Todos os compromissos serão honrados na sua plenitude, diz Lauro Vianna, da Itautec

Por mais três anos, a marca Itautec fará parte do dia a dia do mercado brasileiro de TI. Depois disso, deve deixar de estampar produtos, o que praticamente coloca um ponto final em uma era da indústria nacional de computadores. A fabricante foi uma das pioneiras na microinformática no País e, das que nasceram no período chamado Reserva de Mercado, uma das mais longevas e prósperas.
Mas os tempos estão mudando no campo da computação pessoal e seria ingênuo pensar que a companhia passaria ilesa por essas transformações. A brasileira anunciou que formará uma nova empresa com a Oki Eletric, focada em automações e serviços. A Oki deterá 70% das ações desta nova empresa, pelo que desembolsará 100 milhões de reais, movimento anunciado em maio deste ano e que coloca a japonesa com força no cenário nacional, indo além dos negócios de impressão, onde já conta com boa participação no território brasileiro.
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O processo de transição deve seguir até 2016, quando se completará a substituição da marca. O foco dessa movimentação é aumentar a musculatura da Oki Eletric no segmento de automação. Ponto. E, com isso, ocorrerá a desativação da área de computação da companhia ?sem qualquer prejuízo ao cumprimento integral de todos os contratos e obrigações de fornecimento, manutenção e garantia dos equipamentos da marca Itautec/InfoWay, bem como o atendimento ao consumidor e os serviços associados a essa manutenção?, segundo informa o fato relevante enviado aos acionistas pela companhia.
Para entender melhor os próximos passos da companhia, CRN Brasil entrevistou Lauro Vianna, diretor da unidade de vendas de computação para corporações. Velho conhecido do mercado de TI, com passagens por Compaq e, após aquisição, HP, o executivo acompanhou as principais mudanças de mercado no segmento. ?Computação pessoal vive um descaminho?, avalia. Abaixo, a síntese da conversa:
CRN Brasil ? Como você avalia esse processo da aquisição da companhia e desativação da área de computação?
Lauro Vianna ? É um reposicionamento estratégico da Itautec no mercado, que se dá em função de uma joint venture com a Oki, que constituirá uma nova empresa, que estará estabelecida até o final do ano, com foco em automação e serviço. É isso, de forma prática.
Esse foco já era uma unidade de negócios da Itautec. A outra é computação pessoal e corporativa, atingindo varejo e empresas. Ambos os negócios entraram em um processo de desmobilização, que significa que todos nossos compromissos previamente estabelecidos serão honrados em sua plenitude até o final. Todos os compromissos de serviços associados com os clientes serão honrados na sua plenitude. Com SLAs em ordem, seja de três anos ou cinco anos.
CRN Brasil ? Mas há um prazo de desativação da unidade de computadores, que é de três anos, tendo em vista que esse é o tempo descrito no Fato Relevante. E os canais e parceiros?
Vianna ? Sim, porém, não estou assumindo compromissos de longo prazo. Ou seja, não participo mais de um leilão governamental em órgão municipal, por exemplo, desde o dia 15 de maio.
Porém, continuaremos operando nas vendas transacionais, que não implicam compromissos de longo prazo. Os programas de incentivo, treinamento, suporte, pré-venda… Todos continuam funcionando. A operação com os distribuidores (SND, Pauta, Agis) tudo funcionando também. Continuamos fornecendo tecnologia para esses canais, que continuam a distribuir. Vai chegar o momento que irei desmobilizar 100% desse time de canais, parceiros e distribuidores. Mas hoje, nesse momento, neste ano, estamos operando normalmente. Mas novos direcionamentos virão em 2014.
CRN Brasil ? Mas vale a pena continuar assumindo essas oportunidades transacionais?
Vianna ? Sim. São [oportunidades] perfeitamente elegíveis de atendimento pela Itautec. Micro, pequenas e médias empresas que precisam de máquinas para os funcionários, com custo-benefício, produtividade e flexibilidade para o trabalho, ainda são alvos. Não deixamos de fazer negócio.
CRN Brasil ? E como os parceiros receberam a notícia? Quais as mudanças desde o anúncio?
