A guerra dos padrões II: o vencedor é…

A declaração da guerra
Por mais esforço que o W3C fizesse, a coisa estava virando bagunça. Particularmente levando em conta que até 2003 a Microsoft detinha quase 90% do mercado dos navegadores com as diversas versões de seu IE e não dava grande importância para normalizações, implementando as funções de renderização do jeito que melhor lhe aprazia. Foi a triste época dos sítios que exibiam o aviso: “Página melhor exibida no Internet Explorer” (hoje, quem se atreve a isso? A concorrência tem, de fato, suas vantagens…).
Esta época era um pesadelo para os programadores Web, que tinham que desenvolver suas páginas e, depois, testá-las em cada um dos programas navegadores disponíveis. E, quando descobriam que este ou aquele navegador (quase sempre o IE) exibia inadequadamente um ou outro detalhe, tinham que desenvolver os famosos “remendos” (“patches“) para resolver o problema (a bem da verdade, mesmo com toda a padronização e por mais eficaz que seja a atuação do W3C, as coisas hoje não são muito diferentes; é fato que cada vez menos intervenções são necessárias, mas de quando em quando ainda é preciso remendar aqui e ali).

Entrementes, a HTML evoluiu. Em dezembro de 1997 o W3C publicou a versão 4.0, cujo maior avanço em relação às anteriores foi separar o conteúdo da forma. Quer dizer: as informações contidas em cada página, ou seu conteúdo, continuaram a ser trabalhadas na linguagem HTML, mas tudo o que tinha a ver com a forma (como tipo de fonte, disposição na página, cores e coisas que tais) passou a ser incluído nas chamadas “folhas de estilo em cascata”, ou CSS (“Cascading Style Sheets”). Se você quiser ter uma ideia do que isto significa e como é possível separar completamente conteúdo de forma, visite o sítio “Disque Piropo“, desenvolvido por este seu criado que usou a desculpa de publicar uns comentários bestas que fazia em um programa de rádio que já não existe mais para mostrar como se pode formatar um sítio inteiro usando as CSS. Quer ver? Pois visite o “Disque Piropo“, clique em “CSS” no canto superior direito, leia o conteúdo da página (que por isto mesmo se chama “Leia antes de clicar”), clique no atalho “COM CSS / SEM CSS”, navegue pelo sítio em ambas as situações e veja como, no que toca ao conteúdo, não há uma vírgula a mais ou a menos ? mas em compensação, repare como a forma faz diferença (até os menus de cortina foram criados usando pura padronização CSS). Se você tem algum interesse pelo tema, garanto que vai gostar.
Enquanto isto, no mundo do desenvolvimento de páginas Web, tudo corria na santa paz.
Pois não é que quando tudo parecia nos conformes, em junho de 2004 o W3C realizou o “Workshop on Web Applications and Compound Documents” no qual, em votação aberta, a maioria de seus participantes decidiu abandonar a HTML assim sem mais nem menos?
Explicar o porquê desta decisão em detalhes não cabe aqui. E, na verdade, nem sei se é explicável. O que eu posso fazer é tentar resumir e, ainda assim, dentro de minha própria perspectiva.
Pois acontece que, no que toca a linguagem de programação, a HTML pode ser considerada uma linguagem muito “frouxa”. Quer dizer: ela tem padrões, sim, e a eles efetivamente adere. Mas é incrivelmente tolerante a erros. Aceita palavras chave em maiúsculas ou minúsculas, determina que certas estruturas devem ser “fechadas” mas aceita páginas onde elas aparecem “abertas”, em suma: do ponto de vista de um programador a HTML é uma zorra.
Funciona, mas é uma bagunça.
Alguns membros do W3C acharam isto intolerável. E propuseram que não somente os padrões fossem mudados, mas que fosse mudada a própria linguagem de programação. E que as páginas da Web não fossem mais programadas usando a linguagem HTML, mas sim uma variante do padrão XML (eXtensible Markup Language) criada especialmente para a Web e que foi batizada de XHTML.
Em 2004, com base nesta decisão, o W3C criou o XHTML Working Group, um grupo de trabalho que imediatamente reformulou o que seria a versão 4.01 da HTML e a transformou na XHTML 1.0. Como as diferenças entre ela e a velha HTML eram significativas, criou também a versão “XHTML Transitional” para acomodar o período de transição. E imediatamente pôs mãos à obra no desenvolvimento da XHTML 2.0.
E a HTML? Bem, no que dizia respeito ao W3C, tinha morrido.
Foi a declaração da guerra dos padrões…
