O Cerumano

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11:48 am - 05 de outubro de 2012

Se você reparou no título desta coluna e ainda assim decidiu lê-la, presumo que já saiba que ela nada tem a ver com informática ou qualquer tipo de tecnologia. Não obstante, sendo este um Fórum dedicado essencialmente a tais temas, reitero logo no começo para evitar reclamações daqueles que tiverem a complacência de lê-la até o final esperando que a partir de algum ponto ela venha a se voltar para eles: não vai acontecer. Toda ela será dedicada aos repulsivos hábitos de um estranho animal, um bípede mamífero da ordem dos primatas, animal imperfeito, egocêntrico e predador que, por razões que não consigo entender, “se acha”.

Há alguns anos ? na verdade, muitos anos, lá pela década de setenta do século passado ? li um excelente livro de Desmond Morris, “The naked ape”. Há uma tradução em português, “O macaco nu”, porém presumo que esteja esgotada. Por outro lado, fuçando aqui e ali, encontrei em um sítio russo dedicado a publicações científicas algo que parece uma reprodução do original inglês em formato PDF. Confesso que não a li toda, portanto não posso assegurar que seja fiel. Mas, pelo pouco que dela li, a recomendo a quem tem conhecimento suficiente do idioma. O autor, um zoólogo brilhante com quem compartilho (na verdade, com quem aprendi) muitas das ideias sobre o dito primata, adota uma postura interessante: imagina que um casal da referida espécie, sobre a qual ele finge ignorar qualquer conhecimento prévio, tenha casualmente dado com os costados no jardim zoológico em que trabalha. Para devidamente catalogá-la ele passa a estudar seu comportamento e o livro é um extraordinário relato sobre o que descobriu. Começa por batizá-la. E, considerando que existem 193 espécies de primatas não extintas das quais 192 têm o corpo totalmente coberto de pelos, ao contrário do casal da espécie desconhecida que acabou de receber, decide batizá-la de “macaco nu” – de onde deriva o nome do livro. Nesta coluna nos referiremos a este mesmo animal como “cerumano”.

O que Morris fez é um simulacro do ramo da biologia denominado “etologia”, ou “estudo do comportamento social e individual dos animais”. E conheço poucas coisas mais estranhas do que o comportamento social e individual do cerumano. Senão vejamos.

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Afirmam os antropólogos que os primeiros exemplares da espécie surgiram há 195 mil anos no extremo sul do continente africano. De lá eles povoaram a África de onde, há cerca de setenta mil anos, atravessaram o Mar Vermelho e, pela costa da Arábia, atingiram a Ásia. Dali se espalharam: para o sul, povoaram a Oceania, para oeste, há cerca de quarenta mil anos, ocuparam a Europa, e há cerca de quinze mil anos, atravessando a pé um Estreito de Bering congelado por mais uma glaciação, penetraram nas Américas pelo norte, infestando assim todo o planeta Terra.

Planeta que nasceu há cinco bilhões de anos.

Animais superiores

Agora vamos lá: estique seu braço na horizontal e imagine que seu comprimento do ombro até a extremidade da unha do dedo médio de sua mão espalmada, represente uma linha do tempo onde são marcados os fatos relevantes da evolução do planeta Terra. Imagine ainda que você considere o aparecimento do primeiro cerumano como um destes fatos relevantes e marque sua posição nesta linha do tempo medindo, a partir da extremidade da unha do dedo médio, um comprimento que represente proporcionalmente os últimos 195 mil anos.

Muito bem. Agora, pegue uma lixa de unhas destas bem grossas e execute uma única “lixada” na unha do dedo médio. Uma só, e nem precisa ser muito forte. Basta ser suficiente para raspar metade de um décimo de milímetro do comprimento da unha. Uma coisica de nada.

Feito?

Pois bem, levando em conta o conceito de “linha do tempo”, você acabou de remover da história do planeta Terra todos os vestígios da existência do cerumano. Nada restou. E só com uma lixadinha de unha…

Não obstante isto este animal cheio de si acha que o planeta no qual, historicamente, chegou agorinha mesmo, foi criado exclusivamente para seu desfrute e gozo e se considera dono dele. “Chegou agora e já quer sentar na janela”, como diria o Romário, futebolista que exibia um péssimo caráter até a vida lhe dar uma lição de humildade que o transformou em um deputado federal bastante atuante nas questões relativas à inclusão social de pessoas portadoras de deficiências.

