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Gamificar a experiência de dirigir é alternativa à indústria das multas

Há quem veja exagero no número de multas de trânsito aplicadas no Brasil todos os anos, mas há também quem entenda que o volume de punições é necessário. Os adeptos da segunda posição acreditam na lógica de que “se não doer no bolso”, os motoristas não obedecem às regras.

Seja como for, o fato é que a chamada indústria das multas continua produzindo em alta potência e ainda estamos longe de reduzir a violência nas ruas e estradas a níveis considerados aceitáveis.

Um levantamento recente feito por uma seguradora informou que em 2019 o número de indenizações pagas por acidentes de trânsito no Brasil cresceu 8% em relação ao ano anterior, chegando à marca de 353.232 pagamentos. Destes, 40.721 foram indenizações por morte, 235.456 por Invalidez Permanente e 77.055 por reembolso de Despesas de Assistência Médica e Suplementares.

Diante deste quadro, não há ninguém em sã consciência que possa ser contra iniciativas de conscientização sobre a necessidade de observância das normas.

E já que a abordagem punitiva não está alcançando os resultados desejados, por que não inverter a estratégia para uma abordagem positivista? Neste sentido a gamificação surge como alternativa. Trata-se de um conceito que propõe a aplicação de mecanismos e dinâmicas de jogos em outros universos e que tem sido usada como estratégia eficiente para diversas formas de conscientização.

Em janeiro, por exemplo, o Centro Martin Luther King, Jr. para Mudança Não-Violenta (“The King Center”) lançou o aplicativo March for Humanity, com conteúdo interativo e ações gamificadas, oferecendo uma variedade de recompensas envolventes, impactantes e duradouras para todos os usuários que podem ser compartilhadas com o mundo como prova de seu compromisso com o impacto social. As recompensas incluem microbolhas, estágios e acesso VIP a eventos reconhecidos internacionalmente e cerimônias de premiação em homenagem a conquistas em ciência, cultura, impacto social e artes cênicas.

A tecnologia do barramento CAN (Controller Area Network) desenvolvida pela alemã Bosch no fim dos anos 80 e padronizada internacionalmente pela ISO (International Organization for Standardization) e pela SAE (Society of Automotive Engineers) proporciona a oportunidade para a gamificação no ato de dirigir.

Ela atua como um sistema nervoso central do carro, transportando dados entre os diversos módulos elétricos que o mantêm funcionando. Em um veículo típico, até 80 módulos de controle elétrico (ECMs) atuam como o cérebro por trás de tudo, desde o gerenciamento do motor até o sistema de entretenimento, passando pelo desempenho do limpador de para-brisa.

Aproveitando este fato, os fabricantes de automóveis e desenvolvedores de tecnologia na nuvem estão usando informações de barramento CAN para gamificar a experiência de dirigir, analisando dados da vida real para fornecer dicas, recompensas e desafios.

Ao registrar a força com que o condutor freia, acelera ou faz a curva, por exemplo, os aplicativos podem desafiá-lo a se tornar um motorista melhor. Do ponto de vista do gerenciamento de frota, significa simplesmente ter melhores funcionários. Assim, a gamificação torna a condução mais segura de um modo divertido e ainda pode proporcionar grandes economias em uma frota comercial, por exemplo.

Ao analisar, comparar ou modificar dados do barramento CAN, os desenvolvedores podem usá-los em aplicativos para introduzir experiências semelhantes a jogos. O aplicativo pode definir os ‘Desafios’ de condução no mundo real dos proprietários, focados na eficiência e nas habilidades gerais de direção. São oferecidas recompensas quando os motoristas atingem metas específicas, incluindo crachás e troféus e outros incentivos.

Além disso, câmeras de traço e gravadores de drive mais sofisticados e mais novos também podem acessar o barramento CAN. Para os desenvolvedores, essa é uma fonte rica de informações que podem ser usadas para impulsionar os aplicativos, seja para o público, para os proprietários de frotas ou até para os gerentes de despacho.

Ao adicionar um elemento competitivo, como desafios, quadros de líderes ou pontos de habilidade, os desenvolvedores podem gamificar a condução, tornando-a mais divertida. Com desafios específicos projetados, os aplicativos podem ajudar a melhorar a compreensão dos motoristas sobre eficiência e segurança nas estradas, elevando os padrões entre motoristas particulares e profissionais, para o benefício de toda a sociedade.

E tudo isso sem precisar sentir nenhuma dor adicional o bolso.

* Richard Brown é VP de marketing da VIA Technologies

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