IA não é coisa de nerd. Deve estar, o quanto antes, nas reuniões de diretoria

A revolução conduzida pela IA está chegando tão rápido que temos dificuldade em imaginar como ela se tornará

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7:31 am - 12 de setembro de 2017

Vivemos uma era de inovações radicais, com mudanças
significativas em todos os campos de conhecimento humano. É difícil para nós,
humanos, nos acostumarmos com esse ritmo de mudanças. Vivemos em um mundo
linear, no qual tempo, distância e velocidade são lineares. Nossas decisões
sobre o futuro são baseadas nessas percepções lineares do passado e as
projetamos, também linearmente, para o futuro. Porém, a tecnologia está
evoluindo exponencialmente e com isso as mudanças na sociedade, empresas e
empregos também muda exponencialmente.

Das diversas tecnologias que evoluem exponencialmente, quero
chamar atenção para uma que ainda não percebemos, nem de longe, o potencial de seu impacto transformador na sociedade, que é a Inteligência Artificial. Claro,
ainda estamos engatinhando na IA. Tenho observado nas conversas com executivos
de negócios e de TI que muitos consideram que Inteligência Artificial (IA),
veículos autônomos e robôs convivendo entre nós ainda é algo futurista. Mas já
está acontecendo e nem percebemos. Usamos isso cotidianamente em apps e sites
de comércio eletrônico que nos sugerem o melhor caminho, que filme assistirmos
e que produto teremos interesse em comprar. Muitas empresas de tecnologia estão
trabalhando ativamente em tornar a IA mais e mais lugar comum. Desenvolver
sistemas como chatbots está se tornando relativamente simples. O artigo “How
to Make Your First Chatbot With the Help of Game of Thrones
” mostra que
você não precisa de um PhD para construir um bot simples. E, isso é apenas o
começo da curva exponencial!

Algumas vozes de peso, como Stephen Hawking e Elon Musk,
alertam contra eventuais
riscos
. Nessa linha, um livro instigante chamado “Superintelligence: paths,
dangers, strategies
” foi best-seller nos EUA. Escrevi sobre esse assunto aqui
no site da CIO.

Outros pesquisadores são bem mais positivos. Mas, a frase que mais me
chama atenção é a do head de IA da Singularity University, Neil Jacobstein: “”Não é a Inteligência Artificial que me preocupa, é a estupidez
humana”. Perfeito!

Onde poderemos chegar? Ray Kurzweil do Google afirma “Na
década de 2030 poderemos inserir nanorobôs no cérebro (através de capilares)
que permitirão uma imersão total dentro do nosso sistema nervoso, conectando nosso
neocórtex à nuvem. Assim, expandindo nosso neocortex na nuvem, poderemos
expandir em até 10,000 vezes o poder de nossos smartphones.”. Vejam esse post de
Peter Diamandis, da Singularity University, abordando
esse comentário
.

A revolução conduzida pela IA está chegando tão rápido que
temos dificuldade em imaginar como ela se tornará. O imaginário de ficção
científica ainda predomina. Lembro de uma frase, de um dos filmes que me
marcaram e que tenho em casa, “2001: A Space Odyssey”, onde o computador se
intrometia na vida dos astronautas da tripulação : “Just what do you think
you´re doing, Dave?
”. De lá para cá vimos filmes de robôs como Terminator, “Eu,
robô”, Ela e Jarvis, o assistente pessoal de Tony Spark em Iron Man. A propósito,
Jarvis significa “Just Another Rather Very Intelligent System”. Ficção
científica poderia muito bem ser definido como antecipação científica. Muito
que vemos em Jarvis de alguma forma já está no nosso dia a dia.

Hal

Jeff Hawkins, fundador da Numenta (e inventor do Palm
Pilot), diz que a IA está hoje em um ponto similar ao da computação no início
da década de 1950, quando os pioneiros estabeleceram as ideias básicas dos
computadores. Menos de 20 anos depois, os computadores tornaram possíveis
sistemas de reservas de companhias aéreas e ATMs bancários e ajudaram a NASA a
colocar o homem na lua, resultados que ninguém poderia ter previsto nos anos
50. Adivinhar o impacto da IA e dos robôs em uma década ou duas está se
tornando ainda mais difícil. “Daqui a vinte anos, essa tecnologia será um
dos principais motores da inovação e da tecnologia, se não a principal”,
diz Hawkins. “Mas você quer previsões específicas? É impossível”.