Acha que estou equivocado? Então pense um pouco. Quem classifica as espécies vivas é o próprio cerumano. Que de tão presunçoso que é, ao distribui-las de acordo com o critério de “superiores” e “inferiores” estabelecido por ele próprio, se coloca no topo da pirâmide e encaixa os insetos perto da base. No entanto os carrapatos já perambulam pelo planeta há cem milhões de anos e a Periplaneta é um dos poucos gêneros que sobreviverá a qualquer tipo de catástrofe que atinja o planeta, inclusive doses maciças de radiação.

Ah, não conhece a Periplaneta? Se engana. Conhece, e bem. É a barata comum, um animal que existe em todo planeta, resiste às condições ambientais mais desfavoráveis, mede poucos centímetros e é praticamente inofensivo mas que, apesar disto, tem um mecanismo inato de defesa que a faz induzir tamanho medo no próprio cerumano ? inclusive nos machos da espécie, embora finjam que não ? que os faz correr para longe em vez de esmagá-la simplesmente pisando nela (olhe para a Figura 2 e veja se não lhe inspira uma vontade difícil de resistir de se afastar dela).

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E o cerumano acha que o “superior” é ele. Mude o critério para algo mais eficaz para a espécie, como por exemplo: “superior é a espécie que tem capacidade de sobreviver a hecatombes preservando seu material genético” e veja quais são aquelas efetivamente superiores…

Mas a presunção não para por aí. Pois como, além de classificar as espécies, é ele que as “batiza”, o cerumano escolheu para a sua o nome Homo sapiens sapiens. Ou seja, se acha tão sabido que, não lhe bastando um “sapiens”, recentemente acrescentou mais um.

Pois este bicho vaidoso e imperfeito se acha dono do planeta onde desembarcou ainda ontem e não se dá conta que, do ponto de vista da conservação ambiental, se comporta como uma praga.

Salvando o planeta

Há algum tempo tive a oportunidade de assistir uma série do History Channel denominada “Life after people” (em português, “O mundo sem ninguém”). Se a memória não me falha, foram diversos episódios. Mas o que me parece ser um resumo da série com cerca de hora e meia de duração pode ser visto (dublado em português) no You Tube. Sugiro veementemente que o assistam. Não se trata daquele tipo de documentário sobre desastres de âmbito planetário que destroem a Terra ou parte da vida nela. É algo muito mais singelo e inteligente: uma simulação do que ocorreria ao longo dos próximos milênios caso o cerumano simplesmente desaparecesse. Sumisse. Evaporasse.

Assista o filmete com olhos de “ecologista” (as aspas definitivamente não pretendem ofender os profissionais da área de ecologia, elas simplesmente se dirigem a estas pessoas, geralmente senhoras que já criaram os netos, não têm muito que fazer e são demasiadamente preguiçosas para se dedicar a alguma atividade produtiva e passam a adotar a qualificação de “ecologista” após decidirem “salvar o planeta” geralmente orientadas por pessoas mal intencionadas, com algum conhecimento técnico e científico e grande dose de má fé, que se aproveitam da ignorância técnica das referidas senhoras e outros indivíduos igualmente bem intencionados para usá-los como massa de manobra na defesa de seus próprios interesses, alguns escusos; estes falsos “gurus” são fáceis de identificar pela frequência com que aparecem na televisão dando entrevistas que servem para inflar o próprio ego, aumentar sua popularidade e alicerçar sua credibilidade ? não necessariamente nesta ordem ? sempre criticando o trabalho alheio e defendendo soluções mirabolantes para problemas ambientais causados pelo próprio cerumano; e muitos deles fazem disto seu meio de vida).

Assista o filmete com atenção e repare como, na ausência da espécie predatória, o ambiente se recupera dos danos por ela causados, como as florestas pouco a pouco retomam o que já lhes pertenceu invadindo as cidades e os cultivares, como o planeta se enche de vida e as demais espécies vicejam. Perceba como, claramente, o planeta Terra vai se transformando aos poucos, como um organismo que convalesce de uma doença até o completo restabelecimento. Qualquer pessoa de inteligência mediana que assista o filmete chegará a uma conclusão inevitável: a forma mais eficaz de “salvar o planeta” é extinguir a espécie humana, já que sem ela o planeta vai muito bem, obrigado. E não fui o único a me dar conta disto, como se percebe examinando a Figura 3, uma reprodução de um destes adesivos de para-choques (“bumper stickers“) usados nos EUA e obtida no sítio Zazzle.

