Open RAN: chave para competitividade e inovação no 5G

Padrões abertos nas redes móveis de próxima geração podem reduzir custos e estimular ecossistema, dizem governo, operadoras e fabricantes

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7:12 pm - 19 de maio de 2021

A adoção de padrões abertos logo no planejamento das redes 5G no Brasil pode ser um grande elemento de catalisação não só do crescimento e do barateamento da infraestrutura, estimulando a competição entre fabricantes, mas também de um ecossistema de empresas utilizando essas redes como base para soluções inovadoras. E as redes de acesso abertas (Open RAN) podem ser a base para tudo isso.

Essa foi a defesa feita por Bruno Assaf, diretor de setor público da Dell Brasil, durante mesa redonda promovida pela empresa nesta quarta (19) para discutir o 5G. Para ele, o Open RAN “pode fazer com que tenhamos uma grande aceleração e potencializar a janela de oportunidade para um ecossistema rico de desenvolvimento e pesquisa no Brasil”.

Mais do que transmitir uma estratégia global da Dell de trabalhar com padrões abertos, Assaf diz que eles são uma lição deixada por implantações de redes 5G em outras partes do mundo. Também diz que repensar o modelo de implantação e operação de redes gerará mais oportunidades de negócio e desenvolverá a indústria nacional.

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“A lição é trabalhar com padrões abertos, e todas as indústrias vão ser beneficiadas”, disse o executivo da Dell. “Há benefícios interessantes quando se troca a caixa preta importada e fechada por um padrão em que se tenha um trabalho colaborativo de uma indústria local sólida. Na pandemia ficou claro como é importante uma indústria local sólida para diminuir a dependência de uma cadeia de suprimentos internacional.”

Entre as outras vantagens dos padrões abertos mencionadas por Assaf estão, para as operadoras, maior interoperabilidade e menor dependência de fornecedores a longo prazo. Para o país, cria-se uma plataforma exportadora, capaz de vender soluções tecnológicas para outras regiões do mundo.

Perspectiva governamental

Artur Coimbra, secretário especial para 5G do Ministério das Comunicações, que participou do debate da Dell, disse que o Open RAN pode inclusive ser uma oportunidade de aumentar a competição entre fornecedores de core de rede, diminuindo preços e melhorando a qualidade dos sistemas das operadoras. “Ao longo dos anos [houve] concentração dos equipamentos em poucas empresas”, disse.

Segundo ele, o MiniCom tem financiado, usando recursos do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel) para financiar projetos baseados em padrões abertos. E citou o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD), em Campinas, como responsável pelo desenvolvimento de soluções integradas às redes Open RAN.

“A gente sabe que não é fácil. Existe uma série de mecanismos que precisam ser desenhados para um ecossistema Open RAN funcionar”, disse. Segundo Coimbra, as iniciativas do ministério visam desenhar mecanismos de incentivo para a cooperação entre empresas desenvolvedoras de soluções abertas, além de estimular integrações tecnológicas.

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O problema, para o secretário, é que muitas operadoras descentralizaram as operações de suas redes, o que trouxe como reflexo uma perda de capacidade de engenharia. E “para o Open RAN temos que reganhar essa capacidade. É o que vai permitir efetivamente montar uma rede Open RAN, que no fim das contas garante preços menores e entrega capacidades melhores para todos”.

Paulo Alvim, secretário de empreendedorismo e inovação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), disse que a janela significativa de oportunidades abertas pelo Open RAN passam, então, pela formação de mão-de-obra. E que tanto a iniciativa pública como a privada devem tentar suprir essa lacuna em um horizonte curto de tempo.

Bruno Assaf concorda. “Isso vai trazer uma demanda de mão de obra qualificada que é importante”, disse. “Vai exigir um esforço conjunto para sociedade civil para preparar o trabalhador do futuro.”

Enquanto isso, no mundo…

Durante o evento global 5G Summit 2021, realizado pela fabricante de chips Qualcomm entre quarta (19) e quinta (20), o Open RAN também foi objeto de debates. Segundo Alex Katouzian, vice-presidente sênior e gerente geral de mobilidade, computação e infraestrutura da empresa, o 5G em Open RAN é parte importante da construção de “uma rede 5G mais moderna”, e os produtos da empresa são compatíveis com protocolos abertos.

“Conforme a infraestrutura celular avança para se tornar mais virtualizada, modular e interoperável, está se tornando mais aberta, competitiva e uma plataforma para inovação”, disse Katouzian. “Estamos trabalhando ativamente para entregar tecnologia de rede Open RAN 5G em escala.”

O evento da Qualcomm apostou em exemplos práticos de adoção entre operadoras de telecomunicações. A britânica Vodafone, que atua principalmente no continente europeu, está adotando Open RAN como forma de diversificar sua rede de fornecedores.

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“Em algumas regiões, a quantidade de escolhas que temos de fornecedores de RAN caiu para apenas dois ou três”, disse Santiago Tenorio, líder de arquitetura de rede da Vodafone. “Em qualquer caso, é muito pouco. Além dos desafios lógicos de não se ter competição comercial suficiente, há um problema mais sério que é a inovação estar desacelerando.”

Segundo o executivo, o objetivo é dar a um ecossistema mais amplo um caminho direto de inovação, que “pode ligar muito mais rápido players especializados com implementações de campo”.

Disse também que a entrada da Qualcomm no fornecimento de componentes para equipamentos de rede 5G com Open RAN acelerou a tendência na Vodafone, principalmente no uso de massive MIMO (técnica que aumenta o número de sinais simultâneos enviados em uma rede sem fio). Antes não havia “nenhum plano claro” para desenvolver a funcionalidade em Open RAN.

A Deutsche Telekom também falou do tema. Segundo Arash Ashouriha, vice-presidente sênior de inovação da operadora, o Open RAN está sendo levado tão a sério que já há implementações no mercado alemão. A primeira fase será lançada no verão do hemisfério norte, que começa em junho e termina em setembro.

“Open RAN não é só sobre ‘softwerização’ e desagregação de rádio, mas uma forma fundamentalmente diferente de como operar e integrar”, disse o executivo. “A única forma de preparar Open RAN para implementação em larga escala é testando na rede ao vivo e preparando toda a organização, os procedimentos e as ferramentas operacionais para a entrega”.

O executivo também ressaltou o número pequeno de fabricantes de equipamento para a infraestrutura, e que a ideia do Open RAN é ter escolhas. Se antes havia sete ou oito, fatores geopolíticos e de custo baixaram esse número para dois ou três, disse Ashouriha. “Não é o suficiente”, ressaltou.

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