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O som ao redor (da tecnologia)

Por Eloá Orazem

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Ouça bem o que lhe digo: a (r)evolução pode ou não ser televisionada, mas ela certamente não será silenciosa. Empresas já consolidadas e startups novatas se debruçam agora a explorar todo o potencial do áudio – e não estamos falando só de música, não.

Enquanto Spotify, Deezer, Apple Music, Tidal e Pandora correm em busca do algoritmo perfeito, num modelo de streaming agora amplamente conhecido, outras companhias menos conhecidas aumentam o volume de estratégias diferentes. É o caso da holandesa AlphaBeats, que cria uma playlist relaxante a partir das canções já selecionadas pelo usuário. “Nosso aplicativo faz uma espécie de ‘varredura’ nos streamings dos interessados e, com o uso, consegue identificar quais faixas servem como relaxante. Gosto de dizer que, pra gente, a música é um remédio”, disse o fundador e CEO da startup, Han Dirkx, à reportagem do IT Forum.

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Ainda em versão beta, o app AlphaBeats promete ajudar seus usuários a relaxar em apenas 10 minutos. “Não é preciso fazer nenhum comando nem usar qualquer aparelho especial, porque nossa plataforma se integra aos demais streamings”, explica.

Embora reconheça que o simples fato de ouvir música já é uma atividade relaxante, Dirkx diz que seu algoritmo é três vezes mais eficiente na arte de acalmar.

“Ajustamos as frequências da música, como se usássemos um equalizador gráfico. Em essência, apenas ajustamos sutilmente os tons altos e baixos, para que ninguém fique frustrado com a qualidade da canção”, conta.

O algoritmo do AlphaBeats é baseado na compreensão da atividade das ondas alfa e beta no cérebro. As ondas beta acionam nosso estado de alerta e estresse, enquanto as ondas alfa nos colocam em um estado de relaxamento. Então, ao aumentar a atividade das ondas alfa nas músicas, o AlphaBeats “faz carinho” no cérebro sem que necessariamente percebamos diferença na canção. “Você não ouve a diferença, mas sente – mesmo sem saber”, corrige Dirkx.

O “canto da sereia” promovido pela holandesa já surtiu efeito no mundo dos negócios, e a startup levantou 650 mil euros em rodada seed de investimento. O aporte veio do fundo LUMO Labs, que tem 20 milhões de euros sob custódia, e é focado em companhias em estágios iniciais.

Embora não revele o capital levantado até agora, a startup americana Brain.fm está em plena sintonia com a proposta da AlphaBeats, mas em vez de fazer ajustes em músicas já selecionadas, ela aposta em canções autorais, compostas para promover o foco, desestressar e dormir.

“Brain.fm é uma colaboração entre cientistas, músicos e desenvolvedores que acreditam que a melhor abordagem para música funcional não é a curadoria de faixas existentes, mas fazer pesquisas e testes para a criação de músicas com uma funcionalidade específica”, diz a empresa em seu release oficial.

A companhia explica que, da mesma forma como a decoração de um ambiente pode afetar nossas emoções, a trilha sonora do nosso dia também o faz. “Pense na Brain.fm como uma plataforma de design de interiores para a mente”, afirmam.

Disponível gratuitamente para testes, a Brain.fm deve em breve migrar para um modelo de pagamento mensal, como funcionam outras plataformas de streaming.

Enquanto as promessas e os dados dessas startups correm o risco de serem “desafinados” pela obrigatoriedade de gerar receita, a artista e pesquisadora China Blue revela com isenção, e em alto e bom som, que a música é mesmo uma ferramenta de manipulação mental.

“Nós falamos em ondas cerebrais, porque se trata também de frequência, como a música. Sendo assim, podemos modular ambas. Ao mudar a frequência de uma música, o seu cérebro responde tentando equalizar as ondas – daí os efeitos relaxante, por exemplo”, conta ela ao IT Forum.

China Blue testemunhou de perto a validação laboratorial dessas crenças, já que seu marido, o PhD em neurocientista Seth Horowitz, dedicou sua carreira a estudar a fundo o assunto. Falecido no ano passado, Horowitz é autor do livro The Universal Sense: How Hearing Shapes the Mind (“O Sentido Universal: Como a Audição Molda a Mente”, em tradução livre) e ex-professor da Universidade de Brown.

De herança, Horowitz nos deixa a Horowitz NeuroPop, Inc., primeira empresa a integrar a neurociência e a psicofísica em materiais midiáticos. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o ringtone da T-Mobile, além do design e implementação de um alarme de incêndio vibratório para cegos.

“A BMW também entrou em contato com Seth e com a NeuroPop para desenhar os sons de seus carros”, confidencia China Blue à reportagem.

Curiosamente, a BMW anunciou em março do ano passado que havia contratado o compositor alemão Hans Zimmer para assinar a “trilha sonora” do carro conceito BMW Vision M NEXT. Zimmer, para quem não sabe, é o homem por trás das trilhas sonoras de filmes consagrados, como “O Código da Vinci”, “Pearl Harbor”, “Gladiador”, “O Último Samurai” e muitos outros, inclusive “Rain Man”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

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Mas por que, afinal, fabricantes de carros deveriam se preocupar com os sons de seus modelos? “Porque elas querem proporcionar uma experiência emocionante e altamente reconhecível. Isso significa um motor que soe rápido, bonito e agressivo. Se é um modelo esportivo ou se é um modelo de luxo, eles querem que tenha elementos disso”, explica China Blue.

E não é apenas com a obviedade do barulho do motor que as montadoras estão preocupadas, não. “As empresas também querem e precisam criar um som da porta fechando, algo como ‘catchank, para que você saiba que a porta está agora fechada’. Tem que ser algo agradável, mas que remeta segurança. Conforme o desenvolvimento dos carros evolui, os fabricantes têm que se concentrar cada vez mais nesses elementos específicos”, diz China Blue.

Para ela, outros setores devem em breve trilhar o mesmo caminho das montadoras e passar a investir em identidade sonora. “Temos a visão como sentido dominante, e dependemos dos olhos para colher informações, mas o som pode ser ainda mais poderoso, porque ele antecede acontecimentos. Você sabe que um carro está se aproximando pelo barulho, por exemplo, e só depois de escutar isso é que você vira a cabeça para fazer o contato visual e atravessar a rua com segurança. A audição e a visão trabalham muito próximas e em sincronia, mas como somos visualmente dominantes, deixamos o que escutamos como uma espécie de background de informação sem saber o quão realmente crítico isso é para o nosso funcionamento como seres humanos”.

 

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