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Mas não é isto o que dizem os “ecologistas”. Para eles, “salvar o planeta” é alterar o meio ambiente de forma a torná-lo mais adequado justamente à sobrevivência do cerumano. Quer dizer: agem como se o planeta fosse de sua propriedade e que tivesse sido criado exclusivamente para servir de suporte justamente à vida de uma espécie que o devasta. Em linguagem simples: o cerumano considera que o planeta é seu, que pode fazer dele o que bem entender, inclusive transformá-lo adaptando-o às suas necessidades e anseios. E a isto chama de “salvá-lo”. Quando vejo uma pobre e inocente criança plantando uma árvore no quintal de sua escola, no centro de uma área densamente urbanizada, dizendo que faz aquilo para “salvar o planeta”, tenho vontade de chorar…

Um bicho gregário

Mas vamos adiante que ainda não cheguei ao ponto que me motivou a escrever esta coluna. Vejamos como o cerumano se comporta em relação a seu semelhante.

Em princípio, o cerumano é gregário. Ele tende a se agrupar e conviver com outros cerumanos. O que, aparentemente, é uma atitude positiva. Pelo menos assim parece até vermos como se comportam esses grupos em relação uns aos outros, sejam turmas, gangues, torcidas de futebol, compatriotas, seitas religiosas ou seja lá qual for o tipo ou porte do grupo.

Eles parecem se odiar.

Vejamos. No Rio Grande do Sul os naturais da cidade de Rio Grande nutrem um notório desprezo pelos da vizinha Pelotas, que retribuem o sentimento. Mas se unem com os habitantes das demais cidades gaúchas quando se trata da antipatia que devotam aos paulistas, que a devolvem com sobras. Porém gaúchos e paulistas, assim como os nativos dos demais estados brasileiros, se põem de acordo quando se trata de repudiar os argentinos que, como os paraguaios, retribuem o sentimento classificando os brasileiros de “macaquitos” (veja Figura 4, publicada no jornal paraguaio Centinela em 1867 e obtida no sítio Pirata dos Sete Mares). O que, naturalmente, não impede que argentinos, brasileiros, paraguaios e cidadãos dos demais países latino-americanos cultivem um sentimento misto de inveja e repúdio aos grandes irmãos do norte, que por sua vez devotam aos primeiros um indisfarçável desprezo, classificando-os de “cucarachos”. E os habitantes das Américas…

Ah, deixa pra lá, está ficando cansativo…

Figura 4: Los macaquitos Tamandaré, Pedro II e Polidoro

Menos mal seria se pelo menos cultivassem seu ódio em silêncio. Mas não: cedo ou tarde a coisa explode. Uma situação exemplar foi o que ocorreu na antiga República Socialista da Iugoslávia, onde sérvios, croatas, montenegrinos, bósnios e macedônios foram mantidos unidos por algumas décadas pela mão de ferro e pelo sorriso sedutor do Marechal Tito. Após sua morte, em 1980, foi o que se viu: uma série de conflitos explosivos entre vizinhos, com chacinas, genocídios e exemplos de crueldade inaudita que acabaram despedaçando o país em seis repúblicas e ceifando centenas de milhares de vidas de inocentes.

E o pior é que esta é a regra, não a exceção. Tanto quanto é do meu conhecimento, jamais se passou um único minuto na história da humanidade sem que um grupo não estivesse em conflito com outro. Conflitos que variam de escala desde a disputa localizada por territórios entre tribos indígenas até conflagrações mundiais como as duas grandes guerras do século passado. E a guerra da Coreia. E a do Vietnã. E a do Yom Kippur. E a do Golfo. E a que hoje assola a Síria. Além de dezenas de outras das quais mal ouvimos falar: há países africanos que se mantêm há décadas em estado de guerra e ninguém se importa sequer em divulgar. Ou seja: não há um só minuto em toda a história conhecida da humanidade em que em algum lugar do planeta um cerumano não estivesse se dedicando com empenho à cruel missão de tirar a vida de outro.

