Do Titanic ao Alerta da Defesa Civil: o que falhas críticas nos ensinam sobre segurança

Evento mostra que quanto maior o impacto da tecnologia no mundo real, maior deve ser nossa maturidade em governança, segmentação e controle

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A imagem apresenta um fundo amarelo vibrante com os números 2026 em destaque, sendo que o “0” é substituído por uma lâmpada vermelha. Na lâmpada, há um ícone triangular com um ponto de exclamação e a palavra “SCAM” escrita em branco, indicando alerta para golpes ou fraudes. A lâmpada está sendo segurada por uma mão na parte inferior da imagem, sugerindo uma ideia de atenção ou prevenção contra fraudes no ano de 2026. (Netskope, defesa civil)
Imagem: Shutterstock

Por Claudio Neiva

Quem não tomou um susto com o alerta da Defesa Civil disparado em massa nos celulares durante a madrugada de sábado, 20 de junho? Por volta de 1h da manhã, confesso: quase caí da cama.

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O episódio reacende uma reflexão importante sobre segurança da informação: o enorme poder que a tecnologia adquiriu de impactar o mundo físico, para o bem e para o mal. E, para ilustrar isso, vale lembrar do Titanic. O navio, símbolo máximo da engenharia naval do início do século XX, era considerado “praticamente inafundável”. Representava o ápice da confiança tecnológica de sua época.

O sistema de alerta em massa da Defesa Civil carrega um simbolismo semelhante. É uma tecnologia capaz de salvar vidas, antecipar catástrofes, alertar sobre sequestros, desastres ambientais e outros eventos críticos. Ambos compartilham o mesmo fundamento: extrema confiança em sistemas de alto impacto, e reforçam uma realidade desconfortável: mesmo os sistemas mais confiáveis estão sujeitos a falhas.

No caso do Titanic, a tragédia provocou uma profunda revisão na engenharia naval. A principal evolução foi a consolidação da lógica de compartimentalização: reconhecer que falhas acontecerão, mas impedir que uma falha localizada comprometa o sistema como um todo.

O Titanic foi projetado para sobreviver mesmo com até quatro compartimentos inundados. O problema ocorreu quando seis foram comprometidos, o que permitiu que a água ultrapassasse as barreiras internas e propagasse o dano progressivamente. Mais de um século depois, a lógica continua válida.

Leia mais: Ataque ao sistema Defesa Civil expõe riscos de segurança

Na segurança da informação, chamamos isso de segmentação, um dos pilares mais importantes da abordagem Zero Trust cujo objetivo é evitar que um problema localizado se transforme rapidamente em uma crise de grandes proporções. O caso do alerta da Defesa Civil mostra outra dimensão crítica: o poder concentrado nas credenciais e nos processos.

Hoje, existem inúmeros serviços capazes de impactar milhares ou milhões de pessoas simultaneamente, e os efeitos de uma falha podem ir muito além de um simples alerta:

  • Gerar acidentes em ambientes industriais;
  • Comprometer vidas em sistemas de saúde;
  • Destruir valor de mercado em empresas;
  • Comprometer a confiança da população em serviços públicos.

Em sistemas críticos, uma única credencial não deveria ter poder absoluto para executar ações em massa sem validações adicionais. Esse é um princípio clássico de segurança conhecido como dual control.

A analogia é conhecida: em sistemas nucleares, duas chaves independentes são necessárias para iniciar um lançamento. Nenhuma delas, isoladamente, possui poder suficiente. No mundo digital, isso se traduz em segregação de funções, aprovação em múltiplos níveis e autenticação forte.

No fim, tudo converge para a governança. Governança é o mecanismo que define quem pode fazer o quê, em quais condições, com que nível de risco e com que capacidade de auditoria. E esse é exatamente o coração do Zero Trust: o perímetro deixou de ser a rede e passou a ser a identidade.

O desafio deixou de ser apenas proteger sistemas.

É necessário acompanhar a velocidade com que novas tecnologias são adotadas, a crescente dispersão de dados e identidades, humanas e não humanas, e a amplitude do impacto digital no mundo analógico.

Hoje, uma decisão digital pode interromper uma fábrica, paralisar um hospital ou gerar pânico em uma cidade inteira, por isso, a segurança precisa deixar de ser estática para ser dinâmica, contextual e baseada em risco.

O que uma identidade, humana ou não humana, pode fazer dentro de um ecossistema digital deve ser determinado pelo risco do momento e pelas políticas aplicáveis a esse contexto. Regras estáticas e arquiteturas rígidas já não conseguem sustentar ambientes modernos.

No fim, tanto o Titanic quanto o alerta da Defesa Civil nos mostram a mesma lição:

  • Confiabilidade não elimina falhas. Ela exige preparação para elas.
  • Zero Trust não é um produto. Não é ZTNA. É uma abordagem transacional, contínua e orientada por identidade, contexto e risco.

E quanto maior o impacto que a tecnologia tem no mundo real, maior deve ser nossa maturidade em governança, segmentação e controle. Porque, mais do que nunca, quando tecnologia, serviços essenciais e sociedade estão profundamente conectados, um erro operacional pode ter impactos muito maiores do que imaginamos.

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Sobre o Autor

Cláudio Neiva é consultor de confiança em cibersegurança para a América Latina, com mais de 25 anos de experiência no setor. Atuou como analista e vice-presidente de segurança no Gartner, além de ter sido líder de engajamento regulatório no Brasil e consultor executivo de segurança para o setor público na AWS. Atualmente, é Estrategista de Identidade da SailPoint.

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