Opinião: a Google está passando pelo começo do fim?

A falta de capacidade de a empresa de aprender com os erros dos outros pode estar ambientando o palco para seu fracasso.

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11:52 am - 22 de março de 2012

Recentemente, li um post
interessante
  escrito por um funcionário da Microsoft que
havia deixado a companhia para juntar-se ao Google e depois retornou após
descobrir que a grama não era tão verde assim lá do outro lado da cerca. A Google é
bem conhecida por fornecer um dos melhores ambientes de trabalho do mundo, mas
como muitas companhias que têm sido reverenciadas de forma similar, parece
estar eliminando esse ambiente, pelo menos de acordo com este post. Tudo isso
soou muito familiar e vejo na Google uma repetição de todos os erros catastróficos
cometidos pela IBM, Apple, Microsoft, Netscape, Sun, e Yahoo! em algum momento da história das comapnhias.

Deste grupo, a Microsoft
sobreviveu, a IBM está quase restaurada e a Apple, na verdade, se tornou maior
do que nunca, sugerindo que o padrão não precisa ser terminal. Mas a
Sun Microsystems, Netscape e possivelmente o Yahoo! ilustram que esse pode ser certamente o fim de
empresas que um dia foram bem-sucedidas. Vamos dar uma olhada em como a falta
de capacidade da Google de aprender com os erros dos outros está ambientando o
palco para seu fracasso.

O blog Microsoft-Google-Microsoft
Várias vezes em minha própria carreira eu poderia ter escrito algo similar ao post que descreve como a
Google perdeu sua forma. Ele conta a
triste história de uma companhia que iniciou fundada com pó de fada e sonhos e
que, de repente, teve de enfrentar duas realidades: perder o foco e começar a ser
tornada obsoleta pelo Facebook. O que é interessante é que o escritor, James
Whittaker, deixou e depois voltou para a Microsoft. Imagino que isso seja
devido ao fato de a Microsoft estar em um estado estável, enquanto a Google
está em transição, e transições são incrivelmente dolorosas e desmotivadoras,
principalmente quando elas vêm à custa de direitos.

Whittaker também conta a história de uma companhia que perdeu
sua essência e que tem a necessidade desesperada de ser vista como bem-sucedida. Uma companhia que interpretou errado o conselho de Steve Jobs sobre ter foco e
simplicidade. A Google está simplificando e se focando nas pessoas, o que é
algo consistente ao conselho de Jobs, mas a companhia parece ter pulado a parte
sobre decidir no que eles são bons e focarem-se nisso. A Google ainda
parece estar atrás da Microsoft, Apple ou, neste post, do Facebook.

A IBM agora está mais focada
Quando passei por um problema semelhante pela primeira vez, eu era um analista interno da
IBM. A companhia dominava o mercado da tecnologia e estava operando atualmente
sob o modelo que conhecemos por software como serviço (SaaS). De fato, era ainda mais avançado. Tudo era basicamente serviço. Líderes corporativos viram os
computadores pessoais emergirem e a Apple crescer como uma ameaça. Responderam a essa ameaça por meio da criação do IBM PC e da formação de uma parceria
com a Microsoft para formar um bloqueio para a Apple e então eles viram a Sun
aparecer e decidiram sacrificar a estrutura principal no altar da computação cliente-servidor. Depois, identificaram a Microsoft como uma ameaça e
decidiram fazer software terceirizados para a plataforma OS/2.

Cada tentativa de se tornar outra companhia enfraqueceu a IBM a um ponto em que a empresa quase foi à falência. Agora que a
IBM mudou suas engrenagens e está focando em ser a melhor IBM que ela pode
ser, sem tentar parecer ser a Google ou o Facebook, suas
ações estão sendo negociadas pelo preço mais alto do que eles já venderam.

A Microsoft ainda encara desafios
A próxima da lista é a Microsoft, a qual o sucesso foi ligado à terceirização
de software. Os engenheiros de hardware nunca entenderam o software realmente e
a grande ideia da Microsoft foi a de fornecer serviços terceirizados. Primeiro o fizeram para a Apple e depois para a IBM. O que,
eventualmente, resultou no Windows. Contudo, a IBM ficou preocupada por estar
tendo seu lugar tomado pela Microsoft, e então as duas companhias entraram em
guerra. A Microsoft começou a vender diretamente para corporações.

Depois, a Microsoft viu a AOL como uma ameaça e criou o
MSN, mas faltou a parte de web nele e ele foi emboscado pelo Netscape. No
processo, a Microsoft perdeu o foco nos usuários e nos OEMs. Começou a se
preocupar com o fato de a Sony estar planejando transformar o PlayStation
em um PC e então criou o Xbox, o que mais tarde alienou os OEMs e, basicamente,
acabou com o negócio de jogos de computador.

