Firefox OS busca inovação sem gatekeeping

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11:55 am - 14 de setembro de 2012

A Mozilla quer salvar a web, de novo. A primeira vez foi em 2004, quando a organização direcionada à comunidade trouxe de volta a competição no mercado de navegadores com o lançamento do navegador Firefox Web. Era uma época em que o Internet Explorer, da Microsoft, contabilizava 95% do uso de browser no mundo.

Hoje, o Internet Explorer conta com menos de 1/3 do uso global, de acordo com avaliação da StatCount; e, embora o surgimento do Google Chrome tenha reduzido o número de usuários do Firefox, de 30%, há três anos, para cerca de 22% atualmente, a missão da Mozilla – que era promover a abertura e a inovação na Web – foi cumprida.

Por meio do Firefox e outros projetos, a Mozilla reviveu a competição entre navegadores e, por virtude de sua fatia de mercado, garantiu que a comunidade aberta da web ganhasse voz nos frequentes desenvolvimentos de padrões web.

Porém, salvar a web, assim como salvar o mundo, não é trabalho que se faça só uma vez. É uma cruzada crônica. E, dessa vez, salvar a web novamente pode também salvar a Mozilla. Em Os Incríveis, da Pixar, o super-herói Sr. Incrível lamenta, em determinado momento, a não permanência da salvação. “Não importa quantas vezes você salve o mundo, ele sempre volta a estar em risco”, declara a personagem no filme. “Às vezes eu gostaria que ele se mantivesse a salvo! Sabe, só por um tempinho? Me sinto como a faxineira – acabei de limpar essa bagunça! Podemos manter limpo por… 10 minutos?” Ou 10 anos. Menos de uma década depois de seu primeiro ato de heroísmo altruísta – o lançamento do browser Firefox, gratuito e em código aberto, que salvou o mercado de navegadores do domínio da Microsoft –, a Mozilla está reprisando seu papel como defensora do povo.

Dessa vez, é a web móvel que está ameaçada, não pela Microsoft, mas pela Apple e Google, as plataformas líderes de smartphones. Com seus aplicativos nativos, plataformas travadas, lojas proprietárias de software e regras caprichosas para desenvolvedores, Apple e Google estão tornando a tecnologia web menos relevante. Pelo menos, é assim que veem os líderes da Mozilla.

Para salvar a web, a Mozilla deve deixar sua zona de conforto na computação de desktop e mudar para onde está a ação: tecnologia móvel. É por isso que a companhia está desenvolvendo o Firefox OS, um sistema operacional baseado em browser para dispositivos móveis. Os primeiros telefones com o Firefox OS devem ser lançados no início de 2013, na América Latina, em parceria com a Telefônica.

Durante um evento, na semana passada, no escritório da Mozilla, em São Francisco (EUA), o CEO Gary Kovacs explicou porque a empresa está desenvolvendo o sistema operacional. “Voltamos à missão prioritária em que a Mozilla acredita, a web aberta e disponível para todos”. A Mozilla, com o Firefox, ajudou a garantir que “qualquer um pudesse se conectar a web sem nenhum gatekeeping”, disse Kovacs. “O motivo pelo qual estamos entrando no mercado móvel é apenas uma extensão dessa crença.”

São 2,5 bilhões de pessoas online, lembrou Kovacs, e as próximas 2,5 bilhões vem do mundo em desenvolvimento. “Para permitir que essas pessoas se conectem, temos que quebrar as barreiras proprietárias que hoje criam silos móveis”, avaliou. “Hoje eles têm de escolher, se tiverem condições de escolher, entre um dos dois mundos. E nenhum desses mundos representa a web aberta.”

O que torna a web aberta tão importante, de acordo com Kovacs, é a possibilidade de publicar e inovar sem ter de pedir permissão a ninguém. O problema em ter de pedir permissão é que nem sempre ela é recebida. No final de agosto, por exemplo, a Wired publicou que a Apple se recusou a aprovar um aplicativo que mapeava ataques aéreos por aviões americanos. Os dados disponibilizados publicamente apresentados pelo aplicativo não são ilegais; a Apple simplesmente considerou a apresentação dos dados pelo aplicativo “censurável”.

