PCN para gringos: continuidade não é só TI

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9:52 pm - 23 de maio de 2011

Tenho participado de processos de seleção para execução de projetos de elaboração e implementação de Planos de Continuidade de Negócios (PCN). Todos em grandes empresas, sendo 95% delas de origem estrangeira – a maioria norte-americana. O que torna esta experiência interessante são as propostas apresentadas pelas empresas que participaram deste processo: 80% delas oferecem PCN para TI, apesar do “request for proposal” da empresa citar a necessidade de garantir a continuidade de seus processoscorporativos.

A desculpa é de que “sem TI não há processo”. Francamente, duvido que alguém diga isso ao PMI (presidencia da empresa), no exterior. Não posso crer em um produto, nestas condições e à necessidade destas empresas; mas não será o meu pescoço a rolar, quando os planos criados mantiveram os bancos de dados Oracle ou SQL no ar, enquanto dezenas ou centenas de usuários ficarem na portaria da empresa, sem saber exatamente o que fazer com isso.

O profissional brasileiro, especialmente aquele do tempo dos mainframes, ainda não entendeu a diferença entre o antigo “Plano de Contingência” e o atual PCN. A maioria dos executivos brasileiros da área de TI não está percebendo o enorme potencial de validação da importância dos componentes mantidos sob sua guarda, quando a matriz “lá fora” avisa que a partir do dia “n” a filial no Brasil deverá ter, no mínimo, iniciado seu processo de garantir a continuidade dos negócios.

Assim sendo, vamos voltar há quase um ano atrás, no dia 11 de setembro, quando dois prédios desabaram no maior e mais ousado ataque terrorista da história. Independente do local onde ocorreu, os impactos acarretados por este evento, desde a comoção humana até a impossibilidade de se manter as atividades corporativas, surpreenderam o mundo dos negócios.

Por um lado, os conceitos de “vulnerabilidades” e de “segurança” foram revistos e se alteraram para sempre. Foi percebido que a continuidade dos negócios – e às vezes da própria empresa – estão muito, muito além das fitas de backup, das salas-cofre e de um site alternativo.

Empresas literalmente deixaram de existir na vida real. Uma delas, a Geral Fitzgerald, perdeu seus 700 funcioários e praticamente sumiu do mapa. Por outro lado, o oportunismo aproveitou a deixa e empresas começaram a insinuar que soluções de “storage” e softwares de gerenciamento de backup era a solução necessária para garantir a continuidade da sua empresa. Eram empresas que trabalhavam com PCN “desde criancinha”.

Pude analisar um proposta de uma das “big five” sobre um processo seletivo para PCN, onde eles enchiam quase 100 páginas de mais pura bobagem, discursando sobre a importância de TI para a empresa e como eles poderiam “documentar” os procedimentos de restauração da área. Isso, permeado pela declaração de que não poderiam realizar os testes de procedimentos, que eram elaborados com base nos usuários. Tampouco se responsabilizavam pelo resultado do trabalho, pois “dependiam do procedimento dos funcionários envolvidos”.

Em momento algum eu percebi interesse em atender às necessidades do bem mais valioso da empresa: seu recurso humano. O DRI (Disaster Recovery Institute) promove anualmente alguns seminários ao longo dos Estados Unidos, para permitir a reciclagem e a troca de experiências entre profissionais do assunto.

Entidade especializada no estudo de eventos e nas possíveis respostas para permitir o funcionamento das empresas em situações de crise, nunca vi nenhum dos consultores apontados nestes processos seletivos em seminários desta entidade (onde participo, pelo menos, de uma reunião por ano).

O executivo brasileiro de TI está “trocando gato por lebre” a ainda acha que está atendendo à demanda do PMI. Não sei, exatamente, quanto tempo o mercado brasileiro que demanda serviços de consultoria em continuidade estará dando espaço para esta confusão se manter. Ao longo de presentações que tenho realizado, em empresas dos mais diversos segmentos, origens e tamanhos, só pude constatar uma condição comum: quanto mais jovem é o executivo (e “jovem” neste segmento, significa estar na faixa dos 35 a 45…), mais identificado com o atual conceito de PCN ele é.

Se a empresa possui origem européia, “bingo” ! Ele sabe exatamente a diferença entre continuidade e contingência. Fico temeroso do resultado que a divergência de conceitos possa acarretar, no futuro de profissionais que levam o trabalho de consultoria em Continuidade de Negócios à sério. Para uma “big five”, parece que neste caso basta mudar de nome. Mas para o consultor profissional, que investe em seu nome e sua carreira, as coisas não são tão fáceis assim…

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