Ser Mulher em Tech: projeto vai além de mentoria técnica para mudar vida de mulheres

Executivas voluntárias falam sobre como fazer meninas acreditarem em seu potencial pode mudar o mercado

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8:30 am - 08 de março de 2024
Ana Dividino, Elisabete Waller e Silvana Fumura, falam sobre o Ser Mulher em Tech

Em 2016, algumas mulheres se reuniram para apoiar o mercado de tecnologia. O resultado foi a criação da Associação Ser Mulher em Tech (SMT), que já impactou mais de quatro mil mulheres, conta com 110 voluntariadas, mais de 150 mentoradas, quatro ONGs beneficiadas e mais de cinco programas de mentoria.

Ana Dividino, uma das voluntárias do projeto, conta que começou sua jornada com elas em 2020 como mentora. As mentoradas são mulheres em mudança de carreira, ou que estão desanimando do mundo de TI ou iniciando sua carreira. Não tem limite de faixa etária, mas é preciso se cadastrar para a seleção.

“Os pilares do projeto são o programa de mentoria, o programa Inspirar (focado em escolas públicas e ONGs) e, agora, estamos desenhando um programa para mulheres com mais de 45 anos para desenvolver uma estratégia de apoiar mulheres de TI que estão no fim de jornada como CIO e não estão se recolocando ou em breve terão que se aposentar”, explica Ana.

Em 2023, o SMT contou com 42 mentoradas e 31 mentoras. Mas o desejo é ir além: ter 60 mentoras e mentorar ao menos 80 mulheres. “Nós tivemos mais ou menos 250 inscrições para mentorias e tivemos que fazer essa triagem. Tem muita gente buscando um apoio na jornada profissional”, revela Ana.

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Entretanto, esse caminho não é tão fácil. Ana destaca que o SMT está em uma procura constante por CIOs e executivas de TI para se voluntariar porque as meninas querem saber mais sobre tecnologia e a sua carreira.

“Eu vejo que as mentoradas estão aproveitando a mentoria e estão se posicionando melhor. Elas aprendem a buscar um espaço de liderança, mesmo que em uma empresa mais masculinizada. Também vemos mudanças dentro de casa, porque a jornada de tecnologia pode fazer com que ela tenha uma remuneração melhor que seu (sua) parceiro (a). Nós vemos essas histórias”, se emociona.

Histórias de mulheres que se misturam

Os números impressionam, mas conversar com Ana e outras duas das mulheres à frente do projeto para o Dia Internacional da Mulher, me emocionou e colocou muitos dos desafios enfrentados por elas em linha com os meus e de mulheres que conheço em outras mil profissões.

Elisabete Waller, membro do board do SMT, conta que se formou em 1986 em Tecnologia da Informação – em uma sala com apenas quatro mulheres. “O que me espanta é que meu filho se formou em TI em 2020, e tinham apenas cinco mulheres na sala. Ou seja, nada mudou. As coisas melhoraram e eu posso dizer que, nos meus times, eu sempre coloquei muita mulher. Quando eu deixei a última empresa que trabalhei, tínhamos 52% de mulheres em TI. Aumentaram as possibilidades, TI cresceu muito”, pondera.

Entretanto, as mentorias, diz Bete, é ir além da área de tecnologia. É ajudar as mulheres a ter segurança para se posicionar e fazê-las acreditar que elas podem mais. Ela confidencializa que, no ano passado, mentorou uma mulher de 30 anos que ainda tinha uma posição júnior. Com o trabalho feito pelo SMT, ela aplicou para uma vaga sênior em outra empresa e, após todo o treinamento, passou para a oportunidade.

Além de uma carreira de sucesso em tecnologia, Bete também tem um trabalho full time: ser mãe. Ela frisa que não é fácil e que não tinha rede de apoio, pois sua família e de seu marido não são de São Paulo. Mas faz questão de enaltecer o quanto seu marido sempre foi seu parceiro e dividia todas as tarefas – e faz questão de dizer: ele nunca disse que me “ajudaria”, pois, a responsabilidade sempre foi dos dois.

E diz que a mentoria passa, inclusive, por conselhos sobre a vida pessoal das mentoradas para que pensem em seu futuro. “[Eu digo:] olhem bem para a pessoa que você vai escolher. Porque não basta amar, tem que ser parceiro de verdade. E eu ajudo nessa dimensão. A gente ajuda desde a admissão na faculdade, primeiro emprego, confiança, como pinçar o casal, ajudamos na recolocação se precisar.”

Por outro lado, Silvana Fumura, presidente do SMT, viu em sua escolha de não ser mãe o propósito de deixar um legado para as filhas de suas amigas e familiares e todas as outras meninas de que seria um mundo menos desigual do que o que ela viveu.

“Um dos meus intuitos é ensinar as mulheres a ajudarem outras mulheres. Hoje, as mulheres não se ajudam em quase nenhum quesito. Nós fomos criadas historicamente para competirem pelo melhor vestido, pelo homem, pela posição”, se entristece. Mas continua dizendo que, se alguém não começar, isso não vai mudar nunca.

Segundo ela, as mulheres precisam saber que outras mulheres já fizeram, já conseguiram. O STM quer trazer todos esses exemplos e saber que tudo pode mudar. “Ano passado, todas falaram: 250 meninas se cadastraram e atendemos 42. Como vamos ajudar essas 210 meninas que ficaram para trás? Foi então que resolvemos nos profissionalizar e fazer tudo o que fizemos. Criamos um grupo de trabalho e temos metas ano a ano”, resume Silvana.

Ela concorda com Bete, com Ana – e eu concordo com todas elas: não é um trabalho sobre tecnologia. Por acaso, todas essas mulheres estão na carreira de tecnologia. “É sobre ampliar os horizontes. Elas têm um caminho, e se não tiverem mentoria, também vão caminhar. Mas, se conseguirmos impulsionar e reconhecê-las, o caminho pode ser melhor ou mais fácil. Tem muito a ver com sentimento, coragem, escuta ativa.”

Nossa entrevista termina com lágrimas dos dois lados da tela. Eu pergunto para Silvana o que a Silvana velhinha gostaria de ver como seu legado. “A Silvana velhinha ia querer ver as filhas das minhas sobrinhas não tendo que comentar mais sobre tudo isso. Ou ver as minhas sobrinhas falarem: ‘sabe quele trabalho que você fez? Realmente ajudou a mudar o mundo um pouquinho’. Eu serei feliz velhinha se eu tiver as graças de Deus de ver a vida de algumas mulheres mudarem. Que elas possam falar que conseguiram chegar a patamares que eu nunca sonhei e que eu ajudei outra mulher.”

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Laura Martins

Editora do IT Forum. Jornalista com mais de dez anos de atuação na cobertura de tecnologia. É a quarta jornalista de tecnologia mais admirada no Brasil, pelo prêmio “Os +Admirados da Imprensa de Tecnologia 2022” e tem a experiência de contribuições para o The Verge.

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