Pix completa primeiro aniversário como caso de sucesso em lojas online e físicas

Entre os principais lojistas online do Brasil, meio de pagamento instantâneo já chegou aos 59,3% de aceitação; índice era de 16.9% em janeiro

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11:30 am - 30 de novembro de 2021
Pix Foto: Shutterstock

Dizer que o Pix é um sucesso entre os brasileiros já não é nenhuma novidade. O meio de pagamento instantâneo, lançado pelo Banco Central em novembro do ano passado, já foi utilizado por 62,4% da população adulta do Brasil, segundo os dados mais recentes do órgão. Não são apenas os cidadãos brasileiros que têm ganhado com a plataforma: ao completar seu primeiro aniversário neste mês, o Pix se mostra também seu êxito entre empresa do país.

De acordo com o próprio Banco Central, já são mais de 6,4 milhões de CNPJs cadastrados no Brasil como chaves de Pix, mais da metade das empresas nacionais. “Além de incentivar a eletronização dos pagamentos, o Pix faz frente ao contexto de digitalização de negócios, amplia a eficiência do mercado e é um importante vetor para a promoção de inclusão financeira”, celebrou Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, em um evento de celebração do primeiro ano do Pix, realizado em 16 de novembro.

Empresa de consultoria especializada em e-commerce, a GMattos vem avaliando a evolução do meio de pagamento instantâneo brasileio a cada dois meses. Em seus dados mais recents, relativos ao mês de novembro, o estudo da consultoria aponta que 59,3% dos grandes lojistas online do Brasil já aceitam o Pix como meio de pagamento.

O índice leva em consideração as 59 lojas online de mais destaque no mercado brasileiro, nos mais diversos segmentos. Em janeiro deste ano, a mesma medição apontava uma aceitação de apenas 16,9% entre as grandes lojas online.

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Com isso, o Pix se manteve como a terceira forma de pagamento mais aceita no universo analisado pelo estudo Além do Pix, o levantamente analisa a aceitação de pagamentos via crédito (98,3% das lojas online pesquisadas), débito bandeira (13,6%), débito bancário (22%), Wallet (50,8%) e boleto (79,6%) pelos lojistas.

“É notável a penetração, aceitação e amplitude que essa forma de pagamento atingiu em tão pouco tempo”, avaliou Gastão Mattos, CEO da GMattos, em entrevista ao IT Forum. Responsável pelo Estudo de Pagamentos que monitora, Mattos destaca que o sucesso do Pix entre lojistas é mérito, em boa parte, do próprio Banco Central.

Segundo o consultor, o órgão foi “muito feliz” em desenvolver uma forma de pagamento que combina alta tecnologia, incluindo autenticação de nível bancário, com uma interface, sobretudo, simples de usar para o consumidor. A combinação foi suficiente para fazer o varejo superar a dificuldade tecnológica “não trivial” da implementação do Pix para adotá-lo de forma veloz.

“É uma plataforma de tecnologia de difícil encaixe no sistema de pagamentos. A gente não tinha o chamado ‘pagamento instantâneo’, de fato, para transações de varejo. Essa implementação não era algo necessariamente simples de ser efetuada”, comentu. “Mas existe uma vontade de negócio do lojista em fazê-lo. A adesão ao Pix, do ponto de vista do consumidor, foi massiva. O lojista percebeu que havia ali uma oportunidade.”

Vantagens de negócio

A natureza instantânea do Pix é seu principal atrativo para usuários finais – que são agora capazes de realizar transações sem precisarem esperar longos períodos de tempo para a efetivação. Não à toa, o Pix superou as modalidades de TED e DOC para transferências em apenas três meses após seu lançamento.

Mas não são apenas cidadãos brasileiros que têm tirado proveito da instantaneidade. Quando comparado a soluções como débito online (liquidação no dia seguinte ao pagamento) e crédito (recebimento até 30 dias), o Pix também tem sido preferido por varejistas por dar mais controle ao fluxo de caixa. E isso tem sido particularmente importante para pequenos varejistas.

Segundo a 12ª edição da Pesquisa de Impacto da Pandemia do Coronavírus nos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e divulgada em outubro, 77% dos pequenos negócios já utilizam esse meio de pagamento. As empresas que adotaram o Pix também tiveram uma queda de faturamento menor, de 33%, do que os negócios que não aderiram ao sistema, que registraram queda de 44%.