Finalmente, a Google chegou e a Microsoft gastou bilhões
tentando ser melhor que a Google. Mas a Microsoft não pareceu entender o modelo
central da gigante de buscas. O modelo uma vez imbatível de software terceirizado para a plataforma Windows já não
era mais tão imbatível assim. A Microsoft continua, mas os OEMs que
inicialmente fizeram a companhia imbatível agora estão usando o Google, e a
Microsoft perdeu seu lugar no campo dos smartphones e tablets.

A Apple, que uma vez esteve perto de seu fim, agora
está mais forte que nunca

A Apple, que começou como uma companhia de computadores pessoais, teve seu
lugar inicialmente tomado pela Commodore, que se focava melhor no cliente, e quase chegou ao seu fim tentando ser uma melhor fornecedora de
computadores para negócios. Após perder Jobs, a Apple pareceu ter se perdido,
primeiro ao tentar ser como a Compaq, Sony/HP e então Microsoft. A companhia
expandiu massivamente suas linhas de hardware e depois se aventurou em softwares
terceirizados através do licenciamento com o MacOS.

A Apple estava apenas meses de distância de falir quando
Jobs voltou. Ele reconcentrou a companhia nos negócios voltados aos clientes de
computadores e então, prevendo que o crescimento do PC estava diminuindo e
reconhecendo que acertaria a Microsoft em seu ponto fraco, passou para o
entretenimento. O novo foco nos clientes e na excelência permitiu que a companhia recriasse a sua própria imagem. A Apple é a única empresa
que, após perder seu foco, emergiu mais forte do que em sua melhor época.

O Netscape culpou a Microsoft equivocadamente
O Netscape foi o primeiro exemplo do que acontece ao esquecer sua essência. O
Netscape era a internet e, quando as pessoas inicialmente começaram a usar
a web virtualmente, todas elas utilizavam um produto Netscape. Mas o Netscape
não conseguiu entender como fazer o que a Google eventualmente viria a fazer mais tarde:
monetizar a web da forma correta. No lugar disso, a companhia decidiu
focar-se em eliminar a Microsoft.

Milhões de dólares foram gastos  por muitas companhias nas últimas três décadas nesse esforço de derrubar
a Microsoft do que de qualquer
outra estratégia fracassada, e isso ocorreu com quase todas as companhias. O
que é fascinante é que quando você conversa com um ex-executivo do Netscape,
ele irá muitas vezes dizer que a companhia foi retirada dos negócios pela Microsoft,
a qual, em uma briga similar com a Google, não tem tido muito sucesso. Cada grande fracasso levou a uma decisão tomada pelos executivos do
Netscape que era ligada, em grande parte, a algo que não tinha nada a ver com seu
domínio da internet.

O sol se pôs para a Sun ao passo que ela tentava
ser a Microsoft

A Sun protagonizou algo similar ao efeito que a Google teve para a Microsoft com a IBM. A
companhia foi, em grande parte, responsável por fazer a IBM esquecer seu modelo
de sucesso e quebrar sua fórmula. Mas logo depois a Sun se fixou na Microsoft, criando uma estratégia que ‘comoditizava’ a indústria, ainda que não fosse
conseguir sobreviver em um mercado de comodities. Resultado: a Sun causou uma quantidade
significativa de danos a Microsoft, mas, durante esse processo, faliu.

A Sun foi um dos exemplos mais catastróficos do que ocorre
quando uma companhia esquece seu propósito e foca-se excessivamente no modelo
de outra companhia. Na realidade, a Sun deveria ter entendido que ela não era
uma concorrente direta da Microsoft e sim ter identificado a IBM, HP e a
crescente Dell como suas rivais primárias. A Sun estava em guerra com o modelo
de terceirização que a Microsoft representava, mas em vez de seguir os passos
da Apple e focar-se em concluir soluções e ser proprietária das mesmas a Sun
tentou se transformar na Microsoft e foi paralisada no meio dessa transição.

Yahoo: A história mais triste de todas
Talvez a companhia que mais esteja sofrendo seja a Yahoo”. Possuía redes
sociais antes de começarmos a chamá-las de redes sociais. Ainda mais triste é o
fato de que a AOL e a Compuserve (que se fundiram) também as possuíram, antes do
Yahoo!. O Yahoo! se fascinou pela Google, companhia na qual o Yahoo! pôs um grande
investimento. Mas em vez de alavancar a parceria e reconhecer que o Yahoo!
estava mais perto do objetivo de fornecer informações de propaganda de alto
valor do que a Google (dado o envolvimento mais acentuado dos clientes), os
executivos da companhia foram atrás do objeto brilhante além da Google e o
perseguiram.

É irônico que o Facebook seja hoje a maior ameaça ao Google
e tanto a Microsoft quanto o Yahoo não tenham sido nada além de um estimulo que
manteve a Google focado na sua busca. De fato, vou argumentar que caso os dois
tivessem evitado o negócio de buscas, a Google teria se tornado tanto regulado
como um monopólio óbvio e  vulnerável aos avanços na tecnologia que teria
deixado passar.

