Pessoas que mudaram a tecnologia: Bill Gates

Muito antes de Larry Lucchino, do Boston Rex Sox, chamar George Steinbrenner de Darth Vader, Bill Gates já estava no centro da indústria de informática e, possivelmente, era o homem mais odiado em tecnologia.
Eu nunca consegui entender exatamente o motivo. Era porque a Microsoft possuía mais de 97% da fatia de mercado de sistemas operacionais de PC? Ou porque ele convenceu todas as empresas fabricantes de PC a aceitarem sua ?oferta?? Ou, talvez, porque a Microsoft também dominava o mercado de aplicativos e programas para escritório? Ou porque ele implicava com Steve Jobs? Ou porque sua fortuna era descomunal? Ou porque ele atropelou o Netscape e alguns outros pioneiros da Internet, assim como empresas como a Novell e 3Com e outras 50 parecidas, como um tanque de guerra? Ou porque ele conseguiu o impossível: derrubando a invencível IBM diversas vezes até domina-la e transforma-la em apenas um ?veículo? para o sistema operacional da Microsoft e seus aplicativos, como uma revendedora de valor acrescentado? Bill Gates, seu valentão! Implicando com a pobre e indefesa IBM! Gates realmente fez as pessoas sentirem pena da IBM.
Mas, como diziam em O poderoso chefão, ?Não é nada pessoal, são apenas negócios?.
Usuários domésticos e corporativos de computadores não odiavam Gates ou a Microsoft. Eram neutros ou positivos. Mas o homem foi tão odiado na indústria da computação quanto John Rockfeller quando a Standard Oil estava levando todas outras empresas de petróleo à falência e seu PR sugeriu que ele carregasse moedas no bolso para dar às crianças como forma de parecer agradável. Qualquer um faz amigos, mas é preciso muito talento para fazer tantos inimigos de alto padrão. Por que Bill Gates criou essa lista com inimigos tão influenciáveis?
Foi quando eu percebi. Executivos e empresários sempre conseguem identificar quando alguém é melhor tecnólogo, e os tecnólogos, da mesma forma, identificam quando alguém é melhor empresário. Mas o que irritou todo mundo foi o fato de Gates ser melhor empresário e melhor tecnólogo. A inveja nunca é bonita.
Uma história da Sears
Deixe-me contar uma história. É 1980 e o The Yankee Group, que eu fundei, está fazendo um trabalho de consultoria para a Sears, que acabou de contratar um cara chamado Phil Purcell, da McKinsey, como VP de estratégia. Purcell chegou a uma brilhante conclusão: a Sears seria incrivelmente desafiada na indústria de varejo ? isto numa época em que a Wal-Mart era apenas uma pequena rede de lojas sem valor no Sul.
A força da Sears era vender para a família americana. Nosso insight era que a Sears de 1980 era conhecida por vender coisas como sementes, fertilizantes e mangueiras de jardim, e que, no futuro, você cravaria uma sonda no solo que, conectada a um computador doméstico, apontaria quais nutrientes o solo precisava e enviaria um caminhão da Sears para regar seu jardim com esses nutrientes. Enquanto isso, seu carro se conectaria ao seu PC e te mostraria onde precisava de reparos e agendaria um horário no Sears Auto Care. Você faria compras pelo computador e seu computador seria seu banco.
Purcell sabia que essa revolução envolvendo computadores domésticos e comunicação causaria mudanças drásticas, e ele queria saber quem seriam os grandes jogadores: a indústria de cabos, empresas de telefonia, startups em serviços domésticos?
Purcell pediu que eu levasse essa mensagem para 80 caras da Sears em um lugar chamado Woodstock, Illinois. Purcell e seu chefe sabiam que se os revendedores não entendessem, nada aconteceria.
A reunião foi orquestrada para ajudar os gerentes da Sears a entenderem que alguma coisa estava acontecento.
Purcell ?sugeriu? que eu levasse comigo alguns de meus amigos que iriam liderar essa revolução. Eu convidei Bill von Meister, que estava começando a oferecer acesso aos bancos de dados do The New York Time por linhas telefônicas, um precursor da AOL; Mike Aysan, um tecnólogo da Manitoba Telephone, que fornecia dados a proprietários de casas em algo chamado ?IDA?, uma forma interativa de receber informações e jogos; e Bill Gates, que estava iniciando seu próprio show em Seattle.
Apenas Gates reclamou de vir, alegando que a Sears era a maior entre as Big Iron Bigots, empresas que se ajoelhavam sob o logo da IBM. Eu expliquei a ele que o IBM PC seria lançado em três meses que haveria apenas dois revendedores autorizados nos EUA. Um deles seria a Sears, que estava pronta para investir US$ 500 milhões em uma série de lojas Sears Personal Computer. ?Poderia ser pior do que ter de bajular esses caras?, eu disse para ele.
Com certa relutância, Gates concordou e voou (de executiva, claro) para a reunião, em que ele ?não percebe? o público de grandes revendedores. Todos eles pareciam ser ex-jogadores do Big Ten, com 57 anos e pesando 100 Kg, enquanto Gates tinha 27 anos, magro como uma vareta, falando sem parar, em jargão de informática e balançando o corpo pra frente e para traz como uma criança autista. OK, às vezes essas reuniões não saem como planejadas.
Mas algo deve ter impressionado. A Sears comprou a Coldwell Banker, a maior corretora de imóveis da América e, depois, o Dean Witter, um banco de investimentos regional famoso por ajudar proprietários a investir e gerenciar seu dinheiro, e então se juntou à IBM em um esforço chamado Prodigy, quase uma AOL.
O Prodigy rodava na rede da Sears, que era fornecida pela IBM. Então, a Sears sabia que o mundo estava prestes a mudar. E ela iria se aproveitar de sua rede interna para construir negócios que se conectavam com a casa, com as lojas, Coldwell Banker, Dean Witter, Prodigy e qualquer outra coisa que os investidores pudessem imaginar.
Vinte anos depois, eu visito Purcell, que é hoje CEO da Morgan Stanley. ?Você deve ser o pior consultor que já contratei?, ele me disse. Por quê? ?Quando Gates veio para a reunião, ele tentou vender 20% da Microsoft por US$ 8 milhões para a Allstate Venture Capital [que era da Sears]… e você deixou que nós rejeitássemos a oferta!?
?Phil?, eu respondi, ?é a primeira vez que escuto essa história, mas nenhum de nós sabia o que a Microsoft se tornaria. Mas, deixe-me te ajudar com isso. Se você empilhar notas de US$ 100 a uma altura equivalente aos que valem os 20% da Microsoft, essa pilha chegaria a 100 milhas de altura e o espaço chega depois de 63 milhas?.
Purcell apenas olhou para mim.
Gates teve sorte ou foi esperto de parar. Daqui cinquenta anos, ainda nos lembraremos de Bill (e Melinda) Gates como uns dos mais generosos filantropos de nossa geração. Gates é um vendedor tão bom que conseguiu convencer o segundo homem mais rico, Warren Buffet, a dar dinheiro à Fundação Bill e Melinda Gates. E fez com que Buffet acreditasse que a ideia fora dele! (Na verdade, Buffet conseguiu um bom negócio ? Gates já havia feito o trabalho pesado e construído a organização). Então, juntos, eles convenceram o resto dos milionários a doar metade de suas fortunas depois de mortos. E muitos irão doar.
E todos nós seremos beneficiados. Então, não, eu não odeio Bill Gates. E eu amo a forma como ele recicla sua fortuna para melhorar o mundo. Você também deveria.