“[O Pix] permite que, no final do dia, o dono do pequeno negócio possa fazer um fechamento de caixa que contribui para que ele tenha melhores condições para tomar decisões mais assertivas”, explicou Cristina Araújo, analista de Capitalização e Serviços Financeiros do Sebrae, em participação no evento de comemoração de um ano do Pix do Banco Central.

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“Na visão do Sebrae, o Pix no processo de fechamento do pedido, da venda, tem um impacto altamente positivo no fluxo de caixa. Já que o fluxo de caixa registra todas as contas a pagar, contas a receber, indicando antecedentes que podem acontecer. Ao acelerar esse processo de pagamento, o Pix libera recursos que empresas precisam para outras atividades, como pagar contas e negociar com fornecedores, por exemplo”, completou.

Além da certeza do dinheiro em conta, a instantaneidade também tem ajudado companhias na certeza da confirmação da compra. “A gente sempre fala que o travesseiro não é muito amigo dos negócios”, brincou Jorge Gonçalves Filho, vice-presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), no mesmo evento virtual. “O consumidor faz a compra, paga o boleto, dorme e desiste no dia seguinte. Com o Pix ele paga no ato, já é capital de giro. É mais uma transformação na forma de comprar.”

Essa instantaneidade também traz maior confiabilidade. “O Pix não tem risco para o lojista”, explicou Gastão Mattos, da GMattos. “No cartão de crédito, no comércio eletrônico, se houver fraude, o prejuízo é do lojista, 100%. No Pix, não existe a contestação. Se houver contestação, é o banco que tem que tratar com seu cliente. A loja recebeu, foi instantâneo”.

Juntos, esses dois fatores têm transformado o Pix em um vetor de novas oportunidades de negócio para as empresas. O fenômeno já foi observado nesta Black Friday. Dados de um recém-lançado estudo da GMattos com 59 lojistas durante a edição 2021 do feriado de compras, e enviados ao IT Forum, mostram que o Pix foi frequentemente associado a benefícios, como descontos de 3% a 10% ou a concessão de frete grátis. Isso por conta de sua natureza vantajosa para o vendedor, incluindo recebimento à vista e com baixo risco.

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De acordo com Priscila Faro, líder de legal e fintechs do Mercado Livre, descontos associados à opção de pagamento por Pix também são observados na plataforma da empresa. Para ela, eles já podem ser até correlacionados ao tíquete médio mais alto em vendas via Pix quando comparados a outras modalidades. Segundo dados do próprio Mercado Pago, os vendedores que utilizam o Pix como forma de pagamento estão apresentando um tíquete médio 54% maior que o obtido com outros meios.

“O Pix traz o benefício de um perfil de usuário que antes não compraria pela Internet”, avaliou Priscila em entrevista ao IT Forum. “Um usuário que não tenha cartão de crédito e gostaria de comprar pela internet, por exemplo. Antes era muito limitado”, disse a executiva em entrevista ao IT Forum. Hoje 70% da base de vendedores do Mercado Livre já aceita Pix como meio de pagamento. Dentro do Mercado Livre, é o boleto que tem perdido espaço para o Pix.

Além de dar acesso à uma base maior de compradores no mundo virtual, o Pix tem também expandindo fronteiras do mundo físico. Entre maio e outubro de 2021 o Mercado Pago detectou, um crescimento de 210% no volume de vendas via Pix e de 267% no número de transações com a plataforma. “Para aquelas pessoas que foram pegas desprevenidas, sem carteira, sem dinheiro, o Pix resolveu. O celular ninguém esquece”, brincou Priscila. “Então houve esse incremento”.

Questão de segurança

Apesar da simplicidade e agilidade, o Pix não chegou sem seus problemas – e, como qualquer solução financeira, a segurança é o mais latente deles. Em entrevista ao IT Forum, Fabio Assolini, pesquisador de segurança sênior da Kaspersky, lembra das inúmeras tentativas de phishing que foram associadas ao Pix logo que a ferramenta foi lançada no mercado.

“Nós vimos uma avalanche, logo que o Pix estreou, de ataques de phishing por e-mail, phishing por SMS e domínios maliciosos”, lembrou o analista de segurança. “Foi um tema muito popular, todo mundo queria começar a usar o Pix para não ficar pagando tarifa de transferência. As pessoas tinham interesse em conhecer o sistema e os cibercriminosos pegaram carona para roubar credenciais de acesso bancário”.

