Nuvem: uma questão de conhecimento?

Há alguns anos, quando cloud computing ganhou destaque no mundo da tecnologia, soava pelos quatro cantos uma grande preocupação dos CIOs e das empresas como um todo: segurança. Por muito tempo, esse foi o principal argumento para dizer não à uma implantação de nuvem e não importava qual era a proposta: uso do formato privado ou público, virtualização de aplicações críticas ou, simplesmente, a criação de um ambiente de teste. Mas as coisas mudaram e é cada vez maior o número de companhias que rodam seus sistemas dentro deste modelo. Mas ainda há uma barreira que atrapalha muito na visão de diversos especialistas: falta de conhecimento.
Em debate que reuniu executivos ligados a projetos de implantação do modelo de nuvem em empresas de variados setores, ninguém rechaçou a tecnologia em si ou levantou a bandeira da segurança. A educação dos usuários ? incluindo representantes do C-level ? parece, hoje, ser um dos grandes empecilhos para esse tipo de projeto. A conversa aconteceu durante o primeiro dia do VMworld, principal evento anual da VMware, que reúne mais de 20 mil pessoas em San Francisco (EUA).
?Convencer as pessoas na empresa de que seus artigos estariam na nuvem foi complexo e apelei para o fato de não ser gratuito. Não é iCloud. Compramos serviços e diversas coisas. Você paga para ter esses serviços, são mais baratos que ter em casa, mas é a questão da capacidade e da escala e pagaremos pelo uso. Essa educação foi um ponto chave?, comentou Bryan Bond, administrador de sistemas na eMeter, uma companhia do grupo Siemens.
De acordo com o executivo, chegaram a comparar o modelo de nuvem corporativa com blog e até questionaram o porquê de pagar por algo que, teoricamente, se consegue de graça, como sistemas de virtualização. ?Mas eles não sabem o tempo gasto no provisionamento de software e educar sobre a complexidade é fundamental?, entende. Bond liderou um projeto para dar mais escala à infraestrutura da empresa e permitir que funcionários ao redor do mundo compartilhassem um ambiente de teste e desenvolvimento. Além da agilidade, aderir ao modelo de nuvem garantiu economia de recursos, já que a TI não precisa mais comprar hardware para ampliar os lançamentos.
Até na Alemanha
Quem também encontrou dificuldade de convencimento e credita isso à falta de conhecimento é o CIO da Lufthansa Systems AG, Joerg Liebe. O projeto liderado por ele ? ainda em fase de validação final ? consiste em levar para a nuvem um sistema de programação de voo baseado em mapeamento, ou seja, a aplicação de mapas que os pilotos de avião utilizam e que recebe atualizações constantemente. Quando pensou em cloud computing, lembra o executivo, perguntaram por que ele não fazia um modelo de colocation e um dos pontos que ele usou na argumentação foi a escala da nuvem. ?Éramos provedores e da forma tradicional, mas depois eles entenderam.?
Para o CIO, esse sistema de navegação de pilotos é um dos projetos mais importantes da companhia envolvendo nuvem, até porque, também inclui a mobilização do conteúdo, uma vez que a aplicação já vinha rodando em tablet. ?Temos atualizações constantes nesses mapas e elas precisam ser comunicadas aos pilotos mais que imediatamente?, lembrou. Ao levar o sistema para cloud, ele permitiu distribuir e localizar os downloads, além de compartilhar banda, combatendo uma grande queixa dos usuários: demora em baixar e latência para chegada da informação. Além disso, Liebe manteve a integridade dos dados. O programa está estabelecido e os testes rodaram com sucesso.
O fato é que além de serem estratégicos, os CIOs ? e isso não é de hoje ? precisam ser bons de apresentação. Não adianta levar a tecnologia pela tecnologia, por mais que o investimento seja extremamente necessário ao negócio. É necessário, mais que o escopo do projeto e o cálculo de ROI, uma apresentação que contemple o menor conteúdo técnico possível e mais o objetivo final. O usuário não quer muito saber se é nuvem pública ou privada, se está virtualizado com VMware ou se utiliza infraestrutura Amazon. O que ele deseja e quer é entender se a caixa postal do email terá mais espaço, se a aplicação deixará de travar e se as atualizações serão mais ágeis.
Como lembrou Paul Strong, CTO e líder de iniciativas da VMware, que mediou a conversa, no caso da nuvem, a questão não é a tecnologia. ?Mas o modelo de aquisição e consumo de TI, esse é o diferencial da computação em nuvem, o ponto é tudo como serviço e com escala, mitigação de risco. Esse modelo de aquisição torna a organização de TI diferenciada, ela deixa de ser commodity. Antes, mudança era risco, hoje, colocamos sob o ponto de vista do negócio, sobretudo, a entrega e a facilidade de pagamento. Tem que discutir o valor para o negócio.?
*O jornalista viajou a San Francisco a convite da VMware
