É possível expandir e ser sustentável? O paradoxo dos data centers no Brasil

Em meio a discussões sobre regulamentação e crise energética, setor luta para chegar em consenso sobre os próximos passos no País

Author Photo
5:32 pm - 08 de junho de 2026
Da esquerda para a direita, COO da Ascenty, Rodrigo Radaieski; presidente da Equinix no Brasil, Victor Arnaud; e Vitor Caram, diretor de expansão Latam da Odata (Imagem: divulgação/reprodução LinkedIn)

Inteligência artificial (IA), processamento e treinamento de dados, estes são alguns dos elementos mais falados quando se desenha o futuro no setor de tecnologia. Por trás deles, seja em nuvem ou on-premise, grandes estruturas serão as responsáveis por tornar tudo isso possível: os data centers. No Brasil, as infraestruturas são vistas como uma forte oportunidade para impulsionar a economia do País e colocá-lo no centro do mapa da tecnologia, tanto pelo Governo quanto pelo mercado.

Em maio de 2025, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apresentou durante a 28ª Conferência Global do Instituto Milken, em Los Angeles, a Política Nacional de Data Centers brasileira. Em setembro do mesmo ano, o Redata, Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, iniciou sua tramitação, sendo instituído por medida provisória (MP) até caducar em fevereiro deste ano.

Até novembro do ano passado, segundo relatório da Cargoson, o país possuía 197 data centers, sendo o de maior número da América Latina.

Apesar da empolgação, a discussão em torno da instalação das chamadas fazendas digitais ainda exalta ânimos e provoca polêmicas. No último dia 21 de maio, moradores do Vale do Paraíba protocolaram uma representação junto ao Ministério Público de São Paulo questionando a instalação de um data center em Pindamonhangaba. O empreendimento, anunciado em abril pela Riverhook Village 18, teria um investimento de R$ 5 bilhões e uma capacidade inicial de 150 MW, com possibilidade de expansão para até 300 MW.

O documento apresentado por membros da sociedade civil pede esclarecimentos sobre o processo de licenciamento ambiental, a realização de estudos técnicos prévios e a divulgação pública dos impactos socioambientais e urbanísticos do projeto, e aponta preocupação com a falta de informações públicas detalhadas sobre a estrutura societária da empresa responsável pelo investimento.

O caso não é isolado. No Ceará, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União recomendaram adequações ambientais no licenciamento do chamado “Data Center Pecém”, associado ao TikTok. O projeto inicial foi enquadrado no grupo de construção civil, onde também aparecem estruturas como kartódromos.

No Rio Grande do Sul, a instalação de um data center anunciada pela Scala Data Center também vem gerando debate público. Apesar das promessas de geração de 3 mil empregos diretos e indiretos na primeira fase de construção, o investimento de R$ 3 bilhões da companhia não foi bem recebido por moradores locais, que souberam da construção poucos meses depois das enchentes que devastaram o estado.

O incômodo presente nestes e em outros casos que ocorrem ao redor do País é o mesmo: o aparente distanciamento das empresas e do Governo em relação a alguma letra da sigla ESG (Ambiental, Social e Governança, em tradução livre). No quesito ambiental, as maiores preocupações se encontram no consumo de energia e de água, o que levanta a questão: mesmo sendo essenciais para o futuro da tecnologia, seria possível utilizar e escalar estas infraestruturas e ainda assim ser sustentável?

Soluções atuais

O caminho percorrido pelo mercado tem sido o de buscar novas formas mais sustentáveis de dar suporte aos data centers. Soluções como liquid cooling e a busca por fontes de energia de matriz renovável são o novo “hype” dentro do setor. Na Europa, por exemplo, a Equinix tem reaproveitado o calor gerado por suas máquinas para aquecer outras partes da cidade, como hospitais, shoppings, ou infraestruturas mais complexas como o estádio das Olimpíadas em Paris, em 2024. “Temos um contrato de 15 anos para reduzir em mais de 2 mil toneladas a emissão de carbono da vizinhança”, comenta o presidente da empresa no Brasil, Victor Arnaud.