Em paralelo, após o lançamento da plataforma, a empresa de cibersegurança também registrou um aumento considerável nos ataques de tipo RAT, ou Trojans de Acesso Remoto. Embarcados em apps fraudulentos, esses malwares permitem aos cibercriminosos acessarem dispositivos de usuários do Pix através de aplicativos maliciosos. Com acesso remoto garantido aos dispositivos, atacantes podem, em última instância, ganhar acesso aos apps bancários de usuários – burlando até mesmo senhas e autenticação biométrica – para realizar transferências Pix.

“Tendo acesso ao Pix é ‘game over‘, porque eles conseguem rapidamente limpar a sua conta, fazendo várias transferências”, resumiu Assolini. “Se valendo da instantaneidade do Pix”. Ao longo dos últimos 12 meses, o Banco Central tem buscado enfrentar os problemas de segurança inerentes a essa instantaneidade. Aumentos de casos de roubos e sequestro relâmpago relacionados ao Pix, por exemplo, foram mitigados por um limite de transferências no período noturno.

Além destes ataques focados em usuários finais, no entanto, uma segunda via de ciberameaças ainda se mostra como um potencial problema para o Pix: ataques contra instituições financeiras.

Um ataque deste tipo já foi realizado contra o SPEI, equivalente mexicano do Pix, em 2018. Através de um ataque de “man in the middle”, cibercriminosos conseguiram comprometer uma das instituições financeiras envolvidas no SPEI e criar requerimentos fraudulentos de transações para outro banco em benefício próprio. Por conta do ataque, o SPEI chegou a ficar dias fora do ar.

No Brasil, o ataque de enumeração ocorreu ao Banese, em que chaves foram roubadas do banco. Apesar de não comprometer o sistema do Pix como um todo, o ataque foi exemplo de que algumas instituições podem permitir acesso às chaves e informações pessoais de usuários do Pix e, com elas, realizar ataques direcionados ao indivíduo, via API. “O que me preocupava no início do Pix, e se confirma agora, é que nem todos os participantes têm a maturidade necessária para participar do sistema”, avaliou Assolini.

Com o avanço do Open Banking, em que mais instituições passarão a se comunicar via API uma com as outras, o potencial de exploração de APIs má configuradas para tirar proveito do Pix pode crescer. “Quando você tem um participante do arranjo comprometido, isso permite que você obtenha dados de outros participantes”, resume o pesquisador de cibersegurança.

Futuro do Pix

Apesar do sucesso entre pessoas físicas e jurídicas, o Pix é uma ferramenta em constante evolução. Ao longo dos últimos meses, a plataforma recebeu uma série de atualizações relacionadas que a tornaram mais segura e mais cômoda para usuários e lojistas – incluindo a possibilidade do estorno via Pix.

O próprio Banco Central já enumerou algumas das funções que são esperadas para os próximos meses, incluindo a possibilidade de realizar o Pix em um ambiente sem conexão à Internet e a conexão do Pix com outros sistemas de pagamento instantâneos de outros países.

Para lojistas brasileiros, poucas funções são tão aguardadas como uma das mais típicas transações brasileiras: o parcelamento. “Essa funcionalidade tem um apelo fortíssimo, mas não é trivial de fazer”, explicou Gastão Mattos, sobre o chamado “Pix Garantido”. “No parcelado, o dono da conta tem que ter uma análise e assumir um risco. E se o comprador ficar inadimplente daqui há alguns meses. O cartão de crédito nasceu assim, mas no Pix, isso não existe”.

Na avaliação do consultor, o recurso de parcelamento seria aquele que levaria o Pix a bater de frente com a “jóia da coroa” do comércio eletrônico, o cartão de crédito. Segundo dados da GMattos, o Pix está chegando aos 3% de participação no volume total de pagamentos em grandes lojas virtuais do país – ganhando espaço, principalmente, em cima do débito.

“Parece que é pequeno, mas, para um ano de vida, é [uma participação] notável”, disse. “[O Pix] vai crescer, mas para ter um salto grande, vai ter que competir com o cartão de crédito. Isso é difícil de acontecer no horizonte de um ano”.

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