O fato é que as maiores empresas de tecnologia estão
investindo pesado em IA e em suas interfaces. Temos o Watson, da IBM, a Alexa, da Amazon, a Siri, da Apple, e o Google Assistant.
Altíssimos investimentos da Microsoft, Google e Facebook. O Google, por exemplo,
nos surpreende a cada dia com seus avanços em IA. Vejam este artigo “Google’s
New AI Is Better at Creating AI Than the Company’s Engineers
. O ritmo de aquisição de startups de IA por
parte dessas empresas cresce signficativamente ano a a ano. O número de startps
cresce continuamente. Aqui
temos uma lista de 70 delas que atuam em deep learning e com alto potencial.

É indiscutível que a IA vai afetar o emprego como o conhecemos. A
automação, em seu início, afetou as linhas de produção nas fábricas. Agora o
risco de desemprego afeta funções que antes eram reservadas aos humanos. Por
exemplo, ser motorista de caminhão é um dos trabalhos mais comuns no mundo todo.
São 3,5 milhões deles só nos Estados Unidos e aqui no Brasil temos mais de um
milhão registrados para o transporte de carga.
O governo holandês já realizou um teste bem-sucedido de caminhões sem
motorista cruzando a Europa. O Uber pagou US $ 680 milhões para comprar Otto,
uma startup que desenvolve tecnologia para caminhões autônomos e que foi fundada
por especialistas de IA do Google. No ano passado um caminhão da Otto
atravessou o estado americano do Colorado carregando 45 mil latinhas de
Budweiser, percorrendo 190 quilômetros, a uma velocidade média de 90
quilômetros por hora. O motorista só pegou no volante nas rampas de entrada e
saída da autoestrada. A consultoria McKinsey previu que dentro de oito anos, um
terço de todos os caminhões na estrada serão autônomos, rodando sem motoristas.
Em talvez 15 anos, o motorista de caminhão, como o ascensorista, será um
anacronismo.

Temos um imenso desafio pela frente. Em janeiro de 2016, no
Fórum Mundial de Davos, seu chairman Klaus Schwab disse que uma mudança
estrutural está em andamento na economia mundial, no que seria o início da
Quarta Revolução Industrial. Segundo ele, esta revolução aprofundará elementos
da Terceira Revolução, a da computação e fará uma “fusão de tecnologias,
borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”.
Esta nova revolução, unindo mudanças socioeconômicas e demográficas, terá
impactos nos modelos e formas de fazer de negócios e no mercado de trabalho.
Afetará exponencialmente todos os setores da economia e todas as regiões do mundo.
Mas não do mesmo modo. Haverá ganhadores e perdedores. “As mudanças são tão
profundas que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de maior
promessa ou potencial perigo”. O impacto da IA pode e deverá afetar o equlíbrio
econômico e militar das nações. EUA, China e Russia já estão reconhecendo isso
e atuando com intensidade para disputar a liderança em IA. Um recente discurso
de Putin, na Russia, foi bem claro ao afirmar “Artificial intelligence is the
future, not only for Russia but for all humankind. Whoever becomes the leader
in this sphere will become the ruler of the world
”. O texto pode ser visto em
For
superpowers, artificial intelligence fuels new global arms race
”.

O mercado de trabalho
será afetado dramaticamente, inclusive com trabalhos intelectuais mais
repetitivos substituídos pela robotização. As mudanças não são perspectivas,
mas reais. Este assunto, impactos na mudança do mercado de trabalho já vem
sendo debatido, com algumas previsões apocalípticas estimando que em 10 a 15
anos cerca de metade das vagas de funções como operadores de telemarketing,
corretores, carteiros, jornalistas, desenvolvedores de software e outras terão
desaparecido, pelo uso de softwares e robótica encharcados de algoritmos
inteligentes. Um artigo instigante, “Will
robots actually take your job?
”, debate esse tema. O risco potencial é bem real. Recomendo a
leitura de um estudo muito instigante, “The
Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation?
”, que
aborda o assunto, com foco nos EUA, do que podemos chamar de “desemprego
tecnológico”. Recentemente o Deutsche Bank anunciou que poderá substituir
pessoas por sistemas de IA, em “Deutsche
Bank plans to replace a “big number” of workers with robots
”.