No Brasil, onde o calor não é um problema, a companhia tem buscado reaproveitar a água das chuvas e utilizar sistemas de água fechados, nos quais o consumo das máquinas é o mesmo das áreas administrativas da organização. Para o executivo, esse tipo de solução localiza os problemas ambientais, algo que deveria ser adotado por toda a indústria. “Se a abordagem de sustentabilidade não for localizada para cada região, ela não vai ser bem-sucedida”, enfatiza.

A solução também é utilizada por outras grandes do setor, como a Odata Data Center e a Ascenty. “O consumo de água anual do maior data center da América Latina é de 16 residências. E isso porque nós temos cerca de 100 postos de trabalho neste prédio”, afirma Rodrigo Radaieski, COO da Ascenty, em relação ao Vinhedo 2.

O executivo afirma que as questões ambientais e regulatórias são uma preocupação constante da companhia. No entanto, para ele, o próprio mercado irá se regular nesse quesito no futuro.

“Nós nos preocupamos desde o início com a questão ambiental, porque a sustentabilidade e o desenvolvimento precisam caminhar juntos. Mas os nossos clientes, as grandes empresas de tecnologia, também têm um nível alto de exigência nesse sentido, e eles também esperam que a gente atinja esses níveis. E isso faz com que o mercado seja autorregulado por esses clientes e fornecedores.”

Leia mais: Agentes de IA vão dar “superpoderes” a profissionais de TI, diz DJ Sampath, da Cisco

A visão está embasada na própria experiência, já que, segundo ele, a Ascenty realiza monitoramento rigoroso de toda a sua cadeia de suprimentos para que fornecedores se enquadrem em práticas sustentáveis de geração e consumo de energia.

A opinião vai na direção contrária à de Arnaud, da Equinix, que acredita que adequar-se às medidas demandadas atualmente não será suficiente. Apesar de se manter cético em relação à escala que os empreendimentos podem chegar pelas projeções de demanda de IA, para o executivo as empresas precisam ir além de certificações como LEED, BREEAM, ISO 50001 e ISO 14001.

“Em teoria, se eu tornar o meu data center eficiente na utilização de energia e refrigeração, já fiz o meu papel. Mas temos que trabalhar com metas de longo prazo, porque temos em mãos um desafio de ordem de grandeza significativa, e não só para a indústria de data centers, mas para todas as indústrias que têm que ter esse tipo de compromisso”, enfatiza.

O presidente se mostra otimista em relação ao futuro. Olhando para os avanços da própria Equinix nos últimos dez anos, desde o primeiro relatório de sustentabilidade publicado, Arnaud acredita que os maiores desafios estão ligados à conscientização da indústria como um todo e da sociedade civil. O processo passaria por maior transparência das próprias empresas de data center para que os problemas reais sejam debatidos.

“Enquanto a gente não divulgar informação suficiente, as pessoas não vão entender que o padrão baseline do mercado não é suficiente para atingirmos as metas de sustentabilidade em 2030 e 2040. Mas a conversa evoluiu nesses últimos dez anos, o que me deixa otimista. Não vai ser fácil, porque temos um mundo cada vez mais polarizado, mas temos que continuar puxando a discussão.”

Expansão da conversa

Para o diretor de expansão Latam da Odata, Vitor Caram, o maior problema se encontra na falta de diálogo entre as partes envolvidas na instalação dos data centers. O executivo vê a atual discussão como polarizada, o que impediria uma resolução objetiva dos conflitos. “As pessoas que têm mais aversão à discussão de data center não têm se sentado à mesa para conversar, e muitas vezes são elas quem poderiam contribuir mais para uma discussão produtiva. As agendas atuais são mais políticas, e em um país continental como o nosso, isso torna a evolução da conversa mais difícil”, pontua.