E olhe que vou deixar de lado os conflitos de fundo religioso. Mesmo porque me recuso terminantemente a discutir este tipo de questão já que é impossível argumentar contra a fé. Mas não posso deixar de mencionar que, para mim, a expressão “matar (ou morrer) em nome de Deus” jamais fez sentido. Parece-me o paradoxo máximo. Como tirar uma vida justamente em nome de algo que prega o mais absoluto respeito a ela? Mas, como mencionei acima, trata-se de uma questão de fé, que não aceita argumentação. Quando penso nela me vem à mente uma citação de Richard Dawkins na última edição comentada de seu excelente livro “The selfish gene”: “But what, after all, is faith? It is a state of mind that leads people to believe something ? it doesn?t matter what ? in the total absence of supporting evidence. ? faith seems to me to qualify as a kind of mental illness. It leads people to believe in whatever it is so strongly that in extreme cases they are prepared to kill and to die for it without the need for further justification” (Mas, afinal, o que é fé? É um estado de espírito que leva as pessoas a acreditar em algo ? não importa no que seja ? na ausência total de qualquer evidência que o comprove. … a fé me parece se qualificar como um tipo de doença mental. Ela leva pessoas a acreditarem seja lá no que for tão intensamente que em casos extremos elas estão preparadas para matar e morrer por isto sem a necessidade de qualquer justificativa adicional). Note que estou apenas citando Dawkins e, como disse antes, me recuso terminantemente a discutir assuntos de fundo religioso, portanto comentários sobre este tema serão solenemente ignorados. Quem quiser arguir o assunto sugiro uma visita ao sítio da Richard Dawkins Foundation for Research and Science, criada por ele para, entre outras coisas, sustentar este tipo de discussão. Incidentalmente: cultivo opinião semelhante sobre o conceito de “patriotismo”. Dia desses li em algum lugar uma frase que coincide com minha opinião sobre tal sentimento: “Na guerra o importante não é morrer por seu país. É fazer com que o adversário morra pelo dele”.

O instinto homicida

O que nos leva, afinal, ao mote que me levou a escrever esta coluna: o homo sapiens sapiens, apesar de se achar sabido, é uma espécie tão predatória que, tanto quanto eu tenha conhecimento, é a única capaz de matar seu semelhante por motivos banais ou até mesmo sem qualquer motivo além do prazer que sente com isto.

Não que membros de outras espécies deixem de lutar ente si. Lutam. Mas, na imensa maioria das vezes, por uma dentre duas razões: machos disputando o privilégio de acasalar com fêmeas (veja Figura 5, obtida no sítio Heavy) e grupos defendendo seu território. Mas em ambos os casos são levados à disputa por irresistíveis compulsões de origem genética. No primeiro trata-se de selecionar o mais apto: o vencedor do embate, em princípio, é o melhor apetrechado para gerar prole, portanto a luta é um mecanismo natural para aprimorar o “pool” de genes da espécie. No segundo, trata-se de garantir a sobrevivência: grupos de indivíduos ligados a um território dependem dos recursos naturais deste território. Deixá-lo ser invadido por outro grupo é correr o risco de desaparecer por privação de meios de sustento. Portanto a luta visa a própria sobrevivência do grupo.

Figura 5: Ursos em luta

Pois bem: ainda assim, com exceção do cerumano, quando indivíduos da mesma espécie se envolvem em qualquer tipo de luta, raramente ocorrem vítimas fatais. Em geral o resultado do embate se resume ao derrotado abandonar a liça com o rabo entre as pernas e alguns ferimentos dos quais o mais grave é no amor próprio. Mortes, nestes enfrentamentos, são raríssimas, se é que ocorrem.

Já o cerumano…

A Wikipedia tem um tópico que me faz sentir repulsa quando o leio. Trata-se do “List of wars and anthropogenic disasters by death toll” (Relação de guerras e desastres antropogênicos por número de vítimas fatais). Quem gosta de assuntos lúgubres que o leia. Melhor, porém, é se restringir aos números abaixo, que talvez lhe surpreendam.

O número de mortos na segunda grande guerra é estimado entre quarenta e setenta e dois milhões. Nas conquistas mongólicas do século treze foram mortas entre trinta e sessenta milhões de pessoas (proporcionalmente à população do planeta, muito mais que na segunda grande guerra). Na segunda guerra do Congo, ocorrida há pouco mais de dez anos e da qual provavelmente você sequer ouviu falar por ter sido pouco noticiada, houve entre quatro e cinco e meio milhões de vítimas fatais.

