Marc Benioff: Big Techs dos EUA foram ‘ousadas demais’ e atraíram regulações

Co-CEO e fundador da Salesforce, Marc Benioff vê com bons olhos a onda de regulamentações que tem atingido grandes empresas do setor de tecnologia nos últimos anos – em especial através de novas legislações aprovadas na Europa.

Em uma conversa com jornalistas durante o Dreamforce 22 – principal evento da empresa de CRM realizado nesta semana em São Francisco, na Califórnia –, o executivo falou sobre como novas regulamentações têm despertado a atenção de executivos de tecnologia, em especial dos Estados Unidos, e colocador limites da atuação de suas empresas.

“Os americanos pensam que podem fazer qualquer coisa, desde que não estejam machucando alguém”, disse Benioff. “Empreendedores de tecnologia [dos Estados Unidos], ficaram espantados com o fato de que muitas das coisas que eles pensavam estar fazendo certo – fosse para gerenciar seus negócios, crescer receitas ou conquistar participação de mercado –, talvez fossem ousadas demais. Elas não foram tão bem recebidas na Europa como foram nos Estados Unidos.”

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Em sua fala, o líder da Salesforce classificou como “excelente” o trabalho da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu na regulação de operações de grandes empresas de tecnologia. Em julho deste ano, a União Europeia aprovou o chamado Digital Services Act, que inclui uma série de obrigações de transparência e responsabilização aos serviços digitais.

Considerada um marco histórico de legislação, o documento também dá controle real aos usuários sobre o conteúdo com o qual eles se envolvem, além de oferecer proteção contra abusos em relação aos seus dados.

“Acredito que a Europa fez um excelente trabalho”, afirmou Benioff. “Nós temos que olhar para a liderança excelente de Margrethe Vestager [Comissária Europeia para a Concorrência], também de Neelie [Kroes, ex-vice-presidente da Comissão Europeia], que está no nosso conselho. Nós estamos dependendo muito do que os europeus estão fazendo.”

Benioff, no entanto, afirmou que diferentes países têm diferentes entendimentos sobre quais regulamentações são adequadas ou não para o setor – e que não avalia, por exemplo, que algo similar deva acontecer nos Estados Unidos. “Eu não acredito que os reguladores americanos vão tomar essas mesmas ações agressivas que vimos em outros países”, opinou.

‘Novo capitalismo’

Também durante conversa com a imprensa, Benioff falou sobre como vê a necessidade de uma transformação no papel de CEOs, e em sua crença em um ‘novo capitalismo’. Os comentários ecoam uma fala anterior do executivo feita em 2020, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, quando afirmou que o “capitalismo como conhecemos está morto”. “Essa obsessão que temos em maximizar os lucros apenas para os acionistas levou a uma incrível desigualdade e a uma emergência planetária”, disse o bilionário na ocasião.

“O que quero dizer é que é muito importante que nós nos movamos para um capitalismo que seja mais igualitário, sustentável para todas as partes interessadas”, defendeu durante o Dreamforce. “Não é que nós não estejamos fazendo dinheiro aqui, nós estamos. Nós somos capitalistas, eu sou um capitalista. Mas nós estamos tentando fazê-lo de uma forma que traga todos juntos.”

O executivo, no entanto, reconheceu os desafios dessa visão, e como ela exige uma nova atuação por parte dos líderes de empresas. “Nós estamos em um novo mundo e, para CEOs, o trabalho está mais difícil do que nunca”, disse. “Não é o capitalismo que eu aprendi na escola – que era o capitalismo de Milton Friedman: ‘o negócio dos negócios é os negócios’. Agora é: ‘o negócio dos negócios é melhorar o estado do mundo’”, e completou: “É difícil, é claro, sempre seremos observados cinicamente porque nós somos capitalistas e estamos fazendo dinheiro.”

* o repórter viajou para São Francisco a convite da Salesforce

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