O Yahoo! perdeu sua essência completamente e foi forçado a
processar o Facebook por causa de uma tecnologia que ele não utiliza mais. Em
vez de ser uma fornecedora  dominante de redes sociais a companhia é agora um
exemplo patético do que acontece quando se perde sua essência.

A Google em negação, a beira do precipício
A Google está no negócio de propaganda e ainda assim parece estar em algum
tipo de estado de negação. Todo o seu foco deveria estar centrado em encontrar
maneiras de tornar as propagandas na internet mais rentáveis e em ser a fonte
primária de gestão de receitas de propagandas para todos. Sua fórmula vencedora
estava monetizando a web, constituída na verdade por um super conjunto de
propagandas. Mas é claro, institucionalmente, que a Google está em negação
sobre a fonte real de seu sucesso.

A Google deveria ter trabalhado para ter a Microsoft e o
Facebook como seus parceiros, não concorrentes. Julgando pelo blog do
ex-funcionário da Google que nos botou para pensar, a Google parece estar
deixando a ideia de se tornar a Microsoft e tentando se tornar o Facebook, e
fracassando nesse processo.

O que é particularmente triste é que a Google
parece ter vindo ao mercado com a ideia de ser uma anti-Microsoft, com a
percepção implícita de que a gigante dos software era uma força do mal. Hoje,
se você fizer uma busca nas duas companhias, você possivelmente encontrará
referências durante os últimos cinco anos que denunciam que a Google está
fazendo mais coisas ruins do que a Microsoft.

Essa busca sugere que nas
melhores universidades (e a Google só contrata das melhores) eles simplesmente
não ensinam muita história e, possivelmente, aparentam focarem-se em falar mal
de quem esteja no poder, o que indica que a próxima geração possivelmente sairá
da faculdade desejando acabar com a Google, bem como a geração do Google, que
saiu desejando destruir a Microsoft, que por sua vez teve uma geração que
entrou no mercado querendo tomar o lugar da IBM.

Será que o Facebook poderá evitar tais erros?
Dada esta tendência, o Facebook pode parecer ser a próxima companhia a cometer
o erro de esquecer sua essência e focar-se excessivamente em outra companhia. A
Pinterest começou a emergir como uma desafiante a coroa e, enquanto a Pinterest
está no espaço do Facebook, seria tolo tentar ser uma Pinterest melhor se isso
significasse abandonar tudo pelo o que o Facebook já é conhecido. Por hora, não
há indicação de que o Facebook esteja cometendo esse erro, mas dado o histórico
de outras empresas é fácil imaginar que ela eventualmente o fará, seja para ir
atrás da Pinterest ou de alguma outra companhia.

Três passos fáceis para destruir uma companhia
A lição? Parece existir um caminho bem definido sobre como destruir uma companhia de
sucesso. Tudo começa de dentro, com a companhia esquecendo sua essência ou
deixando de entender a fórmula que criou o seu sucesso em primeiro lugar.
Segue-se com um foco excessivo no concorrente, o que faz a companhia competir
com aquele novo concorrente na zona de conforto do mesmo. Tudo isso termina com
uma série de esforços mal executados e cada vez mais desesperados para se
tornar a companhia que tanto os assusta.

Reciprocamente, existem três passos fáceis para garantir o
sucesso. Conheça sua fórmula para o sucesso e a proteja. Concentre-se no
objetivo – o cliente – não no competidor. E tente ver para onde o mercado está
caminhando e chegue lá antes, o que normalmente significa que você precisará
guiar o mercado para aquele objetivo.

A IBM e a Apple representam o que pode acontecer quando executivos
esquecem a essência e, mais recentemente, elas são índices de como competir em
um mercado que muda constantemente.

Seria sábio para os executivos atuais,
particularmente aqueles da Google, darem um passo atrás e decidir se eles
querem ser a próxima IBM ou Apple ou a próxima Netscape ou Yahoo.

Eu sei em
qual lado eu gostaria de estar, ainda assim continuo a me surpreender com o número
de executivos que estão fazendo estratégias que os colocam no caminho mal
sucedido.

Como é aquele antigo ditado? Aqueles
que não aprendem com a história estão condenados a repeti-la? Pode parecer que, a menos que algo mude, este
possa ser o epitáfio da Google.

No centro deste padrão estão os conceitos de predisposição de
confirmação, a noção de que
favorecemos raciocínios que confirmam nossas crenças e uma armação para explicar porque o raciocínio
muitas vezes resulta em decisões irracionais. Uma vez que você entenda isso,
você poderá explicar porque os executivos cometem esses erros repetidas vezes.

(*) Rob Enderle é presidente e analista chefe do Grupo Enderle. Antes, foi ‘Senior Research Fellow’ dos Grupos Forrester Research e Giga
Information. Antes disso, trabalhou para a IBM ocupando cargos de auditoria
interna, análise competitiva, marketing, finanças e segurança. Atualmente Rob escreve
sobre tecnologias emergentes, segurança e Linux em várias publicações e aparece
em programas de TV nacionais que incluem os canais CNBC, FOX, Bloomberg e NPR.

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