Por que pessoal de processo é cidadão de segunda classe?

Dizer que ?ele/ela é uma pessoa de processo? é, às vezes, uma forma dissimulada de insulto em grandes empresas, uma forma de marginalizar profissionais em discussões importantes. Por que isso importa quando falamos de Enterprise 2.0? Porque muitos pregadores do 2.0 são pessoas de processo e são os maiores inimigos do movimento.
Dê uma olhada na imagem. Se você não for dominado por uma sensação de admiração, de algum tipo, você é um deles. Não estou falando da sua compreensão intelectual dessa imagem (vou explicar logo mais), mas de sua reação a ela.
Como saber se alguém é uma pessoa de processo? Peça que ela aponte ao coração da empresa. De duas, uma: ou a pessoa não vai saber do que você está falando e vai disfarçar rindo de você de forma cínica e superior, por ser tão ingenuamente espiritual quanto ao seu trabalho; ou dará uma resposta complemente sem sentido que não tem absolutamente nada a ver com a empresa em si ou com a indústria (como, ?são nossos profissionais, nossos valores e nossos clientes?).
Tal incompreensão é o motivo pelo qual pessoas de processo são, geralmente, discriminadas, tratadas como cidadãos de segunda classe.
Consciência sobre a existência de um coração corporativo é a marca do profissional que se arrisca no jogo e tem as habilidades de um jogador. Até mesmo os especuladores corporativos, dispostos a destruir outras empresas, acreditam no coração (na verdade, geralmente, estão interessados em roubá-lo). Os corações corporativos estão, em sua maioria, escondidos à vista de todos, em imagens brilhantes nas brochuras de marketing. E não, não estou falando dos conjuntos de imagens dos funcionários mais fotogênicos. O coração nunca é uma pessoa – algo que os fãs de mídias sociais acham difícil de compreender.
Mais além, apenas grandes corporações têm coração. Startups e pequenas empresas, não. Startups estão em busca do coração e as pequenas empresas emprestam o coração de seu fundador e se tornam cascas vazias caso o fundador se vá. Apenas as empresas que cresceram além da personalidade de seus fundadores e transcenderam a imaginação humana têm coração.
Bailey Yard
O coração da Union Pacific está escondido na catedral do mundo industrial: Bailey Yard. Nos arredores da obscura cidade North Platte, em Nebraska (EUA), está o maior pátio de manobra rodoviária do mundo. Estive lá duas vezes. Por US$ 7, você pega um elevador até o topo de uma das torres de observação. Apenas malucos como eu buscam lugares assim.
Eu aproveito todas as oportunidades de visitar corações corporativos/industriais como Bailey Yard. Para nós, capitalistas-ateus, é o mais próximo que chegamos de uma religião. Eu tenho uma coleção de imagens assim. (Espero que esteja óbvio porque escolhi Bailey Yard como exemplo para um post no The Brainyard).
Bailey Yard é absurdamente enorme. É preciso rodar a cabeça (e a câmera) 180 graus para o panorama. A foto acima mostra cerca de 20 graus.
Se você conseguir enxergar a pequena parte dentro dessa catedral que eu considero o coração da Union Pacific, ponto para você. Eu vou revelar a resposta no final desse artigo.
Toda empresa que gera valor econômico, não importa sua área de atuação, tem um coração. Não importa o quão corrupto seja o gerente ou quão incompetentes sejam seus funcionários, desde que a empresa tenha um coração verdadeiro, há algo precioso lá dentro.
Se você não consegue ver o coração, se não sente admiração e respeito, você é uma pessoa de processo. Você merece o status de um cidadão de segunda classe.
Construtores de catedrais e escultores de pedras
Pessoas de processo foram imortalizadas por Peter Drucker, em uma anedota em Management by Objectives and Self-Control:
?Uma das histórias preferidas em reuniões de gestão é a de três escultores que foram perguntados sobre o que faziam. O primeiro respondeu: ?Estou ganhando a vida?. O segundo continuou martelando enquanto respondia: ?Estou fazendo o melhor trabalho como escultor de todo o país?. O terceiro olhou para cima, com um brilho visionário em seus olhos e respondeu: ?Estou construindo uma catedral?. É o segundo homem o problema. Há sempre o perigo de que um verdadeiro trabalhador, um verdadeiro profissional, acredite que está realizando algo quando, na verdade, está apenas polindo pedras ou colecionando notas de rodapé.? (À parte: existe um filme excelente, Pushing Tin [em português, Alto Controle], sobre controladores de vôo, cujo enredo se foca em um construtor de catedral que ajuda um escultor egoísta a ver o coração da indústria aérea.)
