessivamente concentrada em seu universo técnico. Quando se limita a responder demandas operacionais e garantir o funcionamento dos sistemas, a TI renuncia a um papel muito mais relevante: o de impulsionadora da inovação e da transformação dos negócios.
Essa é a visão de Ítalo Flammia, especialista do IT Forum Inteligência. Para ele, muitos líderes de tecnologia ainda se sentem mais confortáveis discutindo arquitetura, infraestrutura, integração e software do que temas como estratégia, crescimento, experiência do cliente e geração de novas receitas.
Na prática, essa postura restringe o alcance da TI nas organizações. “Hoje, vejo muitas áreas de TI fechadas no seu quadrado, deixando passar a oportunidade de ser o motor de inovação na empresa”, afirma. “O head de TI é um head de negócios que está, circunstancialmente, cuidando de TI”, complementa.
A convicção foi construída ao longo de uma trajetória marcada por mudanças de rumo, decisões ousadas e projetos pioneiros em empresas como a Natura e a Porto Seguro. Ao longo desse percurso, Flammia consolidou a percepção de que a tecnologia só conquista relevância estratégica quando deixa de ser tratada como um fim em si mesma e passa a ser utilizada para gerar valor, criar produtos, abrir novas frentes de receita e transformar culturas organizacionais.
A entrada de Flammia no universo da tecnologia aconteceu quase que por acaso. Seu plano inicial era seguir carreira como engenheiro. Ainda jovem, ingressou na Mafersa, fabricante de trens e vagões metroferroviários, onde teve os primeiros contatos com a área de projetos. No início dos anos 1980, porém, um curso de programação apresentou uma nova possibilidade profissional.
Movido pela curiosidade e pelo interesse em aprender, decidiu trocar a engenharia pela tecnologia. O primeiro passo foi aceitar um estágio em programação, com salário menor e duração limitada a um ano, escolha que encarou como investimento em formação e desenvolvimento.
Nos anos seguintes, atuou como programador e analista até chegar à Accenture, onde participou de projetos no Brasil e no exterior. Um dos momentos mais marcantes ocorreu na YPF, petroquímica argentina, onde liderou a substituição de sistemas comerciais e participou da reconstrução da área de TI. Foi nesse contexto que passou a enxergar a tecnologia sob uma perspectiva mais ampla e estratégica.
Essa visão amadureceu durante os 12 anos em que esteve na Natura. Na companhia, liderou iniciativas como a implantação do SAP, assumiu a TI da área comercial e passou a atuar cada vez mais próximo das decisões de vendas, planejamento e operação.
A experiência o aproximou das necessidades reais dos negócios. Ao acumular responsabilidades ligadas ao planejamento mercadológico, tornou-se uma ponte entre as áreas comerciais e a tecnologia, traduzindo demandas, prioridades e expectativas de ambos os lados.
Essa capacidade de navegar entre os universos técnico e empresarial acabou se tornando uma das marcas de sua trajetória e abriu caminho para desafios cada vez mais complexos.
Antes de chegar à Porto Seguro, passou pela Sodexo como diretor de TI e Operações, liderando uma área de missão crítica ligada a cartões de benefícios. Em seguida, aceitou o convite para comandar a tecnologia da seguradora em um momento de incertezas societárias e transformação.
Durante quase uma década à frente da TI da Porto Seguro, liderou iniciativas que aproximaram tecnologia e geração de novos negócios. Entre elas esteve a criação de uma operação de telefonia móvel virtual, em uma época em que o modelo de MVNO ainda dava seus primeiros passos no Brasil.
Foi também na seguradora que idealizou a Oxigênio, aceleradora de startups criada para fomentar uma cultura de inovação mais estruturada. A iniciativa aproximou a companhia do ecossistema empreendedor e ampliou as possibilidades de desenvolvimento de novas soluções.
Com o avanço da agenda de inovação aberta, Flammia passou a assumir também responsabilidades relacionadas à transformação digital, inovação corporativa e desenvolvimento de novos negócios.
Ao deixar a companhia, em 2019, decidiu iniciar uma nova fase da carreira. Como advisor, conselheiro, mentor e professor, passou a atuar de forma independente por meio da IT Flammia, apoiando organizações em projetos de inovação, estratégia, transformação digital e crescimento.
Hoje, concentra sua atuação na interseção entre tecnologia, inovação e negócios, combinando a experiência executiva acumulada ao longo de décadas com atividades em conselhos e programas de educação executiva em instituições como a Fundação Instituto de Administração, a Fundação Dom Cabral, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e o Inova Business School.
Ao analisar o futuro da tecnologia nas organizações, Flammia aponta a inteligência artificial (IA) como uma das pautas mais relevantes dos próximos anos. Mas, para ele, o desafio vai muito além da adoção de ferramentas.
A próxima etapa da IA nas empresas passa por governança, integração aos processos, uso ético dos dados e capacidade de gerar impacto real sobre operações e modelos de negócio. “A TI tem condições de liderar esse movimento, desde que desenvolva as competências necessárias e não se restrinja à infraestrutura”, avalia.
Na sua visão, esse protagonismo exige uma mudança de postura. A área de tecnologia precisa desenvolver maior empatia pelas demandas do negócio, abandonar posições excessivamente defensivas e assumir um papel mais ativo na articulação de parcerias, produtos e serviços.
Somente assim, defende Flammia, o CIO deixa de ser visto como guardião da infraestrutura tecnológica para se consolidar como um agente de transformação, capaz de conectar inovação, estratégia e crescimento empresarial.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!
Cláudio Neiva
14 horas atrás
Redação
15 horas atrás
Redação
15 horas atrás
Redação
15 horas atrás