IBM desconversa sobre Google Now concorrer com Watson e pede que CIO se prepare para Inteligência Artificial

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6:38 pm - 20 de agosto de 2012

Faz um ano e meio que o Watson, software de inteligência artificial da IBM, venceu humanos no programa de perguntas Jeopardy, sucesso na televisão norte-americana há mais de 40 anos. O desempenho do sistema chamou a atenção da indústria de tecnologia e de curiosos, que viram com o exemplo a aproximação, cada vez maior, da quebra do Teste de Turing, que basicamente avalia o fim da fronteira entre inteligências humana e artificial.

Durante o IBM Forum 2012, realizado em São Paulo, na última semana, Jim De Piante, executivo do IBM Research que participou da criação do sistema de inteligência cognitiva, usou sua apresentação, com duração de pouco mais de uma hora, para explicar como pensa o Watson e como seu parrudo sistema de algoritmos age para entender o contexto de questões.

Contudo, os projetos que correm desde então – focados em empresas norte-americanas de saúde e finanças – ainda não foram concluídos. Dois anos e meio depois, a Big Blue ainda precisa vencer um desafio para fincar seus pés em uma área que, em menor escala, Apple (com Siri) e Google (com o recém-lançado Google Now) já estão despontando: a transformação do sistema em um produto comercial.

Primeiramente é preciso entender que quando se fala na tecnologia, ela é totalmente baseada em software. Os 90 servidores, cada um com 32 processadores, utilizados para criar a versão do produto, em meados de 2010, formam o que seria um corpo que, em uma alusão, seria responsável por abrigar os pensamentos, como ocorre com humanos.

Claro que a grande sacada do produto não se limita a participar de programas de entretenimento, fornecendo respostas em formato de perguntas. O Watson traz um arcabouço parrudo de analíticos que consegue identificar informações corretas em um banco de dados enorme. Isso quer dizer que a análise de dados, quando ele estiver disponível no mercado, nunca mais será a mesma.

Em entrevista concedida após a apresentação, De Piante foi “escorregadio” quando respondeu um simples “não sei” ao ser questionado sobre Siri e Google Now como competidores em uma eventual oferta corporativa no futuro. O executivo, muito simpático, foi firme ao garantir que a fabricante não fará pesquisas pela simples ideia de quebrar paradigmas. “As pesquisas da IBM não vão ser focadas na alegria de fazer pesquisas. Nós fazemos negócios. Vamos focar em produtos que sejam relevantes para nossos consumidores. Pesquisas serão estritamente e unicamente focadas em propósito comercial”, disse ao IT Web e ao Jornal do Comércio. Ele também não quis cravar qual a próxima onda na qual a gigante de software trabalha. Mas afirmou, sem titubear, que antes de estar disponível no Brasil, com compreensão do idioma português, o sistema terá de passar pelo desafio de atender aos mercados de saúde e finanças, nos quais inicia suas experimentações. De qualquer forma, ele aconselha que os CIOs e seus times já comecem a armazenar dados de forma que eles possam ser utilizados de forma, hoje, inimaginada, quando o Watson chegar.

Acompanhe os principais trechos da entrevista na sequência:

1. IT Web – É possível que o custo do hardware capaz de suportar o software caia ao longo do tempo formando o produto mais acessível?

Jim De Piante – Eu fiz o pedido para os componentes do hardware em julho de 2010 quando montei a máquina. Se tivesse feito o mesmo pedido em setembro, dois meses depois, teria um quinto do tamanho. Se criássemos hoje, seria ainda menor. É preciso ficar claro que o Watson não é um hardware. O Watson é um software. Ele pode rodar em qualquer tipo de hardware. Se estivesse em um laptop, seria muito devagar, mas, teoricamente, poderia rodar também em um tablet.

2. IT Web – Mas em quanto tempo poderemos ter um hardware que suporte a tecnologia em dispositivos mais acessíveis?

De Piante – Existem duas possibilidades: a primeira delas é criar seu próprio Watson, em uma versão reduzida. Coinsidere: o que vai para o Watson e o que vem dele? Uma pergunta e uma resposta. O vem do Watson? Uma resposta em texto. Você pode fazer uma pergunta de qualquer dispositivo móvel, não necessariamente um smartphone, mas um simples celular. Você não precisa se responsabilizar por carregar o processador, você só precisa perguntar ao Watson e obter uma resposta.

3. IT Web – É como o Google? Como a web?

De Piante – Exatamente. Imagine muitos Watsons na nuvem. Isso é tecnicamente razoável hoje, pensando em tecnologia

4. IT Web –  Vocês possuem projetos em desenvolvimento com Watson para indústria de saúde e financeira. Quais seriam as próximas?

De Piante – A IBM não está comprometida com nenhuma indústria agora. Nós temos uma enorme experiência com saúde e finanças. Mas podemos especular. Lembre-se do critério: um grande corpo de informações sobre linguagem humana, com capacidade de responder precisamente a perguntas. Então, claramente, um próximo passo seria o serviço de call center. É uma possibilidade. Mas isso não é um anúncio, é uma especulação sobre possibilidades.