Vivemos numa época em que grandes empresas dominam nossa vida muito mais do que nações dominam. Geralmente, vemos isso como uma coisa ruim. Lealdade à nação – patriotismo – é visto como motivo de orgulho, enquanto a lealdade a um negócio, especialmente aos grandes, é considerada patética e um pouco diabólica. Essa lealdade só se justifica se estiver falando em lealdade a empresas como entidades legais ou como uma estreita noção de ?maximização de valor do acionista?. Mas lealdade ao coração da empresa é uma coisa completamente diferente. De certa forma, o coração transcende a empresa em si. Se a Union Pacific quebrasse, ou se Bailey Yard fosse de outra empresa, ainda teria seu significado espiritual. Se fosse fechado por obsolescência, luto seria ordem.
Pessoas de processo podem ser encontradas tanto em equipes quanto em funções de linha, e dentro e fora de empresas. Ironicamente, eles estão sempre muito perto do coração da empresa, inconscientes da significância espiritual de sua localização privilegiada.
É possível encontrá-los ao procurar por sinais de ressentimento por ser excluído. Eles sempre jogam a culpa de sua condição em executivos manipuladores, ou em sua própria falta de habilidade ou diplomas.
Eles superestimam o impacto desses fatores. O motivo real pelo qual são excluídos é por que não conseguem ver o coração da empresa e, por isso, simplesmente não são confiáveis, não importa o quão talentosos sejam. Estão fadados a receber ordens específicas para sempre, sob condições controladas. Sempre que possível, seu trabalho será terceirizado, distribuído ou automatizado até deixar de existir. E isso acontece como deve acontecer. Pessoas que não compreendem o coração de um negócio são um peso para a empresa porque não compreendem suas prioridades. As prioridades de uma empresa sempre têm relação com o coração. Fortalecer, preservar, defender e curar ou lamentar sua morte e buscar por um novo coração.
E, a não ser que a empresa seja um fornecedor do setor Enterprise 2.0, a pauta 2.0 nunca é prioridade e nunca será. Se você não entende isso, está prejudicando o movimento 2.0.
East Hump
Hora de revelar o desafio ?encontre o coração?. O coração da Union Pacific, dentro de Bailey Yard, pode ser encontrado em qualquer uma das duas curvas nos lados opostos do pátio. O Bailey Yard é um pátio de manobras. É onde trens vindos do oeste são desmontados e remontados para seguir leste e vice-versa.
Esse processo é realizado ao soltar os vagões dos trens que chegam a uma das duas ?curvas?, nas pontas leste e oeste do pátio, respectivamente. Cada vagão liberado desce pela curva, levado pela gravidade, e é direcionado para uma das 114 vias onde os trens são remontados. É difícil ver as curvas na visão panorâmica da torre de observação. (Na primeira imagem, a East Hump está próxima ao canto superior direito.)
Mas, se você parar na curva da Route 30, perto da East Hump, poderá assistir todo o processo de camarote. O agudo som metálico, a cada 10 segundos, aproximadamente, indica que um vagão foi liberado e vai descer devagar pelo trilho. Essa cena é um microcosmo da indústria ferroviária, a maior indústria de transporte. O batimento cardíaco de 10 segundos no Bailey Yard é o batimento cardíaco do mundo moderno.
Na próxima vez que estiver discutindo calorosamente sobre os valores da colaboração e wikis ou criticando os rebeldes intransigentes que não compreendem porque suas ferramentas são tão maravilhosas, pare por um momento e se pergunte: Eu sei onde está o coração do negócio?
*Venkatesh Rao é escritor e pesquisador independente da ribbonfarm.com e autor de Tempo.