Mas não são apenas as guerras, há também os genocídios, mais assustadores porque covardes (nas guerras ao menos os adversários pode se defender; nos genocídios, as mortes são só de um lado). Vou deixar de lado, por polêmico, o Holocausto, onde se estima que foram sacrificadas entre quatro e dezessete milhões de pessoas. Mas você sabia que, no início dos anos trinta do século passado, entre dois e meio e oito milhões de ucranianos foram levados propositalmente à morte por inanição em um genocídio conhecido por Holodomor? Que entre dois e cem milhões de nativos foram sacrificados durante a colonização das Américas pelos europeus?

A relação da Wikipedia é impressionante e inclui ainda as vítimas de campos de concentração e sacrifícios rituais (além de alguns desastres naturais, mas estes não foram provocados pelo cerumano). Eu não somei ? me falta estômago para tanto ? mas simplesmente passando a vista pela relação conclui-se que mais de um bilhão de pessoas foram mortas propositalmente por outras pessoas pelos motivos mais estúpidos.

É o cerumano matando o cerumano.

Por que este fenômeno ocorre em tão gigantescas proporções?

Não consigo explicar, mas me parece uma característica do cerumano. Há algum tempo tomei conhecimento que, em São Paulo, um jovem que esperava um ônibus na calçada envergando a camisa de seu clube foi alvejado mortalmente por um grupo de mentecaptos de uma torcida rival que passava em um carro por ser considerado “inimigo”. No Rio, “brigas de torcida” estão se tornando comuns. Pior: ao que parece são agendadas e não raro terminam com vítimas fatais. Ou seja: torcer por outro clube já se tornou razão para cometer um homicídio. E não é só no Brasil. Estão aí ? ou lá, felizmente ? os “hooligans” britânicos que não me deixam mentir.

Mas o fato que efetivamente me levou a publicar estas ponderações foi um crime brutal, hediondo e repulsivo ocorrido recentemente na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro (eu quase qualifiquei o crime como “selvagem” mas me dei conta que as espécies animais que vivem nas selvas jamais praticariam um ato tão cruel).

Pois ocorre que um grupo de seis jovens no final da adolescência, todos estudantes ou trabalhadores, todos membros de famílias humildes e honestas, todos queridos na comunidade onde viviam, decidiram fazer um dos poucos programas dominicais que estava ao alcance de seus parcos bolsos: tomar um banho de cachoeira em uma reserva natural não muito distante de suas residências.

No dia seguinte seu corpos foram encontrados, com marcas de tortura, à beira de uma via pública.

Foram covardemente torturados e assassinados.

Por que?

Ao que tudo indica os rapazes, inadvertidamente, cruzaram uma região onde ainda prevalecem os integrantes de certa facção criminosa. E um dos jovens, em seu telefone celular, tinha gravada uma música ? na verdade não era exatamente uma música, era um funque (e não me venham dizer que a grafia está errada, eu falo e escrevo em português) ? que tecia elogios a uma facção rival. Atenção: note que os jovens, comprovadamente, não eram membros de facção alguma, apenas um deles tinha a tal peça gravada em seu celular.

Segundo as autoridades policiais este foi o motivo para que um cerumano tomasse a decisão de ordenar a tortura seguida da morte dos seis jovens.

Diante disto, eu não tenho muito que dizer. Ou fazer. A coisa me parece demasiadamente estúpida. No máximo posso propor a mudança do nome da espécie sugerindo aos biólogos, antropólogos, taxonomistas ou seja lá quais forem os responsáveis pela designação das espécies, que o Homo sapiens sapiens seja doravante denominado de Cerumanus stupidus stupidus. E continuar estrilando quando me deparar com um absurdo como o que acabei de descrever.

Nesta altura dos acontecimentos talvez algum leitor pense que esta coluna não tenha sido escrita por um cerumano. Ou que eu, embora o sendo, me considere “melhor que os outros”. Não é o caso. Sou um cerumano nem melhor nem pior que os demais. Padeço dos mesmos instintos homicidas ? que, no entanto, consigo controlar ? diante de grupos de pagode, cantores de funque, indivíduos que deixam os telefones celulares ligados em teatros e cinemas e que quando os atendem em público falam alto para que todos os circunstantes percebam como ele é importante. E, sobretudo, sinto intensa compulsão de eliminar do rol dos vivos pessoas que costumam recorrer à frase “Você sabe com quem está falando?”. Portanto sou um cerumano como qualquer outro, sujeito às suas fraquezas e defeitos. Afinal, somos da mesma espécie.

A diferença é que sinto uma profunda vergonha de pertencer a ela.

B.Piropo

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