O Brasil ainda não tem uma lei geral de IA, mas já entrou na fase de investir em governança

Enquanto o marco regulatório da IA segue em construção, empresas já precisam estruturar mecanismos de governança para sustentar a inovação

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Governança de IA. Imagem: Shutterstock
Governança de IA. Imagem: Shutterstock

Por Tiago Amor

A regulação da inteligência artificial no Brasil ainda não se consolidou em uma lei geral em vigorMas isso não significa que o tema esteja parado. Ao contrário: o país já entrou em uma fase mais madura da discussãoem que a pergunta deixou de ser se a IA será regulada e passou a ser como organizar governança, fiscalização e segurança jurídica sem limitar a inovação.

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Brasil avança na regulação da IA

Esse movimento acontece em três frentes simultâneas. A primeira é estratégica, com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028, que prevê cerca de R$ 23 bilhões em investimentos para infraestrutura, capacitação, inovação, serviços públicos e desenvolvimento ético da tecnologia. A segunda é legislativa, com o PL 2338/2023, aprovado pelo Senado e em tramitação na Câmara dos Deputados desde março de 2025, que propõe uma estrutura de distribuição de responsabilidades entre desenvolvedores, fornecedores e empresas que utilizam sistemas de IA. A terceira é institucional, com o PL 6237/2025, encaminhado pelo Poder Executivo para instituir o Sistema Nacional para Desenvolvimento, Regulação e Governança de Inteligência Artificial, o SIA.

O Brasil caminha para um modelo de governança distribuída. A proposta do SIA prevê coordenação entre autoridades reguladoras, preservando competências setoriais já existentes e atribuindo à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), papel relevante nos setores sem regulador específico. Isso indica que a regulação brasileira de IA provavelmente não será construída por uma única norma isolada, mas por um conjunto de regras, autoridades, diretrizes e práticas de supervisão.

Para as empresas, esse cenário traz uma mensagem clara: esperar a lei final para começar a se organizar pode ser uma decisão arriscada.

Leia mais: Decretos entram em vigor e ampliam responsabilidade das big techs no Brasil

Falta de governança amplia riscos da IA

A adoção da inteligência artificial já avança mais rápido do que a capacidade de governança de muitas organizações. Dados da 28ª CEO Survey, da PwC, mostram que 69% dos CEOs brasileiros pretendem integrar IA em plataformas tecnológicas nos próximos três anos, enquanto 56% planejam incorporá-la a processos de negócio e fluxos de trabalho. Ao mesmo tempo, 51% dos CEOs no Brasil dizem ter alto nível de confiança na integração da IA aos processos essenciais da empresa, acima dos 33% registrados globalmente.

Essa combinação de ambição e confiança é positiva, mas também aumenta a exposição. Quanto mais a IA se aproxima do core business, maior a necessidade de controles claros sobre dados, decisões automatizadas, rastreabilidade, vieses, segurança, responsabilidade e supervisão humana. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passa a influenciar processos críticos, relações com clientes, decisões operacionais e riscos reputacionais.

Governança reduz riscos e sustenta inovação

O ponto central é que a agenda de IA responsável também amadureceu. O desafio agora é transformar esses princípios em processos repetíveis, auditáveis e integrados ao dia a dia do negócio.

No Brasil, a janela de preparação está aberta.A lei geral ainda não está em vigormas os sinais regulatórios já são suficientemente claros para orientar decisões. As empresas podem começar agora por medidas concretas: mapear onde a IA já está sendo usada, avaliar o grau de risco de cada aplicaçãodefinir políticas de dados, estabelecer critérios para uso de modelos generativos, documentar decisões automatizadas, criar processos de revisão humana e integrar tecnologia, compliance e negócio em uma mesma governança.

Esse movimento não deve ser visto apenas como preparação para futuras obrigações legais. Ele é, sobretudo, uma forma de proteger a capacidade de inovar.

Sem governança, a IA pode gerar ganhos pontuais, mas dificilmente sustenta escala. Com governança, ela se torna uma alavanca mais confiável para eficiência, inovação e crescimento.

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Sobre o Autor

Tiago Amor é formado em Sistemas da Informação pela UNESP, onde também se especializou em Gestão empresarial. Especialista em Gestão de Projetos na FGV, atualmente é CEO na Lecom, plataforma pioneira em hiperautomação no Brasil.
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