5. Jornal do Comércio – O que você pensa que seria o impacto social de algo como o Watson, conectado na nuvem, no Google e, especialmente, com o foco da empresa em Smarter Cities, como forma de ajudar as pessoas em seu dia a dia?

De Piante – As primeiras aplicações do Watson deverão ser muito, muito focadas nas necessidades dos negócios. Então, se há um negócio depois de resolvermos os problemas do setor de saúde, depois de resolvermos os problemas em torno do sistema financeiro, depois de termos o Watson em call center, depois de ele aprender a falar português brasileiro, depois… se um cliente quiser fazer um tipo de Watson que possa responder perguntas ao público em geral, tecnologicamente será possível. Esta é a direção que vamos tomar? Eu já não sei.

6. IT Web – O Google está indo nessa direção com o lançamento do Google Now. E a Apple com a Siri. O Google Now, inclusive, será proativo, indicando ao usuário, por exemplo, se ele pegará trânsito para ir até determinado lugar ou se ele estiver atrasado para uma reunião.

De Piante – Isso é perfeito. Análises profundas de conteúdo, compreensão da linguagem natural, análises preditivos. O Watson é a mesma coisa, só que com esteróides. Não diria que os demais produtos são muito sofisticados. Mas o Watson pode, agora, criar respostas para dados existentes. Mas uma vez que os dados aumentem, a tecnologia e aplicações evoluam, ele terá completa capacidade de tirar vantagem de dados em tempo real.

7. IT Web –  O Google está muito focado em empresas desde os últimos três anos. Como você enxerga um possível futuro de o Google Now ser aplicado ao universo corporativo. A IBM vê o Google como um competidor no futuro?

De Piante – Não posso falar sobre a IBM neste assunto. A visão da IBM é resolver problemas extraordinariamente difíceis para corporações, não simplesmente responder a questões. Responder a questões não é algo trivial, mas o Watson é muito mais sofisticado do que isso.

8. IT Web –  Você pode me explicar quão mais sofisticado ele é em relação a outras aplicações?

De Piante – O Watson atua em uma vasta, enormemente vasta, quantidade de dados…

9. IT Web –  Mais do que o Google, por exemplo?

De Piante – Eu não sei, honestamente, não tenho ideia. Mas ele olha isso simultaneamente, e não traz ao usuário arquivos que contenham respostas. O Google faz isso.

10. IT Web –   Mas nesta pergunta eu me refiro ao Google Now.

De Piante – Eu terei que dizer que eu não sei.

11. IT Web –   Mas a IBM está olhando o Google como um competidor em potencial?

De Piante – Eu não sei.

12. IT Web –   E quando o Watson irá entender português?

De Piante – Para estar pronto para o português são necessárias algumas coisas, sendo basicamente um corpo de dados na língua, com arquivos digitalizados. E, também, precisa de algoritmos que funcionem em português. Isso precisa ser criado e, quando e se for criado, será criado no Brasil. A tecnologia e arquitetura e o framework dessa arquitetura de gestão de informação desestruturada e os mecanismos para criar o Watson existem. Esse foi o verdadeiro desafio. E os mecanismos para selecionar esses dados hoje já foram compreendidos. Estamos no meio do caminho do processo, mas não posso dizer quando.

Eu diria que ainda há alguns desafios, sendo que o primeiro deles é comercializar o Watson nas primeiras indústrias. O próximo problema a resolver seria migrar para outras indústrias. E outros clientes nessas indústrias, porque estamos com parcerias, neste momento, com apenas alguns clientes. Depois, falamos de outras línguas. E depois você tem que considerar, mesmo sendo o país do mundo que possui o mair número de pessoas que falam português, onde o portugês está posicionado em relação a outras línguas? Não há nenhuma decisão tomada dentro da IBM sobre isso.

13. IT Web –   Todos veem a tecnologia de cloud computing como um agregador geral de dados, quebrando barreiras sociais. Seria possível, no futuro, o Watson agregar todas suas informações na nuvem e, resolvendo essas barreiras linguísticas e distorções culturais de compreensão, unificar os dados mundiais em apenas um lugar?

De Piante – Posso apenas especular. Puramente especular como um leigo. O problema para resolver são as dificuldades de tradução das linguagens naturais. E isso não faz parte da missão de Watson. Outras pessoas vão trabalhar nisso.

14. IT Web –   Como o Watson mudará a forma como o departamento de TI trabalha?

De Piante – O que é e deverá ser afetado é o dado. Tudo depende dos dados. Então o dado deve ser capturado e armazenado de uma forma que Watson possa tirar vantagem disso. Isso significa arquitetura de informação desestruturada. A TI, os CIOs, CTOs, diretores de TI precisam, agora, captar a possibilidade de captar e armazenar dados, por em um repositório para que, quando o Watson estiver pronto para eles, eles já estejam prontos para o Watson. O hardware? Quem liga. O Watson é capaz de manipular dados. E a forma como o Watson consegue examinar os dados depende de como os dados estão armazenados.

 

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