Segundo o diretor, a Odata tem trabalhado com as autoridades do setor elétrico, como o Ministério de Minas e Energia, para evoluir e educar o setor. No entanto, em abril de 2025, uma reportagem publicada pelo Intercept mostrou que o Ministério do Meio Ambiente não foi convocado para nenhuma das discussões sobre a criação do Redata, evidenciando a polarização comentada.

Caram acredita que a instalação de um novo data center exige disposição das empresas em percorrer o caminho, uma escolha não feita por muitos.

“É uma questão de percorrer o caminho mesmo, batendo nas portas e discutindo. Porque a educação também é uma via dupla. Às vezes você acredita que um produto faz todo sentido para aquela comunidade, mas quando ouve o outro ponto de vista, tem que voltar para dentro de casa e refazer. É preciso respeitar onde você está chegando”, defende Caram.

No Rio Grande do Sul, a infraestrutura anunciada pela Scala Data Center não chegou a ser informada a seus futuros vizinhos, a comunidade indígena Tekoa Pekuruty, do povo Mbyá Guarani. Em maio de 2025, a coordenação regional sul do Conselho Indigenista Missionário acionou o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União para que fossem tomadas medidas para obter mais informações sobre o projeto, tanto em relação ao diálogo com a comunidade quanto às próprias licenças ambientais na região. A empresa não respondeu ao pedido de entrevista do IT Forum para esta reportagem, mas o caso abre outro entrave tanto para as empresas do setor quanto para entidades ambientais: a regulamentação.

O limbo da regulamentação

Anunciado em setembro do ano passado, o Redata prometia solucionar diversas dessas dúvidas, presentes tanto para executivos quanto para a sociedade civil. A medida, no entanto, caducou em fevereiro deste ano ao não ser votada a tempo no Senado. Desde então, o assunto não foi retomado de forma significativa pelo Governo. Enquanto isso, os data centers seguem sem classificação oficial na lei, permitindo que cada estado se adeque à necessidade sob demanda.

Em maio de 2025, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) do Rio Grande do Sul aprovou uma resolução que cria o ramo de atividade específico para data centers. No caso do estado, as infraestruturas são vistas como de médio impacto. A nova norma também define que projetos de até 20 MW de capacidade serão licenciados pelos municípios. Para capacidades superiores, o licenciamento fica sob responsabilidade do estado.

Em nível nacional, a deputada federal Duda Salabert, do PDT de Minas Gerais, apresentou um projeto de lei que propõe criar a Política Nacional de Eficiência Energética e Sustentabilidade Socioambiental para Data Centers, que traria maior transparência sobre o consumo hídrico e energético dos empreendimentos. A proposta ainda aguarda avaliação da Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados.

Para os executivos entrevistados, a incerteza diante do tema é o que mais prejudica os avanços do setor em todas as frentes. Para Radaieski, COO da Ascenty, é a aprovação de projetos como o Redata que pode, inclusive, mudar o jogo para as entidades ambientais, já que isso permitiria mais pesquisas no campo.

“O que vimos com o Redata era uma tentativa de que a redução de impostos para os clientes de data center, os 2% a 3% de isenção fiscal, fosse reinvestida em inovação tecnológica dentro do país.”

Caram concorda. Na visão do diretor, são as bases bem construídas que possibilitarão as melhorias do futuro. “Sempre existe espaço para melhora, você vai sempre melhorando. Mas com boas bases sólidas, é possível que o Brasil vire uma referência global em inovação, tecnologia e sustentabilidade. Acredito que realmente temos essa vocação como País.”

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

Author Photo
Bella Winckler Matrone

Bella Winckler Matrone é repórter do IT Forum. Formada em jornalismo pela PUC-Campinas, desde 2018 se dedica a pautas ligadas à temas ESG, com forte ênfase ambiental. Possui passagens pela TV Record e assessorias de imprensa de instituições como a CUFA (Central Única das Favelas) e a Garena, com o jogo Free Fire. Atua no IT Forum, cobrindo tecnologia e inovação, desde 2024.

Author Photo

Newsletter de tecnologia para você

Os melhores conteúdos do IT Forum na sua caixa de entrada.