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Um ano do boom da IA e o custo oculto da exclusão digital: quando a periferia fica offline

Por Rosana Cher

Em janeiro de 2025, uma notícia sacudiu o mundo da tecnologia: a startup chinesa DeepSeek, com seu assistente de inteligência artificial, disparou ao topo dos aplicativos mais baixados e chegou a ultrapassar o ChatGPT nas listas de apps gratuitos nos Estados Unidos.

Analistas do mundo todo apontaram que seu desempenho robusto e preços competitivos poderiam revirar o mercado de IA forçando gigantes do setor a se adaptarem. Foi o marco inicial de um boom da IA ao longo de 2025 – um ano em que modelos generativos viraram fenômeno global, de assistentes virtuais a ferramentas de produtividade. Mas fica a pergunta: quem ficou de fora dessa verdadeira revolução?

Enquanto o Vale do Silício, big techs e empresas de todo mundo – inclusive do Brasil – discutiam a implementação de IA em suas operações, nas periferias brasileiras muitos permaneceram offline excluídos dessa “tendência” que veio para ficar.

Essa exclusão digital carrega um custo oculto pouco divulgado. O Brasil alcançou 84% da população conectada à Internet em 2024, mas quantidade não significa qualidade: mais da metade (57%) dos brasileiros não tem acesso pleno e estável à rede. São cerca de 29 milhões de pessoas desconectadas, o equivalente a uma Venezuela inteira de cidadãos fora do mundo online.

A realidade de um jovem morador da periferia sem conexão de qualidade é muito diferente de um da mesma idade com internet rápida – e essas disparidades ampliam desigualdades já existentes. Em outras palavras, o boom da IA passa longe de quem mal consegue carregar uma página ou pagar pelo pacote de dados. Para muitos brasileiros nas favelas e periferias, ferramentas como ChatGPT, DeepSeek ou qualquer “nova IA milagrosa” continuam tão distantes quanto uma sala de aula com ao menos ventiladores ou um hospital sem déficits de medicamentos e profissionais.

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Essa distância entre a tecnologia e a realidade de boa parte dos brasileiros aprofunda um fosso que já é marcado por desigualdade social. Em 2023, cerca de 59 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha da pobreza, sobrevivendo com menos de R$22 por dia e boa parte dessa população está concentrada nas periferias das cidades.

Nesses territórios, a falta não é marcada somente pela fibra óptica e sinal de 5G, mas também pelo acesso a educação regular de qualidade e oportunidades de trabalho decente. Os efeitos são visíveis: alunos de escolas públicas em regiões periféricas tiveram enorme dificuldade para acompanhar aulas remotas na pandemia e até hoje enfrentam obstáculos para usar ferramentas digitais no aprendizado.

No final de 2022, por exemplo, 9,5 mil escolas brasileiras (6,8%) não tinham acesso à Internet e 46,1 mil (33,2%) não possuíam laboratório de informática para uso dos alunos. Como preparar crianças e jovens para a era da inteligência artificial se muitos deles nunca navegaram adequadamente na internet, seja por falta de conexão, de dispositivos ou de conhecimento? Essa ausência cria um ciclo que limita a formação profissional, restringe o acesso a vagas de emprego que exigem soft skills digitais e reforça a sensação de que a tecnologia “não é para nós” entre a população periférica.

No outro extremo, o mercado de IA vive uma expansão inédita. De acordo com estimativas da Stanford University o investimento de empresas em inteligência artificial ultrapassou US$30 bilhões globalmente em 2025, com grandes corporações adotando chatbots e algoritmos em velocidade recorde. Mas, de novo pergunto, qual o valor desse progresso se ele não é acompanhado de inclusão?

O custo oculto da exclusão digital é justamente o de ampliar o abismo entre quem pode usufruir dessas inovações e quem permanece à margem. Enquanto um estudante de classe média usa o ChatGPT para fazer pesquisas escolares ou aprender inglês, um estudante da favela sem internet em casa e muito menos um computador, fica para trás mais uma vez.

Enquanto profissionais nos grandes centros comerciais fazem cursos de capacitação em IA para turbinar suas carreiras, os trabalhadores das periferias seguem em subempregos, sem oportunidades e tempo para conseguirem chances melhores no mercado de trabalho a partir da tecnologia.

A transformação digital, que prometia democratizar oportunidades, tem mostrado sua capacidade de aumentar desigualdades, criando uma linha divisória, entre os que têm acesso e sabem usar inteligência artificial de forma consciente, e os que não têm nem o básico a conexão de internet.

Entretando, longe dos holofotes das big techs, organizações do Terceiro Setor, atuam nas periferias para reduzir distancias e construir pontes. Projetos nesses territórios oferecem cursos de informática, oficinas de programação e acesso a computadores e Wi-Fi.

Em muitas favelas, há iniciativas que ensinam jovens a introduzirem conceitos de robótica, lógica de programação ou até noções de inteligência artificial de forma lúdica, mostrando que a tecnologia pode, sim, fazer parte do seu futuro. São iniciativas, que com o apoio de empresas e do governo, são capazes de conectar talentos das periferias a conhecimentos antes inacessíveis, e mais que vocação em TI, dão acesso para buscar melhores oportunidades.

Por isso, é urgente reconhecermos que ao falarmos de inteligência artificial precisamos antes de tudo nos perguntarmos, sobre inclusão. Investir em conectividade nas periferias, em educação pública de qualidade e em capacitação tecnológica significa garantir que o país realmente avance, do contrário deixaremos milhões de brasileiros para trás.

O boom da IA completou um ano, mas que não deixemos passar mais um ano com as periferias offline. Porque a inteligência artificial não pode se manter restrita a alguns. Se oferecermos às periferias as ferramentas e acesso que merecem, o próximo avanço tecnológico poderá ser construído com a participação de todos e transformando realidades.

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