O Google não é um vilão tão rude quanto a Apple quando se trata de divergência com a definição de abertura da Mozilla. Não só pelo fato de o Google ter pagado milhões de dólares para a Mozilla torná-lo o buscador padrão no Firefox. O Google de fato é mais aberto em diversas formas.

Mas a definição de abertura do Google ainda é mais fechada do que a Mozilla gostaria. O Android vem com menos amarras que o iOS, mas ainda as tem. Empresas como a Amazon optaram por desenvolver para Android sem o envolvimento do Google, mas elas geralmente têm seus próprios conjuntos de exigências que limitam o que o usuário pode fazer. O Firefox OS aspira ser mais aberto.

Em solo, a situação não é tão preta e branca assim. Engenheiros da Apple, Google e Mozilla interagem regularmente uns com os outros e com representantes de outras empresas, como Microsoft, para definir padrões web de maneira amigável. Mas existe uma diferença real entre o que a Mozilla quer fazer e os impérios construídos pela Apple e pelo Google.

“Outros smartphones têm um único proprietário de tecnologia”, disse Andreas Gal, diretora de pesquisas da Mozilla, que prevê múltiplas lojas de aplicativos para web. “Qualquer pessoa que gostaria de facilitar a descoberta ou a venda de aplicativos pode ter uma loja na web.”

Carlos Domingo, diretor de desenvolvimento de produto e inovação da Telefônica Digital, disse que um dos é objetivos do Firefox OS é oferecer uma forma de os consumidores mudarem de aparelho sem perder conteúdo. “Hoje, se você tem um iPhone, você pode gastar entre US$ 100 e US$ 150 em conteúdo e aplicativos”, calculou Domingo. “Se amanhã você quiser comprar um Android ou um Windows Phone, você precisa recomeçar o zero e readquirir todos os aplicativos e conteúdo. Isso não é bom para operadoras de celular.”

Ao determinar o preço dos celulares com Firefox OS para atrair compradores, a Mozilla espera ganhar clientes em mercados emergentes. É uma escolha deliberada de não desafiar Apple a Google diretamente pelos clientes premium. Isso é o que a Microsoft está fazendo, disse Kovacs, que acredita ser um erro.

Salvar os celulares de plataformas proprietárias também pode salvar a Mozilla, que viu sua relevância cair conforme o foco da indústria de tecnologia mudou de desktop para dispositivos móveis. Além de se reestabelecer como líder de abertura em um universo móvel controlado, a Mozilla também pode ser capaz de diversificar sua fonte de renda.

Por meio do Firefox OS, a companhia terá a oportunidade de agregar valor às operadoras de celulares e possivelmente negociar algum retorno. Por exemplo, a plataforma móvel será inicialmente projetada para funcionar com planos pós-pagos, que é uma forma mais eficiente de monetizar aplicativos em mercados como a América Latina, em que uma porção significativa do acervo de clientes não tem acesso a cartões de crédito.

Existem possíveis problemas, como a falta de desenvolvedores interessados em aplicativos para web móvel e litígio de patente. Mas esses problemas podem ser superados. Se algumas empresas prosperarem ao monetizar aplicativos móveis por meio planos pós-pagos de celulares, os desenvolvedores devem passar a acreditar no potencial do novo mercado. Brendan Eich, CTO da Mozilla, disse que continua convencido de que a tecnologia web pode competir com as opções de desenvolvimento nativo.

Eich reconhece que a Mozilla ainda está cautelosa com questões de patentes móveis, sobre as quais Apple e Google lutam com garras e dentes. Enquanto existe preocupação no W3C com coisas como multitoque, ele disse: “algumas dessas patentes são muito específicas, então existem formas de contorna-las”. Ele destacou que as padronizações do W3C tornam a tecnologia disponível sem royalty e que, embora ele não possa garantir que não haverá alegações de infração, “contanto que tentemos padronizar com uma grande variedade de parceiros, acho que teremos força em números”.

É disso que o Firefox OS precisa: grandes números de usuários. Entre os próximos 12 e 14 meses, devemos ter uma ideia melhor se o sistema operacional da Mozilla terá números suficientes para sobreviver e prosperar.

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