Vianna ? Nenhum canal vai ficar no meio do caminho. Há outros fabricantes engajados neste segmento [de computação pessoal]. Temos o compromisso sério, e vamos executar as coisas que já foram planejadas. Os parceiros sabem disso. Num recente evento, muitos parceiros comentaram sim a movimentação, mas não se preocuparam com a questão de honrar os compromissos. Comunicamos, com antecedência, mesmo sabendo dos impactos na mobilidade do negócio. Não poderíamos, por exemplo, sair do mercado sem prévio aviso. Estamos trabalhando para que seja o menos traumático.
CRN Brasil ? Mas, obviamente, a saída de parceiros de forma automática, assim como a de distribuidores, está prevista, mesmo com a palavra da Itautec em cumprir todos os SLAs.
Vianna ? Certamente. E é uma decisão estratégica deles, assim como tivemos a nossa em sair da área de computação. O relacionamento com os parceiros sempre foi positivo, e queremos encerrar um ciclo mantendo essa imagem.
CRN Brasil ? Lauro, você está há muito tempo no mercado de TI, com ênfase ao conhecimento dos negócios em torno da computação pessoal. Como você vê o atual momento do mercado e onde entra essa atitude de desativar exatamente essa unidade dentro da Itautec?
Vianna ? Certamente, há um descaminho no mercado de computação. Vamos pensar rapidamente na pressão da comoditização. Os novos direcionamentos do grupo já respondem algumas questões. Um negócio será desmobilizado para que toda a energia seja investido num novo perfil de negócio.
Mas a linha do tempo deste segmento é vitoriosa, mas com ciclos de vitórias cada vez menores. Pense no formato do PC, desktop mesmo, que ainda é o majoritário quantitativamente falando no mundo todo. Agora veja a evolução na flexibilização do acesso ao conteúdo. O PC estava sendo substituído de forma forte por notebooks, netbooks e, mais recentemente, ultrabooks e tablets. Mas a grande derrocada do PC está nos smartphones, pelo menos assim vejo. E eles crescem cada vez mais, ganham mais força de processamento, de imagens. Estão ficando quase tão poderosos quanto algumas máquinas.
Nessa disputa por convergência, surge o segundo ponto de interrogação dentro do mercado de computação pessoal. A disputa entre notebooks, tablets e smartphones, pode transformar o tablet numa solução temporária, ficando espremido entre um telefone que cresce e um computador que diminui, mas sem perder as capacidades criativas, e ganhando mais interatividade.
O que mudou o jogo em como se pensa em computação pessoal no mercado foram os smartphones, e são eles que vão liderar o próximo passo dessa evolução. Junta-se a este cenário a computação em nuvem, que abriu diversos horizontes para empresas e usuários. A computação em nuvem é também um divisor de águas, e será realidade efetiva e majoritária nos próximos anos, colocando em xeque até mesmo os servidores e outras infraestruturas dentro das empresas. Não é uma crise apenas da computação pessoal.
CRN Brasil ? A Itautec estava tocando uma nova estratégia de computação, com novas máquinas e tablets. O que deu errado?
Vianna ? Não deu nada errado. Estávamos tocando nossas ações de vendas, marketing. Tudo tem dado certo. Mas houve um reposicionamento. Se não estivéssemos indo bem, certamente teríamos mais problemas hoje para comunicar as mudanças e deixar a casa em ordem para que entre o novo. Estamos num ambiente de transição. Hoje a Itautec, como um todo, vive esse momento. Se as coisas não estivessem bem, minha vida estaria muito mais complicada (risos).
CRN Brasil ? E como fica a sua equipe de vendas, pré-vendas, serviços e tudo mais?
Vianna ? Temos profissionais extremamente qualificados, capazes, que certamente estarão na nova empresa. Outros bons irão para outras companhias. Vamos tocar juntos, vendo as pessoas se movimentarem, esse processo de desmobilização da área de computação de forma paulatina, atendendo nossos clientes corretamente, para que estejam satisfeitos com a marca e com o Grupo, e com todos os valores da marca Itautec.
CRN Brasil ? O que essa transação com a Oki agrega ao mercado local?
Vianna ? Não sou o porta-voz correto para falar amplamente sobre isso, mas os benefícios para os usuários de tecnologia no Brasil será ótimo, trazendo inovação e novos valores para o mercado brasileiro. A combinação de uma empresa multinacional com outra que conhece o território é muito positiva.