O estudo estima que cerca de 47% dos empregos atuais, nos
EUA, estão em risco. Entre estas funções estão, além dos motoristas de veículos
como caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas, desenvolvedores
de software, administradores de sistemas de computação, etc. Sim, até mesmo TI
entra na dança. Recentemente, Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun
Microsystem disse que 80% das funções de TI estarão em risco. O artigo é Venture
Capital Pioneer Vinod Khosla Says AI Will Lead to Massive Job Displacement
”.
Esta é uma diferença significativa que a chamada Quarta Revolução Industrial
está provocando. Os “colarinhos azuis” ou operários já estão diminuindo
sensivelmente, mas os “colarinhos brancos”, empregos nas tarefas
administrativas é que agora estão correndo o risco.

machinelearning

Diante desse cenário, não podemos ficar inertes. À medida as tecnologias de Machine Learning e Robótica avançarem, será
inevitável a substituição de diversas funções ocupadas por humanos hoje.
Ocupações que consistem de tarefas e procedimento bem definidos poderão ser
substituídos por algoritmos sofisticados. Como o custo da computação cai
consistentemente ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de
pessoas por máquinas. O processo é acelerado pela reindustrialização nos países
ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra
barata como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente
automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das
fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os
robôs. Este processo também está
ocorrendo na China e já existem diversas fábricas totalmente automatizadas e
cada uma delas emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas
tradicionais.

Talvez dentro de talvez cinco anos, a IA será melhor do que os
seres humanos no diagnóstico de imagens médicas e melhor do que os assistentes
legais na investigação da jurisprudência. Esse exemplo de uso de IA em medicina
é bem interessante: “IBM
Invests in Modernizing Medicine to Accelerate Adoption of Watson Technologies
in Healthcare
”.

Chris Anderson, curador do TED e AI XPrize propõem competição onde em torno de
2020 um sistema de IA poderá subir ao palco do TED e apresentar uma palestra
empolgante, que receberá aplausos entusiásticos da platéia. Isso implica em
habilidades que superarão a de muitas pessoas, como capacidade de se comunicar
além de vozes monotônicas, mas que gerem interessse e despertem emoção. E, claro, tenha conteúdo. Nem todas as
pessoas passariam neste teste! O primeiro passo já foi dado. Dois robôs já
travam diálogo entre eles, como podemos ver em “I watched two
robots chat together on stage at a tech event
”. Novamente, pensando
exponencialmente, é bem provável que em 2020 teremos um robô vencendo o AI
Xprize!

Um artigo muito instigante e que merece ser lido é “Intelligent
Automation: a new era of innovation
”, publicado pela Deloitte University
Press. Fica claro, pela sua leitura e inúmeros exemplos citados, que a
IA não é apenas curiosidade, mas vai afetar não apenas os empregos, mas a
maneira de como as empresas operam. Vai penetrar em todos os setores da
economia e afetar processos e modelos organizacionais, inclusive até
possibilitando a reinvenção de novos modelos de negócios. Vale a pena ler
também o artigo “How
Artificial Intelligence and robots will radically transform the economy
”,
publicado pela Newsweek.

A conclusão é simples, mas dramática. Os avanços
na inteligência artificial e robótica estão impulsionando uma nova era automatização
inteligente, que será um importante motor de desempenho empresarial nos
próximos anos. Afeta empresas, empregos, sociedade e a economia. Vai redefinir
o que é o trabalho e vai nos obrigar a redesenhar a atual formação educacional,
demandando fortes ações por parte de governos e das empresas. É essencial que
as corporações de todos os setores de negócio compreendam seu impacto potencial
ou ficarão para trás. IA não é coisa de nerd ou de cientistas, mas deve estar
nas reuniões do CEO e do board das organizações.


(*) Cezar Taurion é
head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros
sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e
Big Data

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